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sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Sobre o Homo-Vegeta-Ha(ma)bilis‏

O texto "TRANSFIGURAÇÃO - A absorção de um homem por uma árvore" (publicado dia 10 de setembro neste mui exclusivo blog) rendeu bons frutos, sementes, raízes e flores nas mãos de minha querida amiga de Desterro (cidade atualmente conhecida como Florianópolis), uma das artistas mais compleXtas que já tive o prazer de conhecer e conviver, e com o nome mais que perfeito para o conTexto: Flora Holderbaum! (inclusive existe em Joinville (SC) um comércio de plantas com o mesmo nome... fato que torna tudo cada vez mais apropriado!)
Além disso, minha estimada cunhada alemã Sol Flörke, atualmente em um posto avançado da FAB em Passau, completa minha breve introdução e torna ainda mais incrível a rede de associações com a tradução da palavra "Holderbaum": hold=linda/cara/fagueira; baum=árvore. E assim, arrisco uma tradução para este Holderbaum cada vez mais entranhado na terra: Árvorequerida! Nada mal para as Magnolias grandifloras, nada mal para um texto escrito por um Feijão Jardineiro!
Então, finalmente, segue abaixo o comentário desta artista dos sons, das cores, das palavras e das sensações, e que há mais de oito anos soube me guiar pela ilha, sob a escuridão do blecaute, e que continua a compartilhar seus amorosos sensíveis sentidos, influenciando a mim e também as pessoas que me cercam; basta ler os textos recentes da minha frutífera Pereira (metasnalinguagem.wordpress.com)... e que venham mais cafés prolongados em Meia-Praia...


"Caro Homo-vegetalis....


Teu novo texto absorvido em folhas (ou das folhas) inspirou em mim a lembrança esticada de alguns trechos que coloquei no meu TCC (Isto Não É Um título).
Cabe certeirassutadoramente a citação de Otávio Paz, colada mais abaixo. Apresento-te também, se não o conheces, os autores Deuleuze a Gattari, por sinal franceses, pensadores contemporâneos, creio que da vanguarda do pensamento sobre a linguagem.
Tua forma de descrever ou inscrever tuas percepções presente passadas lembrou-me muito um conceito que eles colocam: o Devir.
Também achei muito rica a maneira de escrever causando o desgaste da percepção de quem lê, como que desfiando um fio narrativo (ou a descrição dos substantivos perceptores: "ramificação mais sensível dos limites de minha extensão") para desaparecer o significado que se formará logo a seguir na mente de quem lê, e não tece uma sequência forçosamente literal--linear esmagadora e concentradora de um só significado por alguns caracteres, que assim abertos, tornam-se livres para colarem-se às partes, ou funções, que se -lhes vierem a fazer "devir"...a conectarem-se por extensões rizomáticas.
Enfim....
Te jogo aqui algo densamente e deliciosamente louco sobre o que é escrever o que se sente e vê e vive e pensa e expressa. Se puder, pegue os livros....para mim foi um delíreo lúcido lê-los...Fica a teu cargo (como escrevi horrores) escolher algum trecho pra colocar como comentário no teu blog!

"Para Deleuze e Guattari, um devir consiste "a partir das formas que se tem, do sujeito que se é, dos órgãos que se possui ou das funções que se preenche, extrair partículas, entre as quais instauramos relações de movimento e repouso, de velocidade e lentidão, as mais próximas daquilo que estamos em via de nos tornarmos, e através das quais nos tornamos.", Ou seja, o devir implica num processo de vizinhança, estabelecendo relações rizomáticas com o outro. (DELEUZE, GILLES e GATTARI, FÉLIX - Capitalismo e Esquizofrenia -vol 3, RJ:Ed.34,1996 [Coleção TRANS], p.24.)

"Nenhuma habilidade tipográfica, lexical, ou mesmo sintática será suficiente para fazê-lo ouvir. É preciso fazer o múltiplo, não acrescentando sempre uma dimensão superior, mas, ao contrário, da maneira simples, com força de sobriedade, ao nível das dimensões de que se dispõe, sempre n-1 (é somente assim que uno se faz parte do múltiplo, estando subtraído dele). Subtrair o único da parte a ser construída, escrever a n-1. Um tal sistema poderia ser chamado de rizoma.(DELEUZE e GATTARI, 1995, p.14).

