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quinta-feira, 6 de maio de 2010

SANTA MONA LISA

Não poderia deixar de escrever, neste agradável exercício de conversar à distância, sobre um assunto que me intriga há anos e que, após a leitura de uma inusitada digressão no livro “Quando o nosso mundo se tornou cristão[1] do historiador Paul Veyne, uma luz foi acesa sobre minhas questões: quem são estas pessoas que andam rápido nas pinacotecas para bater foto das obras de arte? O que está acontecendo, de onde vens, ó turba, por quê tanto fotografas Mona Lisa?
O livro de Veyne trata com incrível erudição e deliciosa impertinência dos primeiros anos do cristianismo como religião oficial, no momento em que deixa de ser uma desconhecida e perseguida seita de vanguarda e passa a ter status de religião do próprio e convertido, ex-pagão, imperador romano Constantino, no ano 312. Na passagem do livro, que tanto me chamou a atenção e que foge um pouco ao tema central, quando o autor cita o filósofo Henri Bergson “existe, no fundo da maioria dos homens, algo que lhes faz um eco imperceptível”[2], ele se refere à uma “sensibilidade religiosa espontânea que não é dada a todos, mas que é pressentida pela maioria da população”. Sabemos que em quase todas as épocas e sociedades existiu este “pressentimento religioso” e que ainda em nossa época continua forte. Isto é, uma reverência ao invisível, ao inexplicável, um amor que nos é revelado e que potencializamos no imaginário. Mesmo a enorme parcela dos indiferentes, aqueles que chamamos gentilmente de “não praticantes” (mas que ainda se utilizam socialmente de algumas solenidades e ritos de passagem), tende a pender para a religião, que lhes inspira confiança, afeição, simpatia e bondade. Este “pressentimento religioso” é acessível à maioria, torna-se costume e costume significa respeito e senso de dever. Não muito diferente do patriotismo de um soldado.
O pulo do gato desta discussão é que o “pressentimento” desta maioria não é exclusividade da religião, nós não somos insensíveis aos valores (religiosos, artísticos, éticos...), valores às vezes só pressentidos à distância, elaborados de maneira vaga, porém comuns à maioria das pessoas. Não é possível que todos os frequentadores de um culto tenham o mesmo entendimento intelectual daquela religiosidade, então fala-se “Cada um entende à sua maneira”, a gente simples vai rezar com o que o seu vocabulário-repertório interior lhe permitir, e não poderia ser de outro jeito. Em um culto, a maioria segue o protocolo da cerimônia, senta-levanta-ajoelha-levanta-senta, por puro respeito: “Há algo de importante aqui”, “Precisa ser respeitado”, foi pressentido pela maioria desta sociedade, virou costume, eu sou desta sociedade, logo, é coisa séria... E, além disso, “estar numa igreja e saber que se passa algo grandioso e não utilitário é um momento da semana que não se parece com nenhum outro, mesmo que seja um pouco chato. Em sua maioria – senão na totalidade – eles vão docilmente e respeitosamente à missa; são os bons soldados da fé”[3], já diria Paulinho Veyne.
Voltando à Mona Lisa, não é possível exigir que todos os turistas do Louvre saibam o que estão vendo, e para isto não bastaria que eles somente lessem as notas explicativas em cada obra. Estes turistas, aos quais em algumas raras ocasiões eu me incluo, pressentem algo, sabem, confiam que há algo de valor, mesmo sem nunca terem lido nada a respeito, é aquele eco imperceptível. Se bem que, no caso do Museu do Louvre, como em outros famosos museus de exposição de arte, outros fatores entram em jogo: talvez o interesse em visitar já surja devido à própria fama do lugar, nem precisando do insight eco imperceptível. De um jeito ou de outro, durante esta peregrinação ao santo relicário, é engraçado ver a reação de alguns turistas após verem a Mona Lisa: “Mas que pequena!”. Não sei que tipo de gozo esperavam, e olha que o pessoal do Louvre capricha na exposição, tem uma parede só pra ela. Lembrei agora da minha própria decepção quando vi a escultura de cera do Arnold Schwarzeneger no Museu Madame Toussaud de Londres em 1996 e não reconheci o Exterminador do Futuro.
Ao levar o assunto para um lado mais pessoal, vejo que esse negócio de andar rápido pela exposição de arte não chega a me irritar, mas me deixa curioso pelo fenômeno (com exceção de um cidadão que me irritou quando percebi sua impaciência comigo; eu apreciava com tranquilidade as porosidades e maciez de uma escultura em mármore, enquanto ele queria exclusividade daquele metro quadrado para bater sua foto). Acho que a caricatura clássica dos turistas de museu ainda são aqueles grupos guiados de japoneses, seguindo a bandeirinha, virando as cabeças para todos os lados, meio barata tonta, uma cena até engraçada. Mas, este é apenas um exemplo, ainda existem vários outros e, como disse antes, não é possível exigir que todos saibam o que estão vendo ou que tenham todos o mesmo comportamento. Ante os seus ecos, cada um reage como quer ou consegue, mesmo que seja batendo mais e mais fotos.
Continuaremos sensíveis a reservar parte de nossa viagem à visita de museus e monumentos, confiaremos na bandeirinha e na turba de peregrinos... e também muitos ainda irão se emocionar com Bach na Notre-Dame, orgulhosos de serem cristãos.


Leandro Gaertner
Paris, Maio de 2010.

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[1] Sim, já existe uma tradução para o português.
[2] « il y a, au fond de la plupart des hommes, quelque chose qui leur fait imperceptiblement écho. »
[3] Esta tradução não é a oficial da versão em português, mas sim a oficial de um flautista chorão.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Tempo de Amor


Quando estávamos em Amsterdam sob o “efeito cogu”, ou seja, um efeito que altera a percepção visual após a ingestão de um determinado cogumelo mexicano, teve um momento que não queríamos bater nenhuma foto: “Pra quê?...se a foto não vai captar nada...” O que poderia escrever para capturar em um pequeno texto, um mês com a minha Cambacica visitando este também visitante de Paris? Amparado pelas centenas, milhares, de esculturas clássicas sei que posso sussurrar sem receio uma palavra que dá conta do conjunto de afetos deste mês que se acabou ontem...mês não....hoje deixo essa convenção de lado....deste tempo que acabou ontem. E a palavra que posso sussurrar é amor.
Afinal, gente, não há mais tempo para não nos amarmos, não nos adorarmos. Eu precisava muito deste tempo, pois andava com uns pensamentos depreciativos de nossa espécie, como meu professor (que dá sinais de “se pegar” muito com isso). Eu andava com dificuldades, nos vendo espécie animal demais, por todos os lados, mas um enfoque distorcido, doentio e triste. Mal podia coçar a cabeça ou ouvir uma criancinha gritando sem ter um “pensamento constatação espécie”, “macacos que andam de metrô”. Arrisco uma imaginação: muitos sentiram isso no final do século de Darwin e colegas. É evidente que eu também chegaria aí após tanto idílio laico. Mas, “saí dessa bad!” Ainda continuamos animais, mas que bela espécie a nossa! Que potência! Que fragilidade! Que singularidade! Quanta curiosidade nessa espécie! Enfim andamos eretos, inventamos funções para a roda, somos sociais, seguramos o fogo, sentimos medo, enfeitiçamos nossa casa, carregamos muita memória; ainda estamos digerindo aqueles cogumelos clássicos, gregos, franceses e alemães, aos pouquinhos nos despertando do sonho de Constantino. Sei que continuamos, pertencemos ao tempo. Não tenhamos pressa, afinal, esse é somente o nosso tempo. Vamos nos amar.
E é claro que o amor é melhor compreendido se presenciado, em tudo e em todos de um modo geral ou na Cambacica-Ximi-Ana Paula, em particular. Esse bicho, bicha fêmea que encontro com certa frequência nesses últimos sete anos e meio, incluindo os últimos trinta sóis. Como bem disse uma filósofa amante do desejo e da vida: “Um ser humano emocionado.” Emoção que se esparrama boca afora, entre largos dentes e largo sorriso, língua afiada e boquinha...lábios de bonequinha... Juntos ressignificamos, procuramos ávidos o lugar de onde falamos, sempre novos lugares, mais abertos, claros, brilhantes, belos e amorosos. Com ela é fácil ter amor, é fácil entender e acessar o amor. É fácil chorarmos emocionados perante nossa condição, nossa existência, nosso fim. Com amor é possível viver mil anos!

Camba, queria fazer conversinha contigo daqui a mil anos e ver como anda o tempo...


le
Paris, 29 de abril de 2010.

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Imagem: Amor e Psiquê (Antonio Canova 1757-1822)
(Obra em exposição no Museu do Louvre - Paris)

segunda-feira, 8 de março de 2010

Con [TRA] d [I] ções

"Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!"
Álvaro de Campos


Nada como alguém de fora para pôr nossos pensamentos fracos, incertos e desconexos em palavras, no meu e neste caso em particular, alguém como Albert Einstein (1879-1955) através de seu livro “Como vejo o mundo” (Mein Weltbild), publicado cerca de dois anos antes de sua morte.
Nunca tinha entendido muito bem porque aos 18 anos fugi do serviço militar como o diabo fugiria da cruz, da estrela de Davi e da lua crescente, naquela época sonhando em fazer minha primeira viagem à Europa o mais rápido possível, num processo adolescente de auto-afirmação e conhecimento... e que continua até hoje... O fato é que, após ter vivido a seleção de recrutas do exército brasileiro, a famosa experiência do “Cueca no joelho!” e a desagradável filinha do “opa, desculpa...”, acabei sendo agraciado com a dispensa daquele ano obrigatório, intermediada por um pistolão. Isso sempre me pareceu contraditório, pois sempre fui atraído, como grande parte das crianças e jovens, por brincadeiras militarescas, aventuras, missões, acampamentos, conhecimentos selvagens, correr na lama e tiro ao alvo, apesar de sempre ter sido um tanto avesso às alvoradas festivas antes das 9 horas da manhã. Sabia que podia ser um ano deveras divertido, consolidar novas e inusitadas amizades no quartel e enfim, poder encerrar em grande estilo minha infância de missões secretas, combates e pequenas guerras no nosso jardim e barranco do rio. Mas, mesmo com isto em mente, quase como um reflexo vital sabia que era hora de dar um verdadeiro passo adiante e para isto não poderia servir o exército de jeito nenhum.
Até hoje ainda tenho uma grande queda estética pelas marchas, melhor dizendo, pelos “dobrados” militares. Eu continuo apreciando o conjunto de marchar cantando, a ordem, a vibração, a cerimônia em si, a música sempre afirmativa e positiva; se bem que, após estas últimas semanas de reflexão esse prazer antigo e infantil também corre o risco de desaparecer por completo. Mas isto ainda é uma conjectura, pois minha experiência inicial com música foi muito bem preenchida por bombardeios na Bahia, velhos camaradas e semper fidelis na Banda São Pedro, difícil de apagar aquela alegria cheia de movimento e lindas linhas do bombardino... por outro lado também hoje fico muito contente quando lembro que ao lado das marchas também tinha o Xandoca e o Beto brincando no sax tenor, o Nego Vida do Trombone, os irmãos Koser e o Zeca fazendo um samba bonito naquele bafo de onça e no barracão de zinco, que hoje é minha mansão! Todo esse repertório de marchas e sambas antigos está lá de um jeito ou de outro quando fico arrepiado.
Essa mesma vibração com a música de ritmo preciso e firme, da marcha e da ordem também me trouxeram um prazer imenso nas formaturas da Academia da Força Aérea. Lembro muito bem de minhas sensações daqueles dias em Pirassununga, vendo aquele mar de rapazes dispostos, uma grande parte deles, imagino, idealistas... Tudo me causou uma forte impressão. Hoje entendo que foi uma impressão de orgulho e garbo ainda infantil. Mesmo ainda gostando das empolgantes marchas, mesmo que uma criancinha ainda grite aqui dentro que deve ser divertido marchar e cantar ao mesmo tempo ao lado de 100 homens também devo admitir com crua sinceridade minhas contradições e que as palavras de Einstein fazem barulho na minha cabeça:

A pior das instituições gregárias se intitula exército. Eu o odeio. Se um homem puder sentir qualquer prazer em desfilar aos sons de música, eu desprezo este homem... Não merece um cérebro humano, já que a medula espinhal o satisfaz. Deveríamos fazer desaparecer o mais depressa possível este câncer da civilização. Detesto com todas as forças o heroísmo obrigatório, a violência gratuita e o nacionalismo débil. A guerra é a coisa mais desprezível que existe. Preferiria deixar-me assassinar a participar desta ignomínia.
(Albert Einstein)

Por vezes eu esqueço que todas aquelas marchas, pompa, uniformes e ordem são em função desta antiga instituição humana, a força militar, este velho instrumento de força e de poder por coação. Mas, acho prudente desconfiar do que afirma Einstein quanto à “pior das instituições”, pois todo este ódio está vinculado às suas experiências pessoais e às angústias de sua época[1]. Concordo que para avançarmos de verdade como espécie, a instituição militar, num cenário obviamente ingênuo e utópico concebido por humanistas e pacifistas aos quais sem dúvida me identifico, deveria ser reestruturada em sua inteireza. É claro que após a segunda grande guerra do século 20 foram realizados esforços neste sentido, como tentativa de atenuar o nacionalismo-etnismo exacerbado, mais cooperação entre a nações e, sobretudo, na valorização do aspecto comunitário global, como a ONU, UNESCO, UNICEF, um aumento significativo de ONGs internacionais, etc. Porém, nossa humanidade, em sua maioria ainda muito embrutecida e com uma evidente queda pelo “tribal-guerreiro”, não nos permite tomar decisões sem o uso sistemático da espada.
Minha contradição é esta; estou certo que não teríamos mais as Forças Armadas e nem a Igreja se não fôssemos um número tão grande de “pequenos hugo chaves” espalhados pelo planeta, mas concordo que quando a coisa aperta são estas duas instituições as primeiras a chegar... Mesmo que na maioria das vezes, com exceção de terremotos, quedas de avião e afins, são estas mesmas instituições que garantem a desgraça. Repito uma utopia: deveríamos pensar numa Força Desarmada de apoio global e no lugar da fé religiosa deveríamos buscar uma profunda noção de humanismo contextualizado com a vida na Terra. É estranho que as pessoas só se desesperem pela paz em tempos de guerra.
Minha contradição é querer o fim das armas, mas jogar Call of Duty e Counter Stryke; é estar consciente da ignobilidade do garbo militar e mesmo assim ter composto um hino militar para ser marchado e cantado por soldados, com o bumbo imitando o som de canhões... E fiz este hino por admirar muito o caráter e o profissionalismo do piloto de caça. Fiz com o maior esforço e coração aberto, com a intenção de fazer o melhor possível, com respeito verdadeiro à história de um esquadrão de aviação militar. É uma senhora contradição! O meu amor fraterno permite essas coisas. Também devo dizer que li o livro de Einstein depois de já ter terminado a composição e com isso quero dizer que, se começasse a compô-la hoje, o bom resultado estaria comprometido.
Acho que não poderei mais compor marchas militares, mas não garanto que não sentirei gozo estético ouvindo a banda, o batalhão e os aviões a jato.