[...escrever sobre escrever é o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoites ou uma página em uma noite_que é o mesmo noites e páginas mesma ensimesmam onde o fim é o começo onde escrever sobre o escrever é não escrever sobre não escrever[...]" (CAMPOS, Haroldo de. Galáxias, SP:Editora 34, 2004, 2a ed., s/p.)
As multiplicidade são rizomáticas [...]. Uma multiplicidade não tem sujeito nem objeto, mas somente determinações, grandezas, dimensões que não podem crescer sem que se mude de natureza (as leis de combinação crscem então com a multiplicidade)" (DELEUZE e GATTARI, 1995, p.16).
Um livro não tem objeto nem sujeito; é feito de matérias diferentemente formadas, de datas e velocidade muito diferentes. Desde que se atribui um livro a um sijeito, negligencia-se este trabalho das matérias e a exterioridade de suas correlações.[...]. Num livro, como em qualquer coisa, há linhas de articulação ou segmentaridade, estratos, territorialidade, mas também linhas de fuga, movimentos de deterritorialização, e desestratificação. As velocidades comparadas de escoamento, conforme estas linhas, acarretam fenômenos de retardamento relativo, d eviscosidade ou, ao contrário, de precipitação e de ruptura. Tudo isto, as linhas e as velocidades mensuráveis, constitui um agenciamento. Um livro é um tal agenciamento, e como tal, inatribuível. (Deleuze e Gattari. Mil Platôs - capitalismo e esquizofrenia- vol 1. RJ Ed. 34, 1995,p.11 e 12.)
E por fim, sobre o esquecimento ou o desparecimento das impressões ou sensações limítrofes de partes longínquas da percepção versus a solida realidade aberta e das sensações primevas induvidosas. Ou sobre as ramificações da percepção que desaparecem ao serem detectadas num ponto esticado da máquina que capta o real/irreal envolta e por dentro .Ou sobre o aprisionamento dual realidade/mera fantasia onírica e sua possível dissolução em milhões de anti-definições, estas sim, abertas:
"Não são as sensações, as percepções, as imaginações e os pensamentos que se ascendem e se apagam aqui, agora,[...], não são o outro lado da realidade mas o outro lado da linguagem, o que temos na ponta da língua e se desvanece antes de ser dito; do outro lado que não pode ser nomeado, porque é o contrário do nome: o não-dito não é isto ou aquilo que calamos, também é nem-isto-nem-aquilo: n]ao é a árvores que digo que vejo mas a sensação que sinto ao sentir quea vejo, no momento em que vou dizer que vejo; uma concentração insubstancial, mas real, de vibrações e sons sentidos que ao se combinarem traçam uma configuração de uma presença verde-bronzeada-negra-leitosa-avermelhada-sonora-silenciosa; não, também não é isso, se não é um nome ainda menos será a descrição de um nome nem a descrição de sensação do nome nem o nome da sensação: a árvores não é o nome árvore tampouco é uma sensação de árvore [...] os nomes, já sabemos, estão ocos;[...] sensações que não são percepções não são sensações, percepções que não são nomes, o que são? se não o sabias, agora já o sabes: tudo está oco[...]e, apenas digo tudo-está-oco sinto que caio na armadilha: se tudo está oco, também está oco o tudo-está-oco;não pleno e repleto, tudo-está-oco cheio de si, o que tocamos e vemos e ouvimos e degustamos e sentimos e pensamos, as realidade que inventamos e as que nos tocam, nos vêem, nos ouvem e nos inventam [...]"
[...] e apenas digo, apenas escrevo com todas as suas letras que não é realidade o desnudar de nome, os nomes evaporam, sãoa r, são um som engastado em outro som e em outro e em outro, um murmúrio, uma frágil cascata de significados que se anulam [...]
[...] a resposta é reversível, as frases do fim são o avesso das frases do começo e ambas são as mesmas que são[...] a massa agitada do arvoredo de faias de minha janela enquanto o vento estcétera lições etcétera destruídas etcétera e o próprio tempo etcétera, as frases que escrevo neste papel são as sensações, as percepções, as imaginações, tcétera, que se ascendem e se apagam aqui, diante dos meus olhos, o resíduo verbal: é o que resta destas realidades sentidas, imaginadas, pensadas, percebidas e dissipadas, [...].(PAz, Otávio. O MONOGRAMÁTICO). RJ: guanabara, 1988, p.51-52,53-58).
Não se perguntará nunca o que um livro quer dizer, significado ou significantes, não se buscará nada compreender num livro, pergutarse-á com o que ele funciona, em conexão com o que ele faz passar intensidades, em que multiplicidades ele introduz e metamorfoseia a sua, com que corpos-sem-órgãos ele convergiu o seu" (segundo os autores, 'ninguém, faz amor sem construir para si, sozinho, com outros ou com outros, um corpo sem órgãos. Um corpo sem órgãos não é um corpo vazio desprovido de órgãos, mas corpo sobre o qual o que serve de órgãos [...] se distribui segundo movimentos de multidões,[...], sob forma de multiplicidades moleculares. [...] O corpo sem órgãos não é um corpo morto, mas um corpo vivo, e tão vivo e fervilhante que expulsou o organismo e sua organização')_ (DELEUZE E GATTARI, opus cit., p.43 .)
Tomara que te fervilhe a razão!"
Flora Holderbaum
Desterro, Setembro de 2009
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terça-feira, 29 de setembro de 2009

Carta de Benjamin Costalat (1922)

OS OITO BATUTAS
Fujo um pouco ao normal deste blog ao incluir uma carta de 1922 do cronista carioca Benjamin Costalat ao jornal Gazeta de Noticias. Na época muito se discutiu sobre a ida dos Batutas à Paris, seu valor, sua qualidade musical, questões racistas (pois a maioria do grupo era de músicos negros), se seriam eles representantes legítimos ou não, adequados ou não, da cultura brasileira, que vivia momentos de afirmação nacionalista em pleno ano do centenário da independência... Esta história vai muito mais longe e foi maravilhosamente contada na tese de doutorado (que li muitos trechos emocionado e com os olhos marejados) de Luiza Mara Braga Martins, defendida ainda este ano no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense.
Este velho texto que segue não só merece, como precisa ser lido por todos os chorões e amantes da boa música! E o coloco aqui com muito orgulho por também ser um chorão, flautista, acadêmico boêmio, doctorant-bon-vivant, empenhado em continuar esta história, tocando Pixinguinha nas salas da Sorbonne!



"Foi um verdadeiro escândalo quando, há uns quatro anos, os Oito Batutas apareceram. Eram músicos brasileiros que vinham cantar coisas brasileiras! Isso em plena Avenida, em pleno almofadismo, no meio de todos esses meninos anêmicos, frequentadores de cabarés, que só falam francês e só dançam tangos argentinos! No meio do internacionalismo das costureiras francesas, das livrarias italianas, das sorveterias espanholas, dos automóveis americanos, das mulheres polacas, do esnobismo cosmopolita e imbecil!
Não faltaram censuras aos modestos Oito Batutas. Aos heroicos Oito Batutas, que pretendiam, num cinema da Avenida, cantar a verdadeira terra brasileira, através de sua música popular, sinceramente sem artifícios nem cabotinismo, ao som espontâneo dos seus violões e dos seus cavaquinhos. A guerra que lhes fizeram foi atroz. Como músicos eram bons, batutas de verdade, violeiros e cantadores magníficos. Como a flauta de Pixinguinha fosse melhor do que qualquer outra flauta por aí saída com dez diplomas de dez institutos, começaram os despeitados a alegar a cor dos Oito Batutas, na maioria pretos. Segundo os descontentes, era uma desmoralização para o Brasil ter na principal artéria de sua capital uma orquestra de negros. O que iria pensar de nós o estrangeiro?
Tive a honra de defender (e essa defesa foi das que fiz com mais entusiasmo em minha vida de jornal) os Oito Batutas naquela ocasião. Hoje, porém, tenho que voltar ao assunto: os Oito Batutas embarcam esta semana para Paris.
- Para Paris?
- Mas isso é uma desmoralização!
- Como é que o ministro do Exterior não toma providencia?
- Agora é que o Brasil vai ficar inteiramente desmoralizado!
Calem-se os imbecis. Calem-se os patriotas baratos. Calem-se os músicos pernósticos que fazem música das Casas Mozart e Artur Napoleão. Os Oito Batutas não desmoralizarão o Brasil. Levarão a verdadeira música brasileira, essa que ainda não foi contaminada por influências alheias e que vibra e que sofre e que geme por si, cantando luares dos sertões e os olhos da cabocla... Levarão o perfume das nossas matas, o orgulho das nossas florestas, a grandeza da nossa terra, a melancolia da nossa gente, a bondade e o amor dos nossos corações, ditos e cantados pelo verso simples e a música sublime da alma popular... Levarão o verdadeiro Brasil, desconhecido dos próprios brasileiros, mas formidável assim mesmo no enigma de suas forças e de suas aspirações...
- Mas são negros !
- Que importa ! São brasileiros !
Devemos procurar ser conhecidos na Europa tal qual somos. Com os nossos negros e com tudo o mais... Nada perderemos com isso. Temos uma personalidade internacional tão digna quanto as outras, e cumpre afirmá-la a cada instante:
- Somos assim. E se nos quiserem...
Detesto esses bons patriotas que, na Europa, querendo fazer propaganda desta terra, negam que no Brasil haja calor e negros, duas coisas que eles consideram bastante deselegantes.
- Mas, por que?
Porque consideram o calor e o negro duas coisas vergonhosas, se elas, primeiro, não o são e, segundo, são bem nossas, bem brasileiras? Eu quisera que no Brasil houvesse gente verde, gente de todas as cores, calor de enlouquecer, calor de matar, para poder afirmar com orgulho a existência de todas essas pretendidas calamidades aos europeus! E se eles se espantassem com o calor do meu país, eu me espantaria com o frio deles, se eles gritassem contra o sol, eu gritaria contra o gelo, se eles falassem contra o preto, eu falaria contra o branco, e assim não acabaríamos nunca! Não acabaríamos mesmo nunca! Cá por mim, não acabaria! Tenho muita coisa a dizer da Europa em reação às coisas que se disserem no Brasil!
Não é, pois, vergonha sermos conhecidos tal qual somos. Ao contrário, isso nos deve honrar.
Vergonha é sermos inteiramente desconhecidos. E é o que somos.
Noutro dia ainda, apareceu o Almanach Hachette, de 1922, que é comprado aos milhares e há anos, no Brasil, dando uma descrição fantástica da bandeira brasileira. Mas, uma descrição fantástica! O francesinho que a escreveu falara em linhas paralelas e nãosei mais quantas asneiras!
Isto é que é vergonha. E sem vergonha são estes livreiros daqui que vendem semelhante porcaria e não devolvem imediatamente ao Sr. Hachette o seu latrinário almanaque com um pouco de creolina.
Amanhã, também não teremos obrigação de conhecer a bandeira francesa. Podemos descrevê-la como entendermos. Com qualquer cor, com qualquer símbolo. E, naturalmente, o Sr. Hachette será o primeiro a protestar... vendendo mais caro os seus livros.
O sucesso dos “Oito Batutas”, em Paris, será grande. Será a revelação de uma música inteiramente nova na beleza de seus ritmos e de sua melodia.
Paris que eu vi, ainda há meses, festejar uma grande orquestra americana de pretos. “The Syncopated Band”, que tocava Beethoven e todos os clássicos com acompanhamento de buzina de automóvel, apito de trem, campainhas, latas velhas e os barulhos mais infernais e mais prosaicos que a imaginação mórbida do jazz-band conseguia inventar, uma orquestra que enlouquecia, uma música que dava cólicas; Paris, que foi em peso, de casaca, com luxuosíssimas toilettes, ouvir religiosamente todo aquele ruído ridículo no Theatre des Champs Elysées, naturalmente saberá fazer distinção entre nossos músicos e os palhaços americanos, os homens das latas, das buzinas e dos apitos...
Os americanos levaram barulho. Os nossos levam sentimento. O que saiu das latas, vai sair agora dos corações. A diferença é grande... Não é mais Beethoven com chocalhos que os franceses vão ouvir. É a música de uma terra e a alma de uma gente distante. Terra do luar, da cabocla, do violão... Terra admirável de sentimento onde até os coqueiros morrem de saudade!...
Tu não te lembras da casinha pequenina
Onde o nosso amor nasceu
Tinha um coqueiro ao lado
Que, coitado, de saudades já morreu!
E ouvindo as nossas modinhas, e ouvindo cantar as nossas noites de luar e o nosso sertão e os olhos das nossas morenas, e o nosso amor e as nossas saudades, muitos franceses hão de se comover. E no cabaret, estonteante de alegria e de luzes artificiais, muita cocotte, olhos fundos de crayon, lábios úmidos de champagne, há de chorar ouvindo a ‘asa branca da serra’ ou uma ‘casinha na praia’. Há de chorar, e com razão, a casa branca que ela nunca teve, nem na praia, nem na serra...
Chorarás, mulher!, mesmo sem compreender as palavras, porque a modinha brasileira fala pela voz de seu violão. E todos o entendem na sua linguagem cantante...
Chorarás a pequena casa branca da felicidade onde a garrafa de champagne é um riacho que geme mansamente todo o dia e toda a noite, e vem, puro, lá dos altos das montanhas infinitas... E compreenderás, enfim, graças à modinha, plangente mas feliz, que é ainda cá nestes maravilhosos sertões brasileiros que há um pouco de beleza e de felicidade espalhadas entre os homens..."
BEMJAMIM COSTALAT
Janeiro de 1922