*

N
este mesmo livro de Einstein também fiquei bastante surpreso, e até bem decepcionado por sua aberta adesão ao judaísmo. Talvez seja útil deixar claro o fato de que eu não ficaria menos ou mais decepcionado se Einstein alardeasse sua adesão ao cristianismo, budismo, islamismo, espiritismo ou a qualquer outra destas manifestações culturais arcaicas e segregadoras, verdadeiras travas enferrujadas ao livre pensamento e ao desenvolvimento humano contemporâneo. O terrível mal que sofreu a comunidade judaica na primeira metade do século 20 é a única explicação possível para o discurso tão apaixonado e abertamente segregador de Einstein.
No subcapítulo onde fala sobre “Comunidade e Personalidade” ele ainda se aproxima da ideia de comunidade humana, mas num sentido que mais tende a explicar a condição do homem como um ser social do que a elaborar um pensamento amplo da espécie humana, como uma comunidade única e sem fronteiras.

Eu, enquanto homem, não existo somente como criatura individual, mas me descubro membro de uma grande comunidade humana. Ela me dirige, corpo e alma, desde o nascimento até a morte.
(Albert Einstein)


Um pouco mais adiante, no subcapítulo “Anti-semitismo e juventude acadêmica”, Einstein enfatiza a necessidade da afirmação de uma tradição cultural judaica. Este tipo de discurso acontece em praticamente todo o capítulo 4 (“Problemas judaicos”):

Como para todas as doenças psíquicas, a cura exige uma clara explicação da natureza e das causas do mal. Temos de elucidar perfeitamente nossa condição de estrangeiro e daí deduzir as consequências. É estúpido querer convencer outrem, mediante todo tipo de raciocínio, de nossa identidade intelectual e espiritual com ele. Porque a própria base de seu comportamento não é obtida pela mesma camada cerebral. Temos de emancipar-nos socialmente, encontrar por nós mesmos a solução para nossas necessidades sociais. Temos de formar nossas sociedades de estudantes, comportar-nos frente a não-judeus com toda a cortesia, mas com lógica. Queremos também viver a nosso modo, não imitar os costumes dos espadachins e dos beberrões. Nada disto nos diz respeito. Pode-se conhecer a cultura da Europa e viver como bom cidadão de um Estado, sem deixar de ser ao mesmo tempo um judeu fiel. Não nos esqueçamos disto e façamos assim! O problema do anti-semitismo, em sua manifestação social, será resolvido então.
(Albert Einstein)

Por quê este pensamento tribal de Einstein? Não pretendo aqui realizar uma análise aprofundada do que Einstein escreveu ou não, se a tradução e a edição do livro que chegou até minhas mãos é 100% fiel às ideias do escritor ou não, ou então aprofundar de verdade a discussão sobre a cultura, individualidade, comunidade, concepção de vida de Albert Einstein. A minha principal crítica é quanto ao afastamento de Einstein à noção de “Universais[2] da humanidade, isto é, ele se afasta da noção de comunidade maior, do potencial comum inerente à nossa existência, evolução e desaparecimento. Este afastamento é evidente quanto ele insiste no orgulho da comunidade judaica e a diferencia dos indivíduos não judeus. Fiquei surpreso, pois não poderia imaginar que esta cisão cultural histórica e desastrada ainda estaria na boca de um dos grandes gênios do século 20.
Considero válido ressaltar os aspectos particulares positivos desta ou daquela cultura em prol da humanidade, como quando ele faz no subcapítulo “Cristianismo e Judaísmo”:

Se se separa o judaísmo dos profetas, e o cristianismo tal como foi ensinado por Jesus Cristo de todos os acréscimos posteriores, em particular aqueles dos padres, subsiste uma doutrina capaz de curar a humanidade de todas as moléstias sociais. O homem de boa vontade deve tentar corajosamente em seu meio, e na medida do possível, tornar viva esta doutrina de uma humanidade perfeita. Se realizar lealmente esta experiência, sem se deixar eliminar ou silenciar pelos contemporâneos, terá o direito de se julgar feliz, ele e sua comunidade.
(Albert Einstein)

Ou quando Einstein elogia o aspecto da tradição judaica de valorização à vida:

Como é viva no povo judeu a consciência da sacralização da vida! É muito bem ilustrada até na historiazinha que Walter Rathenau me contou um dia: “Quando um judeu diz que caça por seu prazer, ele mente”. A vida é sagrada. A tradição judaica manifesta esta evidência.
(Albert Einstein)

É evidente que tradições humanas como o cristianismo e o judaísmo tem pontos a seu favor, do contrário não teriam sobrevivido por tanto tempo. Suponho que este aspecto de valorização à vida por parte dos judeus e o aspecto da partilha e da compaixão por parte dos cristãos, por exemplo, deva ser de alguma maneira real. Porém, sei que falo isto do meu ponto de vista, de 2010 e bem relaxado, um tanto despreocupado com o passado remoto, como os primeiros anos da sociedade cristã, conflitos com as sociedades "pagãs", processo civilizador ou não, etc... Difícil conceber a realidade (se não impossível) de outro zeitgeist[3] (quanto mais distanciado no tempo mais difícil fica), a despeito de tentativas bastante interessantes como a do filme Walhalla Rising (2009) de Nicolas Winding Refn. Acredito que uma observação distanciada e apartidária das virtudes e dos vícios das antigas tradições humanas, sejam elas políticas ou religiosas, ou então somente compreendidas como “tradições culturais”, possa ser útil ao conhecimento e ajudar a resolver algumas questões humanas.
O judaísmo para Einstein é sobretudo uma tradição, uma cultura humana e que pode estar desligada da religião ou da fé em deus. Ele chega a afirmar que “Deus não existe para o judaísmo, onde o respeito excessivo pela letra esconde a doutrina pura” no subcapítulo “Há uma concepção judaica do mundo?” O que significa dizer que: se você compreender a “doutrina pura” do judaísmo, verá que deus não existe. Neste ponto, eu penso que Einstein tinha a concepção de deus bem resolvida na sua mente genial de físico teórico, tanto que não me preocupei em citá-lo para corroborar minhas (nossas, dawkinianas) ideias ateístas no texto “Uma breve história de Deus”, mas ele tinha que forçar a barra nesse status de jateu, o judeu-ateu, para camuflar a contradição. Ora, provavelmente a concepção de deus ou deuses em nossa mente deve ser um dos Universais humanos.
E finalmente, como exercício de refletir o que para mim soou como um disparate, pois não poderia ter outra impressão ao ler Einstein falando em “nosso povo judeu” ou “eu sou judeu”, afinal ele critica o nacionalismo e logo em seguida se etiqueta. Então, suponho que suas reflexões sobre o judaísmo não passem do mais puro produto zeitgeist, uma tomada de consciência e de postura urgente por parte dos intelectuais da primeira metade do século 20:

Os judeus formam uma comunidade de sangue e de tradição, sendo que a tradição religiosa não representa o único ponto comum. Revela-se antes pelo comportamento dos outros homens diante dos judeus. Quando cheguei à Alemanha, há quinze anos, descobri pela primeira vez que era judeu e esta descoberta me foi revelada mais pelos não-judeus do que pelos judeus.
(Albert Einstein)

Abraçar com força a causa talvez tenha sido a única maneira encontrada por ele de guardar as jóias desta cultura humana. Mas este felizmente não é mais o nosso caso, nem daqueles que se dizem cristãos, islâmicos ou judeus. Todos nós podemos jogar estas etiquetas pela janela, agora elas já poderiam ser problema exclusivo de historiadores e antropólogos, porque estou certo que o polegar opositor e a escrita já são provas suficientes para gritar a plenos pulmões:

NÃO HÁ MAIS TEMPO PARA NÃO NOS SATISFAZERMOS COM NOSSOS UNIVERSAIS!

Leandro Gaertner
Paris, Março de 2010.

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[1] É bom lembrar que Einstein viveu o auge da ascensão do movimento nacionalista e ainda, para piorar, atravessou as duas grandes guerras do século 20 como um cientista de formação judaica, alvo principal da eugenia nazista. A sua ojeriza pelo militarismo é bem justificável.
[2] O termo “Universais” remonta à filosofia clássica de Aristóteles e Platão e refere-se a uma maneira de compreender o que parece ser comum a coisas diferentes, enquanto opõe as particularidades. Por exemplo, existe os Universais da espécie humana, porém cada humano apresenta sua singularidade.
[3] “Espírito do tempo”, isto é, características, problemas, crenças, certezas, incertezas, conhecimento e contexto inerentes e particulares a uma determinada época.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Sobre o Homo-Vegeta-Ha(ma)bilis‏

O texto "TRANSFIGURAÇÃO - A absorção de um homem por uma árvore" (publicado dia 10 de setembro neste mui exclusivo blog) rendeu bons frutos, sementes, raízes e flores nas mãos de minha querida amiga de Desterro (cidade atualmente conhecida como Florianópolis), uma das artistas mais compleXtas que já tive o prazer de conhecer e conviver, e com o nome mais que perfeito para o conTexto: Flora Holderbaum! (inclusive existe em Joinville (SC) um comércio de plantas com o mesmo nome... fato que torna tudo cada vez mais apropriado!)
Além disso, minha estimada cunhada alemã Sol Flörke, atualmente em um posto avançado da FAB em Passau, completa minha breve introdução e torna ainda mais incrível a rede de associações com a tradução da palavra "Holderbaum": hold=linda/cara/fagueira; baum=árvore. E assim, arrisco uma tradução para este Holderbaum cada vez mais entranhado na terra: Árvorequerida! Nada mal para as Magnolias grandifloras, nada mal para um texto escrito por um Feijão Jardineiro!
Então, finalmente, segue abaixo o comentário desta artista dos sons, das cores, das palavras e das sensações, e que há mais de oito anos soube me guiar pela ilha, sob a escuridão do blecaute, e que continua a compartilhar seus amorosos sensíveis sentidos, influenciando a mim e também as pessoas que me cercam; basta ler os textos recentes da minha frutífera Pereira (metasnalinguagem.wordpress.com)... e que venham mais cafés prolongados em Meia-Praia...


"Caro Homo-vegetalis....


Teu novo texto absorvido em folhas (ou das folhas) inspirou em mim a lembrança esticada de alguns trechos que coloquei no meu TCC (Isto Não É Um título).
Cabe certeirassutadoramente a citação de Otávio Paz, colada mais abaixo. Apresento-te também, se não o conheces, os autores Deuleuze a Gattari, por sinal franceses, pensadores contemporâneos, creio que da vanguarda do pensamento sobre a linguagem.
Tua forma de descrever ou inscrever tuas percepções presente passadas lembrou-me muito um conceito que eles colocam: o Devir.
Também achei muito rica a maneira de escrever causando o desgaste da percepção de quem lê, como que desfiando um fio narrativo (ou a descrição dos substantivos perceptores: "ramificação mais sensível dos limites de minha extensão") para desaparecer o significado que se formará logo a seguir na mente de quem lê, e não tece uma sequência forçosamente literal--linear esmagadora e concentradora de um só significado por alguns caracteres, que assim abertos, tornam-se livres para colarem-se às partes, ou funções, que se -lhes vierem a fazer "devir"...a conectarem-se por extensões rizomáticas.
Enfim....
Te jogo aqui algo densamente e deliciosamente louco sobre o que é escrever o que se sente e vê e vive e pensa e expressa. Se puder, pegue os livros....para mim foi um delíreo lúcido lê-los...Fica a teu cargo (como escrevi horrores) escolher algum trecho pra colocar como comentário no teu blog!

"Para Deleuze e Guattari, um devir consiste "a partir das formas que se tem, do sujeito que se é, dos órgãos que se possui ou das funções que se preenche, extrair partículas, entre as quais instauramos relações de movimento e repouso, de velocidade e lentidão, as mais próximas daquilo que estamos em via de nos tornarmos, e através das quais nos tornamos.", Ou seja, o devir implica num processo de vizinhança, estabelecendo relações rizomáticas com o outro. (DELEUZE, GILLES e GATTARI, FÉLIX - Capitalismo e Esquizofrenia -vol 3, RJ:Ed.34,1996 [Coleção TRANS], p.24.)

"Nenhuma habilidade tipográfica, lexical, ou mesmo sintática será suficiente para fazê-lo ouvir. É preciso fazer o múltiplo, não acrescentando sempre uma dimensão superior, mas, ao contrário, da maneira simples, com força de sobriedade, ao nível das dimensões de que se dispõe, sempre n-1 (é somente assim que uno se faz parte do múltiplo, estando subtraído dele). Subtrair o único da parte a ser construída, escrever a n-1. Um tal sistema poderia ser chamado de rizoma.(DELEUZE e GATTARI, 1995, p.14).