Fonte: Museu da Imagem e do Som, Arquivo Almirante: Carta de COSTALAT, Benjamin, na Gazeta de Noticias, domingo, 22 de janeiro de 1922, p. 2, 7ª Coluna.
Foto: Jornal A Noite, 14 de agosto de 1922

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

-TAPIRA SKY-

Assim como aconteceu com Recife, minhas impressões sobre a Fazenda Mangueira Preta e Tapira se contornam à medida que estes lugares se afastam no tempo. Porém, estas são impressões urgentes e não poderia esperar (leia-se “me controlar”) muito para escrever, mesmo sem o medo de perdê-las. Destas impressões a mais impressionante é o meu novo olhar para a nossa localização no Sistema Solar, e assim na Via Láctea e assim, construir uma imaginação um pouco mais audaciosa sobre nossa própria posição no Universo, e agora não importa mais se estou falando de mim mesmo, da casa da fazenda ou de nossa espécie. Também não irei perder a surpreendente constatação de: “como demorei tanto para me interessar por isso?” E eu que sempre gostei de mapear, saber dos climas, bandeiras, o tamanho dos países, sempre soube que os Estados Unidos são maior que o Brasil por causa do Alasca, mas perdem para o Canadá, sempre quis me localizar pelos pontos cardeais em uma nova cidade (apesar de perder no shopping de Recife), me ver de “fora”, do “todo”, de “cima” e que aos 5 anos de idade ficava chocado com o tamanho da então União Soviética, um imenso país cor de rosa no antigo mapa... Quando pude ficar mais tempo sob o céu de Tapira tudo isto foi ampliado. Estava precisando mesmo de um banho a céu aberto para encaixar ainda melhor esta história de me localizar espacialmente no mundo, e ver o tamanho da naba.

“Toda cultura tem o seu mito da criação - uma
tentativa de compreender de onde veio o universo e tudo o que ele
contém. Quase sempre esses mitos são pouco mais que histórias inventadas
por contadores de história. Em nossa época, temos também um mito da
criação. Mas está baseado em evidências científicas sólidas. Diz mais ou
menos o seguinte... Vivemos num universo em expansão, cuja vastidão e
antiguidade estão além do entendimento humano. As galáxias que ele
contém estão se afastando velozmente umas das outras restos de uma
imensa explosão, o Big Bang. Alguns cientistas acham que o universo pode
ser um dentre um imenso número - talvez um número
infinito - de outros universos fechados. Uns podem crescer e sofrer um
colapso, viver e morrer num instante. Outros podem se expandir para
sempre. Outros ainda podem ser delicadamente equilibrados e passar por
um grande número - talvez um número infinito - de expansões e
contrações. O nosso próprio universo tem cerca de 15 bilhões de anos
desde a sua origem ou, pelo menos, desde a sua presente encamação, o Big
Bang. Talvez haja leis diferentes da natureza e formas diferentes de
matéria nesses outros universos. Em muitos deles a vida talvez seja
impossível, pois não há sóis nem planetas, nem mesmo elementos químicos
mais complicados do que o hidrogênio e o hélio. Outros talvez tenham uma
complexidade, diversidade e riqueza que eclipsam as nossas. Se esses
outros universos existem, nunca seremos capazes de sondar seus segredos,
muito menos visitá-los. Mas há muito a explorar no nosso. O nosso
universo é composto de algumas centenas de bilhões de galáxias, uma das
quais é a Via Láctea. “A nossa galáxia”, como gostamos de chamá-la,
embora ela certamente não nos pertença. É composta de gás, poeira e
aproximadamente 400 bilhões de sóis. Um deles, num braço obscuro da
espiral, é o Sol, a estrela local - e, pelo que sabemos, insípida,
trivial, comum. Acompanhando o Sol em sua viagem de 250 milhões de anos
ao redor do centro da Via Láctea, existe um séquito de pequenos mundos.
Alguns são planetas, outros são luas, uns asteróides, outros cometas.
Nós, humanos, somos uma das 50 bilhões de espécies que cresceram e
evoluíram num pequeno planeta, o terceiro a partir do Sol, que chamamos
Terra. Temos enviado naves espaciais para examinar setenta dos outros
mundos em nosso sistema, e para entrar nas atmosferas ou pousar na
superfície de quatro deles - a Lua, Vênus, Marte e Júpiter.
Estamos empenhados em realizar uma tarefa mítica.”