[...escrever sobre escrever é o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoites ou uma página em uma noite_que é o mesmo noites e páginas mesma ensimesmam onde o fim é o começo onde escrever sobre o escrever é não escrever sobre não escrever[...]" (CAMPOS, Haroldo de. Galáxias, SP:Editora 34, 2004, 2a ed., s/p.)
As multiplicidade são rizomáticas [...]. Uma multiplicidade não tem sujeito nem objeto, mas somente determinações, grandezas, dimensões que não podem crescer sem que se mude de natureza (as leis de combinação crscem então com a multiplicidade)" (DELEUZE e GATTARI, 1995, p.16).
Um livro não tem objeto nem sujeito; é feito de matérias diferentemente formadas, de datas e velocidade muito diferentes. Desde que se atribui um livro a um sijeito, negligencia-se este trabalho das matérias e a exterioridade de suas correlações.[...]. Num livro, como em qualquer coisa, há linhas de articulação ou segmentaridade, estratos, territorialidade, mas também linhas de fuga, movimentos de deterritorialização, e desestratificação. As velocidades comparadas de escoamento, conforme estas linhas, acarretam fenômenos de retardamento relativo, d eviscosidade ou, ao contrário, de precipitação e de ruptura. Tudo isto, as linhas e as velocidades mensuráveis, constitui um agenciamento. Um livro é um tal agenciamento, e como tal, inatribuível. (Deleuze e Gattari. Mil Platôs - capitalismo e esquizofrenia- vol 1. RJ Ed. 34, 1995,p.11 e 12.)
E por fim, sobre o esquecimento ou o desparecimento das impressões ou sensações limítrofes de partes longínquas da percepção versus a solida realidade aberta e das sensações primevas induvidosas. Ou sobre as ramificações da percepção que desaparecem ao serem detectadas num ponto esticado da máquina que capta o real/irreal envolta e por dentro .Ou sobre o aprisionamento dual realidade/mera fantasia onírica e sua possível dissolução em milhões de anti-definições, estas sim, abertas:
"Não são as sensações, as percepções, as imaginações e os pensamentos que se ascendem e se apagam aqui, agora,[...], não são o outro lado da realidade mas o outro lado da linguagem, o que temos na ponta da língua e se desvanece antes de ser dito; do outro lado que não pode ser nomeado, porque é o contrário do nome: o não-dito não é isto ou aquilo que calamos, também é nem-isto-nem-aquilo: n]ao é a árvores que digo que vejo mas a sensação que sinto ao sentir quea vejo, no momento em que vou dizer que vejo; uma concentração insubstancial, mas real, de vibrações e sons sentidos que ao se combinarem traçam uma configuração de uma presença verde-bronzeada-negra-leitosa-avermelhada-sonora-silenciosa; não, também não é isso, se não é um nome ainda menos será a descrição de um nome nem a descrição de sensação do nome nem o nome da sensação: a árvores não é o nome árvore tampouco é uma sensação de árvore [...] os nomes, já sabemos, estão ocos;[...] sensações que não são percepções não são sensações, percepções que não são nomes, o que são? se não o sabias, agora já o sabes: tudo está oco[...]e, apenas digo tudo-está-oco sinto que caio na armadilha: se tudo está oco, também está oco o tudo-está-oco;não pleno e repleto, tudo-está-oco cheio de si, o que tocamos e vemos e ouvimos e degustamos e sentimos e pensamos, as realidade que inventamos e as que nos tocam, nos vêem, nos ouvem e nos inventam [...]"
[...] e apenas digo, apenas escrevo com todas as suas letras que não é realidade o desnudar de nome, os nomes evaporam, sãoa r, são um som engastado em outro som e em outro e em outro, um murmúrio, uma frágil cascata de significados que se anulam [...]
[...] a resposta é reversível, as frases do fim são o avesso das frases do começo e ambas são as mesmas que são[...] a massa agitada do arvoredo de faias de minha janela enquanto o vento estcétera lições etcétera destruídas etcétera e o próprio tempo etcétera, as frases que escrevo neste papel são as sensações, as percepções, as imaginações, tcétera, que se ascendem e se apagam aqui, diante dos meus olhos, o resíduo verbal: é o que resta destas realidades sentidas, imaginadas, pensadas, percebidas e dissipadas, [...].(PAz, Otávio. O MONOGRAMÁTICO). RJ: guanabara, 1988, p.51-52,53-58).
Não se perguntará nunca o que um livro quer dizer, significado ou significantes, não se buscará nada compreender num livro, pergutarse-á com o que ele funciona, em conexão com o que ele faz passar intensidades, em que multiplicidades ele introduz e metamorfoseia a sua, com que corpos-sem-órgãos ele convergiu o seu" (segundo os autores, 'ninguém, faz amor sem construir para si, sozinho, com outros ou com outros, um corpo sem órgãos. Um corpo sem órgãos não é um corpo vazio desprovido de órgãos, mas corpo sobre o qual o que serve de órgãos [...] se distribui segundo movimentos de multidões,[...], sob forma de multiplicidades moleculares. [...] O corpo sem órgãos não é um corpo morto, mas um corpo vivo, e tão vivo e fervilhante que expulsou o organismo e sua organização')_ (DELEUZE E GATTARI, opus cit., p.43 .)
Tomara que te fervilhe a razão!"
Flora Holderbaum
Desterro, Setembro de 2009
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terça-feira, 29 de setembro de 2009

Carta de Benjamin Costalat (1922)

OS OITO BATUTAS
Fujo um pouco ao normal deste blog ao incluir uma carta de 1922 do cronista carioca Benjamin Costalat ao jornal Gazeta de Noticias. Na época muito se discutiu sobre a ida dos Batutas à Paris, seu valor, sua qualidade musical, questões racistas (pois a maioria do grupo era de músicos negros), se seriam eles representantes legítimos ou não, adequados ou não, da cultura brasileira, que vivia momentos de afirmação nacionalista em pleno ano do centenário da independência... Esta história vai muito mais longe e foi maravilhosamente contada na tese de doutorado (que li muitos trechos emocionado e com os olhos marejados) de Luiza Mara Braga Martins, defendida ainda este ano no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense.
Este velho texto que segue não só merece, como precisa ser lido por todos os chorões e amantes da boa música! E o coloco aqui com muito orgulho por também ser um chorão, flautista, acadêmico boêmio, doctorant-bon-vivant, empenhado em continuar esta história, tocando Pixinguinha nas salas da Sorbonne!



"Foi um verdadeiro escândalo quando, há uns quatro anos, os Oito Batutas apareceram. Eram músicos brasileiros que vinham cantar coisas brasileiras! Isso em plena Avenida, em pleno almofadismo, no meio de todos esses meninos anêmicos, frequentadores de cabarés, que só falam francês e só dançam tangos argentinos! No meio do internacionalismo das costureiras francesas, das livrarias italianas, das sorveterias espanholas, dos automóveis americanos, das mulheres polacas, do esnobismo cosmopolita e imbecil!
Não faltaram censuras aos modestos Oito Batutas. Aos heroicos Oito Batutas, que pretendiam, num cinema da Avenida, cantar a verdadeira terra brasileira, através de sua música popular, sinceramente sem artifícios nem cabotinismo, ao som espontâneo dos seus violões e dos seus cavaquinhos. A guerra que lhes fizeram foi atroz. Como músicos eram bons, batutas de verdade, violeiros e cantadores magníficos. Como a flauta de Pixinguinha fosse melhor do que qualquer outra flauta por aí saída com dez diplomas de dez institutos, começaram os despeitados a alegar a cor dos Oito Batutas, na maioria pretos. Segundo os descontentes, era uma desmoralização para o Brasil ter na principal artéria de sua capital uma orquestra de negros. O que iria pensar de nós o estrangeiro?
Tive a honra de defender (e essa defesa foi das que fiz com mais entusiasmo em minha vida de jornal) os Oito Batutas naquela ocasião. Hoje, porém, tenho que voltar ao assunto: os Oito Batutas embarcam esta semana para Paris.
- Para Paris?
- Mas isso é uma desmoralização!
- Como é que o ministro do Exterior não toma providencia?
- Agora é que o Brasil vai ficar inteiramente desmoralizado!
Calem-se os imbecis. Calem-se os patriotas baratos. Calem-se os músicos pernósticos que fazem música das Casas Mozart e Artur Napoleão. Os Oito Batutas não desmoralizarão o Brasil. Levarão a verdadeira música brasileira, essa que ainda não foi contaminada por influências alheias e que vibra e que sofre e que geme por si, cantando luares dos sertões e os olhos da cabocla... Levarão o perfume das nossas matas, o orgulho das nossas florestas, a grandeza da nossa terra, a melancolia da nossa gente, a bondade e o amor dos nossos corações, ditos e cantados pelo verso simples e a música sublime da alma popular... Levarão o verdadeiro Brasil, desconhecido dos próprios brasileiros, mas formidável assim mesmo no enigma de suas forças e de suas aspirações...
- Mas são negros !
- Que importa ! São brasileiros !
Devemos procurar ser conhecidos na Europa tal qual somos. Com os nossos negros e com tudo o mais... Nada perderemos com isso. Temos uma personalidade internacional tão digna quanto as outras, e cumpre afirmá-la a cada instante:
- Somos assim. E se nos quiserem...
Detesto esses bons patriotas que, na Europa, querendo fazer propaganda desta terra, negam que no Brasil haja calor e negros, duas coisas que eles consideram bastante deselegantes.
- Mas, por que?
Porque consideram o calor e o negro duas coisas vergonhosas, se elas, primeiro, não o são e, segundo, são bem nossas, bem brasileiras? Eu quisera que no Brasil houvesse gente verde, gente de todas as cores, calor de enlouquecer, calor de matar, para poder afirmar com orgulho a existência de todas essas pretendidas calamidades aos europeus! E se eles se espantassem com o calor do meu país, eu me espantaria com o frio deles, se eles gritassem contra o sol, eu gritaria contra o gelo, se eles falassem contra o preto, eu falaria contra o branco, e assim não acabaríamos nunca! Não acabaríamos mesmo nunca! Cá por mim, não acabaria! Tenho muita coisa a dizer da Europa em reação às coisas que se disserem no Brasil!
Não é, pois, vergonha sermos conhecidos tal qual somos. Ao contrário, isso nos deve honrar.
Vergonha é sermos inteiramente desconhecidos. E é o que somos.
Noutro dia ainda, apareceu o Almanach Hachette, de 1922, que é comprado aos milhares e há anos, no Brasil, dando uma descrição fantástica da bandeira brasileira. Mas, uma descrição fantástica! O francesinho que a escreveu falara em linhas paralelas e nãosei mais quantas asneiras!
Isto é que é vergonha. E sem vergonha são estes livreiros daqui que vendem semelhante porcaria e não devolvem imediatamente ao Sr. Hachette o seu latrinário almanaque com um pouco de creolina.
Amanhã, também não teremos obrigação de conhecer a bandeira francesa. Podemos descrevê-la como entendermos. Com qualquer cor, com qualquer símbolo. E, naturalmente, o Sr. Hachette será o primeiro a protestar... vendendo mais caro os seus livros.
O sucesso dos “Oito Batutas”, em Paris, será grande. Será a revelação de uma música inteiramente nova na beleza de seus ritmos e de sua melodia.
Paris que eu vi, ainda há meses, festejar uma grande orquestra americana de pretos. “The Syncopated Band”, que tocava Beethoven e todos os clássicos com acompanhamento de buzina de automóvel, apito de trem, campainhas, latas velhas e os barulhos mais infernais e mais prosaicos que a imaginação mórbida do jazz-band conseguia inventar, uma orquestra que enlouquecia, uma música que dava cólicas; Paris, que foi em peso, de casaca, com luxuosíssimas toilettes, ouvir religiosamente todo aquele ruído ridículo no Theatre des Champs Elysées, naturalmente saberá fazer distinção entre nossos músicos e os palhaços americanos, os homens das latas, das buzinas e dos apitos...
Os americanos levaram barulho. Os nossos levam sentimento. O que saiu das latas, vai sair agora dos corações. A diferença é grande... Não é mais Beethoven com chocalhos que os franceses vão ouvir. É a música de uma terra e a alma de uma gente distante. Terra do luar, da cabocla, do violão... Terra admirável de sentimento onde até os coqueiros morrem de saudade!...
Tu não te lembras da casinha pequenina
Onde o nosso amor nasceu
Tinha um coqueiro ao lado
Que, coitado, de saudades já morreu!
E ouvindo as nossas modinhas, e ouvindo cantar as nossas noites de luar e o nosso sertão e os olhos das nossas morenas, e o nosso amor e as nossas saudades, muitos franceses hão de se comover. E no cabaret, estonteante de alegria e de luzes artificiais, muita cocotte, olhos fundos de crayon, lábios úmidos de champagne, há de chorar ouvindo a ‘asa branca da serra’ ou uma ‘casinha na praia’. Há de chorar, e com razão, a casa branca que ela nunca teve, nem na praia, nem na serra...
Chorarás, mulher!, mesmo sem compreender as palavras, porque a modinha brasileira fala pela voz de seu violão. E todos o entendem na sua linguagem cantante...
Chorarás a pequena casa branca da felicidade onde a garrafa de champagne é um riacho que geme mansamente todo o dia e toda a noite, e vem, puro, lá dos altos das montanhas infinitas... E compreenderás, enfim, graças à modinha, plangente mas feliz, que é ainda cá nestes maravilhosos sertões brasileiros que há um pouco de beleza e de felicidade espalhadas entre os homens..."
BEMJAMIM COSTALAT
Janeiro de 1922


Fonte: Museu da Imagem e do Som, Arquivo Almirante: Carta de COSTALAT, Benjamin, na Gazeta de Noticias, domingo, 22 de janeiro de 1922, p. 2, 7ª Coluna.
Foto: Jornal A Noite, 14 de agosto de 1922

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

-TAPIRA SKY-

Assim como aconteceu com Recife, minhas impressões sobre a Fazenda Mangueira Preta e Tapira se contornam à medida que estes lugares se afastam no tempo. Porém, estas são impressões urgentes e não poderia esperar (leia-se “me controlar”) muito para escrever, mesmo sem o medo de perdê-las. Destas impressões a mais impressionante é o meu novo olhar para a nossa localização no Sistema Solar, e assim na Via Láctea e assim, construir uma imaginação um pouco mais audaciosa sobre nossa própria posição no Universo, e agora não importa mais se estou falando de mim mesmo, da casa da fazenda ou de nossa espécie. Também não irei perder a surpreendente constatação de: “como demorei tanto para me interessar por isso?” E eu que sempre gostei de mapear, saber dos climas, bandeiras, o tamanho dos países, sempre soube que os Estados Unidos são maior que o Brasil por causa do Alasca, mas perdem para o Canadá, sempre quis me localizar pelos pontos cardeais em uma nova cidade (apesar de perder no shopping de Recife), me ver de “fora”, do “todo”, de “cima” e que aos 5 anos de idade ficava chocado com o tamanho da então União Soviética, um imenso país cor de rosa no antigo mapa... Quando pude ficar mais tempo sob o céu de Tapira tudo isto foi ampliado. Estava precisando mesmo de um banho a céu aberto para encaixar ainda melhor esta história de me localizar espacialmente no mundo, e ver o tamanho da naba.