(Trecho do livro Bilhões e Bilhões de Carl Sagan)

Por enquanto é melhor deixar quieta a naba do Universo ou Universos e agora o “X” da questão é olhar para o céu noturno e ver a Via Láctea. Ué! Mas... Como assim! Como ver a Via Láctea se nós estamos na Via Láctea? Esta questão elementar nunca tinha latejado em minha contemplativa mente até a terceira cuia de chimarrão da segunda semana na arejada calçada da Mangueira Preta. Mas então fui investigar e saber que o “caminho leitoso” que vemos graciosamente estendido como um véu no céu, a nossa Via Láctea visível a olho nu, é na verdade um dos braços da galáxia onde está o Sistema Solar e, por sua vez, também se encontra o planeta Terra. É uma parte da galáxia, ou melhor dizendo, é um braço da nossa própria galáxia, visível de acordo com a nossa perspectiva, é o que conseguimos, o que podemos ver com os pés plantados em nosso planeta. Aqui da Terra só conseguimos ver esta enorme faixa esbranquiçada, este braço da Via Láctea, como se estivéssemos olhando para as bordas de uma moeda deitada, sem ter a noção de seu formato real. Conseguimos ver de certa maneira sua espessura, porém não vemos que a moeda é redonda. E pelo que entendi, estamos deveras longe do centro da moeda.
Praticamente tudo o que se sabe sobre a Via Láctea, desde o formato em espiral (uma série mais ou menos circular de braços), extensão e idade, só é possível graças à observação de outras galáxias vizinhas, pois as nuvens de poeira e gás de nossa própria galáxia impedem a nossa visão, pois absorvem a luz visível. É... A coisa vai se complicando. Também já seria demais, entre uma cuia e outra, de meias furadas e pernas cruzadas, querer não só entender toda uma galáxia, mas ainda por cima, querer vê-la? Com certeza o próximo passo seria criticá-la e ainda ficar se gabando por morarmos na área nobre da periferia, já poetizando saudosos sobre o nosso espaçoso braço de Órion.
Olha o tamanho da criança! A galáxia onde estamos é tão grande, mas tão grande que, proporcionalmente, se ela fosse do tamanho da Terra, o Sistema Solar seria do tamanho de um CD. E assim, na melhor das hipóteses, a Terra não passaria de um cocozinho de mosca neste CD. Continuando um pouco mais neste absurdo abismo pragmático, sem dó nem piedade, o que poderíamos então pensar de uma pessoa ajeitando o cabelo no reflexo de um CD? Esse negócio de proporção pode nos trazer sempre uma surpresa: um dia achei engraçado que a economia da Argentina inteira equivale à economia do estado de São Paulo; na página seguinte o sorriso maroto se desfez ao ler que a economia do Brasil inteiro equivale à economia da Califórnia. Este tipo de pensamento pode nos deixar de cama, o jeito é seguir andando.
O bom disso tudo é encontrar um garçom turco no alto da rue Ménilmontant e, sob o anoitecer de Belleville, falarmos de nossas terras, e que apesar dele ser curdo e eu da Coloninha, termos uma certeza em comum: pouco importa que língua falamos, estamos vivos e no mesmo planeta, sem poder sair dele.
O céu de Tapira agora me acompanha.


Leandro Gaertner
Paris, Setembro de 2009

Imagens: Representações da Via Láctea.

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quinta-feira, 10 de setembro de 2009