“Toda cultura tem o seu mito da criação - uma
tentativa de compreender de onde veio o universo e tudo o que ele
contém. Quase sempre esses mitos são pouco mais que histórias inventadas
por contadores de história. Em nossa época, temos também um mito da
criação. Mas está baseado em evidências científicas sólidas. Diz mais ou
menos o seguinte... Vivemos num universo em expansão, cuja vastidão e
antiguidade estão além do entendimento humano. As galáxias que ele
contém estão se afastando velozmente umas das outras restos de uma
imensa explosão, o Big Bang. Alguns cientistas acham que o universo pode
ser um dentre um imenso número - talvez um número
infinito - de outros universos fechados. Uns podem crescer e sofrer um
colapso, viver e morrer num instante. Outros podem se expandir para
sempre. Outros ainda podem ser delicadamente equilibrados e passar por
um grande número - talvez um número infinito - de expansões e
contrações. O nosso próprio universo tem cerca de 15 bilhões de anos
desde a sua origem ou, pelo menos, desde a sua presente encamação, o Big
Bang. Talvez haja leis diferentes da natureza e formas diferentes de
matéria nesses outros universos. Em muitos deles a vida talvez seja
impossível, pois não há sóis nem planetas, nem mesmo elementos químicos
mais complicados do que o hidrogênio e o hélio. Outros talvez tenham uma
complexidade, diversidade e riqueza que eclipsam as nossas. Se esses
outros universos existem, nunca seremos capazes de sondar seus segredos,
muito menos visitá-los. Mas há muito a explorar no nosso. O nosso
universo é composto de algumas centenas de bilhões de galáxias, uma das
quais é a Via Láctea. “A nossa galáxia”, como gostamos de chamá-la,
embora ela certamente não nos pertença. É composta de gás, poeira e
aproximadamente 400 bilhões de sóis. Um deles, num braço obscuro da
espiral, é o Sol, a estrela local - e, pelo que sabemos, insípida,
trivial, comum. Acompanhando o Sol em sua viagem de 250 milhões de anos
ao redor do centro da Via Láctea, existe um séquito de pequenos mundos.
Alguns são planetas, outros são luas, uns asteróides, outros cometas.
Nós, humanos, somos uma das 50 bilhões de espécies que cresceram e
evoluíram num pequeno planeta, o terceiro a partir do Sol, que chamamos
Terra. Temos enviado naves espaciais para examinar setenta dos outros
mundos em nosso sistema, e para entrar nas atmosferas ou pousar na
superfície de quatro deles - a Lua, Vênus, Marte e Júpiter.
Estamos empenhados em realizar uma tarefa mítica.”


(Trecho do livro Bilhões e Bilhões de Carl Sagan)

Por enquanto é melhor deixar quieta a naba do Universo ou Universos e agora o “X” da questão é olhar para o céu noturno e ver a Via Láctea. Ué! Mas... Como assim! Como ver a Via Láctea se nós estamos na Via Láctea? Esta questão elementar nunca tinha latejado em minha contemplativa mente até a terceira cuia de chimarrão da segunda semana na arejada calçada da Mangueira Preta. Mas então fui investigar e saber que o “caminho leitoso” que vemos graciosamente estendido como um véu no céu, a nossa Via Láctea visível a olho nu, é na verdade um dos braços da galáxia onde está o Sistema Solar e, por sua vez, também se encontra o planeta Terra. É uma parte da galáxia, ou melhor dizendo, é um braço da nossa própria galáxia, visível de acordo com a nossa perspectiva, é o que conseguimos, o que podemos ver com os pés plantados em nosso planeta. Aqui da Terra só conseguimos ver esta enorme faixa esbranquiçada, este braço da Via Láctea, como se estivéssemos olhando para as bordas de uma moeda deitada, sem ter a noção de seu formato real. Conseguimos ver de certa maneira sua espessura, porém não vemos que a moeda é redonda. E pelo que entendi, estamos deveras longe do centro da moeda.
Praticamente tudo o que se sabe sobre a Via Láctea, desde o formato em espiral (uma série mais ou menos circular de braços), extensão e idade, só é possível graças à observação de outras galáxias vizinhas, pois as nuvens de poeira e gás de nossa própria galáxia impedem a nossa visão, pois absorvem a luz visível. É... A coisa vai se complicando. Também já seria demais, entre uma cuia e outra, de meias furadas e pernas cruzadas, querer não só entender toda uma galáxia, mas ainda por cima, querer vê-la? Com certeza o próximo passo seria criticá-la e ainda ficar se gabando por morarmos na área nobre da periferia, já poetizando saudosos sobre o nosso espaçoso braço de Órion.
Olha o tamanho da criança! A galáxia onde estamos é tão grande, mas tão grande que, proporcionalmente, se ela fosse do tamanho da Terra, o Sistema Solar seria do tamanho de um CD. E assim, na melhor das hipóteses, a Terra não passaria de um cocozinho de mosca neste CD. Continuando um pouco mais neste absurdo abismo pragmático, sem dó nem piedade, o que poderíamos então pensar de uma pessoa ajeitando o cabelo no reflexo de um CD? Esse negócio de proporção pode nos trazer sempre uma surpresa: um dia achei engraçado que a economia da Argentina inteira equivale à economia do estado de São Paulo; na página seguinte o sorriso maroto se desfez ao ler que a economia do Brasil inteiro equivale à economia da Califórnia. Este tipo de pensamento pode nos deixar de cama, o jeito é seguir andando.
O bom disso tudo é encontrar um garçom turco no alto da rue Ménilmontant e, sob o anoitecer de Belleville, falarmos de nossas terras, e que apesar dele ser curdo e eu da Coloninha, termos uma certeza em comum: pouco importa que língua falamos, estamos vivos e no mesmo planeta, sem poder sair dele.
O céu de Tapira agora me acompanha.


Leandro Gaertner
Paris, Setembro de 2009

Imagens: Representações da Via Láctea.