T R A N S F I G U R A Ç Ã O

A absorção de um homem por uma árvore

A última lembrança em movimento é de uma caminhada lenta e curta através de um jardim úmido, ainda consigo lembrar vagamente da grama verde e pegajosa roçando talvez os meus pés. Esta é a última lembrança que tenho de minha respiração. Agora puxando com força pela memória lembro do impulso que tinha em me derreter pelo caminho, mas somente posso supor que seja um derretimento, não está muito claro como tudo acontecera. Não consigo dizer se era dia ou noite, nem mesmo arriscar uma hora aproximada, o tempo era muito parecido com o tempo de um sonho, impreciso. Talvez esta seja a única certeza, a certeza de que não era um sonho. Nem mesmo poderia entender como ainda é possível refletir e ter estas lembranças, mesmo que vagas e confusas. Ainda estou vivo? E por quê não estaria? O que resta é uma forma de pensamento incompleto e está mais para um delírio, uma alucinação, como um espasmo retrógrado de memória do que para um pensamento do passado. Nem mesmo tenho certeza se estas lembranças são mesmo só lembranças ou são todo o meu conhecimento, se é tudo o que tenho. Pensar em uma última lembrança implica obrigatoriamente na existência de pensamentos anteriores, ou então, em uma vida anterior. Mas, sobre esta vida não sei mais nada. Só consigo pensar na sensação da grama úmida e cada vez mais entranhada nas minhas sensações. Nem tenho certeza da existência de algo para além disso. Como poderia? Se o que vem aos meus sentidos é uma caminhada lenta e curta através de um jardim úmido e fora do tempo cognoscível? É menos difícil explicar tudo pela simples inexistência, minha própria inexistência antes de minha lembrança mais remota. Para mim a vida real é diferente desta débil recordação e nem precisaria mais pensar nisso. Estas memórias só persistem por capricho. Para longe destes flashes insondáveis, minha realidade se impõe inexorável. Até este pensamento não surge mais do que um clarão passageiro, fugaz e está por completo à mercê dos sentidos primários. Estes sim. Estes sentidos me fazem explodir! Distante da reflexão, que não consegue passar de um esforço efêmero e até inútil, a realidade, a minha própria existência, algo como um tempo presente, está escancarada em todos os níveis. Nesta condição primária e original tudo faz sentido e tudo está conectado. Isso eu posso explicar e não ter dúvidas. Não poderia ter nenhuma dúvida de uma realidade tão intensa e vibrante. Apesar destes ecos, sussurros de uma memória estranha, a plenitude da realidade é latente. Não existe nem dor nem conforto, só existe o mais simples e direto, a existência transparente e irrestrita, como estar em uma fortaleza invisível. Tudo está latejando, desde os pontos mais indiferentes, onde quase nada pode ser sentido e só existe um fraco sinal de sensibilidade, até os menores e mais sólidos poros vitais. A intensidade de minha existência é tão fantástica que dá a impressão de imortalidade, mas sei que isto é irreal, nada tão vivo e tão caloroso pode ser tão forte e perene. Através de meu ser totalmente esticado tudo flui sem nunca parar. Sou esticado, alongado, puxado pelas extremidades, como um puxão que me retorce aos poucos, mas não deixo de sentir a pressão sólida e seca que é o principal, a solidez rude parece ser o mais primitivo, original e o próprio fim. Todas as pulsações, até as mais sutis, são compactas, quase que esmagadas, e assim as percebo por causa de sua brevidade. Só que a aspereza dominante não sobrepõe por completo e nem pode esmagar as pequenas palpitações, estes mínimos respiros, semelhantes a minúsculas gotas de vida surgindo e morrendo por todos os contornos do corpo. As frestas e poros deste corpo são perpetuamente atravessados por um som grave e monótono, raramente alterado ou entrecortado, e o corpo de limites certamente intangíveis torna-se também uma esponja, a despeito de sua dureza, e filtra e transforma a soma de todas as frequências. Da mesma forma, a dureza não impede as rápidas adaptações de todas as partes para se manter em equilíbrio quando chegam inexplicáveis as rajadas de círculos invisíveis. Porém, quase tudo isto é simplesmente refletido para longe antes mesmo de ser capturado e acaba não passando de uma carícia, uma existência inteira entregue aos afagos da dança e à probabilidade de se tornar música. Quando penso no céu e no vazio consigo perceber, ou talvez só consiga imaginar, as curvinhas mais frágeis e quase sem sinais do meu ser. É através delas que mais percebo o que acontece, é assim que consigo pelo menos ter a sutil impressão dos meus limites. Nestas extremidades de incontáveis ramificações a vida está agarrada de maneira reveladora, mas displicente, chega a ser até jocosa. E a revelação consiste, sobretudo, na combinação de sentidos, no calor e nos primeiros sinais enviados a todo meu corpo que chegou a hora de ficar mais forte. A displicência irônica consiste na fragilidade e efemeridade desta parte, projetadas em direção ao nada, em constante improviso, se esticando cada vez mais, se contorcendo às cegas tentando lamber cada baforada de aquecimento. As sensações podem ser descritas como um pulso estável, em constante renovação, como um ciclo bastante perceptível e conduzido pelo tempo. Na última ponta da ramificação mais sensível dos limites de minha extensão, é ali que posso sentir com um pouco mais de singularidade. É ali que também posso perceber a passagem do tempo. Às vezes um sinal, já bastante leve e difícil de ser notado, vai enfraquecendo ainda mais, pouco a pouco e em progressão quase perfeita, até parar por completo e por algum tempo, daquele lugar, nada existir. Agora já aprendi que isto significa um desaparecimento, aquela sensação se perdeu para sempre e dela nunca mais terei notícias. Mas, deste mesmo lugar, naquela pontinha em forma de olho, de boca e de ouvido, não demora muito para que incríveis e minúsculos estalos iniciem novíssimos e inéditos sinais, totalmente singulares e reconhecidos pela minha velha pulsação. Aos poucos procuro sentir o todo e daquele ponto exato posso distinguir mais uma faísca vibrante, acenando e aquecendo. Em certos pontos, também nestes lugares mais extremados e ramificados, acontecem coisas ainda mais raras e maravilhosas! É quando uma incontrolável urgência se impõe sobre todos os outros eventos do ciclo habitual. Todos os sentidos se desligam por alguns instantes, em total descontrole, em abandono e irresponsáveis. Dali algo novo vai surgir, algo que parece não me importar mais, mas que consigo perceber como infinitamente original e único, algo que só poderia existir desta maneira, espontâneo e indomável. E assim desabrocha escancarada a minha síntese! Todas estas impressões são mínimas e precisam ser descobertas uma a uma entre minha rigorosa solidez. O prevalecente é o que chamo de sentidos primários, pois não precisam ser descobertos, são as sensações primeiras, urgentes, a identidade pura antes do pensamento reflexivo, um estado arraigado em profundidade, sem dor e sem prazer. Estou firme, vivo, em franca existência sorvendo as entranhas da terra. Esta sim é minha condição dominante, distante das nuances, uma existência fácil de resumir, em silêncio, absorvido em indeterminada espera.