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quinta-feira, 10 de setembro de 2009

T R A N S F I G U R A Ç Ã O

A absorção de um homem por uma árvore

A última lembrança em movimento é de uma caminhada lenta e curta através de um jardim úmido, ainda consigo lembrar vagamente da grama verde e pegajosa roçando talvez os meus pés. Esta é a última lembrança que tenho de minha respiração. Agora puxando com força pela memória lembro do impulso que tinha em me derreter pelo caminho, mas somente posso supor que seja um derretimento, não está muito claro como tudo acontecera. Não consigo dizer se era dia ou noite, nem mesmo arriscar uma hora aproximada, o tempo era muito parecido com o tempo de um sonho, impreciso. Talvez esta seja a única certeza, a certeza de que não era um sonho. Nem mesmo poderia entender como ainda é possível refletir e ter estas lembranças, mesmo que vagas e confusas. Ainda estou vivo? E por quê não estaria? O que resta é uma forma de pensamento incompleto e está mais para um delírio, uma alucinação, como um espasmo retrógrado de memória do que para um pensamento do passado. Nem mesmo tenho certeza se estas lembranças são mesmo só lembranças ou são todo o meu conhecimento, se é tudo o que tenho. Pensar em uma última lembrança implica obrigatoriamente na existência de pensamentos anteriores, ou então, em uma vida anterior. Mas, sobre esta vida não sei mais nada. Só consigo pensar na sensação da grama úmida e cada vez mais entranhada nas minhas sensações. Nem tenho certeza da existência de algo para além disso. Como poderia? Se o que vem aos meus sentidos é uma caminhada lenta e curta através de um jardim úmido e fora do tempo cognoscível? É menos difícil explicar tudo pela simples inexistência, minha própria inexistência antes de minha lembrança mais remota. Para mim a vida real é diferente desta débil recordação e nem precisaria mais pensar nisso. Estas memórias só persistem por capricho. Para longe destes flashes insondáveis, minha realidade se impõe inexorável. Até este pensamento não surge mais do que um clarão passageiro, fugaz e está por completo à mercê dos sentidos primários. Estes sim. Estes sentidos me fazem explodir! Distante da reflexão, que não consegue passar de um esforço efêmero e até inútil, a realidade, a minha própria existência, algo como um tempo presente, está escancarada em todos os níveis. Nesta condição primária e original tudo faz sentido e tudo está conectado. Isso eu posso explicar e não ter dúvidas. Não poderia ter nenhuma dúvida de uma realidade tão intensa e vibrante. Apesar destes ecos, sussurros de uma memória estranha, a plenitude da realidade é latente. Não existe nem dor nem conforto, só existe o mais simples e direto, a existência transparente e irrestrita, como estar em uma fortaleza invisível. Tudo está latejando, desde os pontos mais indiferentes, onde quase nada pode ser sentido e só existe um fraco sinal de sensibilidade, até os menores e mais sólidos poros vitais. A intensidade de minha existência é tão fantástica que dá a impressão de imortalidade, mas sei que isto é irreal, nada tão vivo e tão caloroso pode ser tão forte e perene. Através de meu ser totalmente esticado tudo flui sem nunca parar. Sou esticado, alongado, puxado pelas extremidades, como um puxão que me retorce aos poucos, mas não deixo de sentir a pressão sólida e seca que é o principal, a solidez rude parece ser o mais primitivo, original e o próprio fim. Todas as pulsações, até as mais sutis, são compactas, quase que esmagadas, e assim as percebo por causa de sua brevidade. Só que a aspereza dominante não sobrepõe por completo e nem pode esmagar as pequenas palpitações, estes mínimos respiros, semelhantes a minúsculas gotas de vida surgindo e morrendo por todos os contornos do corpo. As frestas e poros deste corpo são perpetuamente atravessados por um som grave e monótono, raramente alterado ou entrecortado, e o corpo de limites certamente intangíveis torna-se também uma esponja, a despeito de sua dureza, e filtra e transforma a soma de todas as frequências. Da mesma forma, a dureza não impede as rápidas adaptações de todas as partes para se manter em equilíbrio quando chegam inexplicáveis as rajadas de círculos invisíveis. Porém, quase tudo isto é simplesmente refletido para longe antes mesmo de ser capturado e acaba não passando de uma carícia, uma existência inteira entregue aos afagos da dança e à probabilidade de se tornar música. Quando penso no céu e no vazio consigo perceber, ou talvez só consiga imaginar, as curvinhas mais frágeis e quase sem sinais do meu ser. É através delas que mais percebo o que acontece, é assim que consigo pelo menos ter a sutil impressão dos meus limites. Nestas extremidades de incontáveis ramificações a vida está agarrada de maneira reveladora, mas displicente, chega a ser até jocosa. E a revelação consiste, sobretudo, na combinação de sentidos, no calor e nos primeiros sinais enviados a todo meu corpo que chegou a hora de ficar mais forte. A displicência irônica consiste na fragilidade e efemeridade desta parte, projetadas em direção ao nada, em constante improviso, se esticando cada vez mais, se contorcendo às cegas tentando lamber cada baforada de aquecimento. As sensações podem ser descritas como um pulso estável, em constante renovação, como um ciclo bastante perceptível e conduzido pelo tempo. Na última ponta da ramificação mais sensível dos limites de minha extensão, é ali que posso sentir com um pouco mais de singularidade. É ali que também posso perceber a passagem do tempo. Às vezes um sinal, já bastante leve e difícil de ser notado, vai enfraquecendo ainda mais, pouco a pouco e em progressão quase perfeita, até parar por completo e por algum tempo, daquele lugar, nada existir. Agora já aprendi que isto significa um desaparecimento, aquela sensação se perdeu para sempre e dela nunca mais terei notícias. Mas, deste mesmo lugar, naquela pontinha em forma de olho, de boca e de ouvido, não demora muito para que incríveis e minúsculos estalos iniciem novíssimos e inéditos sinais, totalmente singulares e reconhecidos pela minha velha pulsação. Aos poucos procuro sentir o todo e daquele ponto exato posso distinguir mais uma faísca vibrante, acenando e aquecendo. Em certos pontos, também nestes lugares mais extremados e ramificados, acontecem coisas ainda mais raras e maravilhosas! É quando uma incontrolável urgência se impõe sobre todos os outros eventos do ciclo habitual. Todos os sentidos se desligam por alguns instantes, em total descontrole, em abandono e irresponsáveis. Dali algo novo vai surgir, algo que parece não me importar mais, mas que consigo perceber como infinitamente original e único, algo que só poderia existir desta maneira, espontâneo e indomável. E assim desabrocha escancarada a minha síntese! Todas estas impressões são mínimas e precisam ser descobertas uma a uma entre minha rigorosa solidez. O prevalecente é o que chamo de sentidos primários, pois não precisam ser descobertos, são as sensações primeiras, urgentes, a identidade pura antes do pensamento reflexivo, um estado arraigado em profundidade, sem dor e sem prazer. Estou firme, vivo, em franca existência sorvendo as entranhas da terra. Esta sim é minha condição dominante, distante das nuances, uma existência fácil de resumir, em silêncio, absorvido em indeterminada espera.



Leandro Gaertner
Gaspar e Itapema, Setembro de 2009
Imagens: Árvore e flor Magnólia-branca (Magnolia grandiflora)
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