Leandro Gaertner
Gaspar e Itapema, Setembro de 2009
Imagens: Árvore e flor Magnólia-branca (Magnolia grandiflora)
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terça-feira, 1 de setembro de 2009

*Oma Irma*



O sol já subia há mais de uma hora quando uns passinhos abafados foram ouvidos na casa. A mulher põe seus chinelinhos de pano e vai um pouco encurvada pelo corredor em direção à cozinha, às vezes até parece querer se apoiar na parede, como se tivesse uma leve tontura. Passa bem devagar pelo degrau que dá acesso à copa, piscando os olhos encovados atrás dos óculos, vai até a caixa de lenha, escolhe uns tocos e os mete no fogão junto com umas folhas de jornal. A chapa começa a esquentar e um cheiro de fumaça se mistura na cozinha, ela amarra o avental espiando lá fora o pátio vazio e então coloca uma chaleira cheia de água no fogão a gás enquanto sua filha no andar de cima logo escuta as louças para o café. Quem a visse naquela manhã veria uma mulher pequena, cada vez menor, com uns 80 anos se movimentando com gestos lentos e automáticos. Para o velho corpo todo aquele ritual agora é feito com calma. A mais leve reação de um sentido é agarrada com atenção, como se fosse de importância vital, as mãos, os olhos e os ouvidos nunca estiveram tão unidos e a rotina é uma de suas melhores aliadas. Desse jeito a velhinha simplesmente continua indo em frente.
Hoje ela vive com seu marido doente que quase nunca fala e com sua filha mais velha. Para as tarefas mais pesadas ainda conta com a ajuda de uma empregada, antiga conhecida da família. O café da manhã, o almoço e o jantar são as obrigações da oma e todos os dias ela se entrega a isto com tamanha devoção que é difícil de acreditar não fazer tudo com verdadeira alegria. Nesta manhã ela tinha começado com o sol já alto, mas nem sempre acontecera assim. Muitos anos antes, também trabalhava no açougue da família ao lado da casa, quando o trabalho iniciava ainda de madrugada. Sua principal função diária era preparar a primeira refeição para os trabalhadores que chegavam de outros bairros e por muito tempo também ajudou nos embutidos produzidos no açougue. A oma, com seu marido e filhos, antigamente com seus sogros, viviam do abate de bois e porcos para a venda da carne nos mercados da região. A casa e o açougue não se separavam e o trabalho era constante, entre as duas construções passavam as cargas de lenha para o fumeiro e de animais que iriam esperar a morte na mangueira. Existia um grande movimento de pessoas entrando e saindo, comerciantes, empregados, clientes e curiosos para ver o sangue da matança. Mas isto já faz tempo e agora ela não precisa mais pular da cama tão cedo, mesmo assim, as manhãs não duram muito sem de repente ouvirmos seus passinhos em direção ao fogão à lenha.
Durante quase todo o dia a casa permanece em silêncio, as refeições até criam alguma animação passageira na cozinha e os carros mais barulhentos lembram que a estrada passa rente à fachada. Mas na maior parte das horas a casa se volta para o grande jardim, que ocupa um lote inteiro no lado oposto ao açougue, onde até poderia ser construída uma nova casa. Netos e bisnetos agradeciam por isto nunca ter precisado acontecer, o grande jardim que vai da estrada até o barranco do rio sempre fora um lugar de curiosas explorações e brincadeiras. Para as longas tardes que os velhos passam na varandinha nos fundos da casa, o jardim de grama cortada, com uma frondosa jabuticabeira, flamboyants, uma nervosa e espinhenta paineira, sombreiros e um pé de ipê, é o refúgio de olhares gastos, de pensamentos fugidios.
No início da manhã, ao meio-dia e ao anoitecer a oma prepara e esquenta a comida abnegada na sua função, enchendo a mesa com seus potinhos e pães ela parece estar totalmente absorvida em servir. Não é raro também vê-la indo rápido ao armário das louças quando chega uma visita inesperada; por nunca sair de casa, é uma anfitriã em prontidão. Um de seus netos que mora ao lado, na casa depois do jardim, a acompanhava diversas vezes nas refeições. Ele se perguntava, olhando a velhinha nas suas voltas entre o fogão e a mesa, qual seria a ligação dela com aquele trabalho todo. “Deixa oma, não precisa mais trazer nada.” Para ele, nestas horas se misturavam na atitude da velhinha a gentileza e o condicionamento. Geralmente as gentilezas estão ligadas a uma situação de extremo domínio, onde podem ser calculadas e desta forma os gentis estão no auge do controle de suas articulações. Uma gentileza pode estar cheia de preocupações metafísico-religiosas, de uma necessidade de traquejo social não inteiramente livre da demagogia, como os automatismos de polidez adquiridos nos primeiros hábitos, de uma simples bajulação ou então, a mais incrível das explicações, a gentileza como gozo narcíseo. Como o narciso altruísta que afaga seu bondoso coração ao dar espaço para outro carro entrar na fila. Mas as gentilezas da oma são de outra natureza, são atos amorosos que após tantas voltas tornaram-se reflexos amorosos. Quando ela se levanta da mesa pela terceira vez em busca de mais potinhos de comida, ela está reagindo como a dona de casa que quer servir sua família. A oma dá uns risinhos encolhendo os ombros e com passos curtos continua a encher a mesa: “Tá! Tá!”
O passar dos anos cristalizou na mulher uma essência inalterável e esta constância essencial lhe é especialmente marcante. É normal ouvir de seus filhos: “Minha mãe sempre foi desse jeitinho.” Certamente alguns de seus conhecidos mais próximos até se esquecem da sua condição de mulher, sua atitude e pequenos detalhes são tão perenes que ela talvez já seja uma daquelas pessoas transformadas em instituição. Após se casar nunca mais trabalhou fora de casa, exceto no açougue da família. Sua educação se reflete muito nos moldes do século XIX, experimentando como esposa e três filhos as singularidades de uma família patriarcal e, durante toda sua longa vida de casamento, o que significa a maior parte de sua própria existência, ela voltou suas atenções para os entes familiares. Como os outros, que não podem mais enxergá-la como uma unidade autônoma, ela também parece não ter conhecimento de nenhuma vontade exclusivamente sua, com exceção de algumas pequenas vaidades como uns brinquinhos ou um pouco de maquiagem. Assim, tão mergulhada nesta micro-comunidade, um de seus únicos desejos demonstrados é o de ficar em casa.
Para seus muitos descendentes a convivência com a oma é de uma candura dificilmente perturbável, a simplicidade dos modos e das coisas que diz a torna muito querida. O seu jeito reto de interpretar já causou situações divertidas na família. Uma noite quando estavam assistindo o jornal da TV, o jornalista anunciou o lindo gol de bicicleta que seria mostrado no próximo bloco depois dos comerciais. Ninguém se mexeu nessa hora e no final do jornal a oma ainda continuava de olhos atentos na televisão. “Eu não vi nenhuma bicicleta entrando neste jogo!” Ela denunciava a falha do repórter com seu sotaque dos antigos colonos.
Todos os natais a oma prepara diversos envelopes com dinheiro para presentear seus netos e bisnetos. Uma vez, na correria para arrumar tudo em um natal especialmente agitado, quando até o Papai-Noel apareceu, ela acabou escondendo o montinho de envelopes num lugar muito seguro. Seguro até mesmo da sua memória! Quando a perda foi anunciada em desespero, uma verdadeira e desenfreada caça ao tesouro começou por toda a casa. No meio da correria uma das noras avistou o montinho cuidadosamente encaixado debaixo do forno de micro-ondas.
Nas conversas durante as refeições as coisas precisam ser ditas com clareza para poderem ser processadas pelo jeitinho simples da oma, ela não raramente troca as histórias que são contadas com atropelo. Uma vaga concentração acentua sua ingenuidade e o resultado é um entendimento muitas vezes simplório das novidades. Mas isto não é maior que seu entendimento geral sobre as coisas, que de tanta constância está sólido numa coerência de valores invioláveis. Não importando os entremeios, ela quer todos os seus unidos e felizes até o final.
Nesta tarde depois de seu descanso do meio-dia, a oma recolhe algumas camisas e panos pendurados no pequeno varal atrás da casa. Leva a pequena pilha de roupas até o quartinho da frente e começa a passar com rapidez, dando batidinhas com o ferro aquecido, na mesma hora em que a filha sai de carro e o marido dorme no quarto ao lado. Por ele estar doente precisaram mudar sua cama para este cômodo no piso de baixo, o velho homem mal pode subir as escadas e passa a maior parte do dia dormindo ou sentado na varanda.
É um meio de tarde aprazível de outono. A casa possui vários cantos escuros, tapetes, móveis escuros e antigos que a tornam sóbria, quase sombria. Pela porta preta da sala de visita, um pouco pelas janelas da cozinha e por outras frestas indefinidas entram os raios de sol avermelhados e oblíquos. No quarto onde está a oma, bem de frente para a movimentada estrada de asfalto, a luz entra com toda a força, esquentando e abafando o ambiente. Este barulhento quartinho aos poucos fica morno e com um cheiro forte de roupa passada e ali a oma repete os movimentos de dezenas de anos, alinhando as roupas com cuidado, dentro de seus pensamentos.
Quando volta pelo corredor escuro em direção aos fundos da casa, sente nas pernas o arzinho frio vindo da cozinha. Vai recolher o resto da roupa seca e escuta a sinuosa e aguda melodia de um instrumento musical passando pelo jardim. Também se misturam no ar os sons da serra elétrica funcionando no rancho e as rolinhas ululando sobre sua cabeça nos longos galhos do sombreiro. O homem que realiza trabalhos para a casa está serrando a lenha no rancho, ele é um solitário que desaparece de tempos em tempos e volta em busca de pequenos serviços, quase mudo por uma gagueira que arrasa a língua e lhe é intransponível, permanece em estado de embriagada serenidade, convivendo com a possibilidade da indigência. A oma entra na casa carregando nos braços a roupa que vai passar, mas antes ajuda o marido a levantar-se da cama e o acompanha até uma cadeira na varanda. Ela lhe oferece água, falando seu nome com uma voz estralada, acentuando levemente a primeira sílaba. O marido concorda silencioso com a cabeça e vira o copo cheio de uma só vez, depois de saciado estica o braço com o copo vazio e solta o corpo lentamente. Então ela resolve deixar as roupas para passar outra hora e senta ao lado do opa na varandinha atrás da casa, com vista para os fundos, para o pátio, o rancho e o jardim. Enquanto ele já vai cochilando ela se curva na leitura da bíblia sobre os joelhos fininhos e desta maneira eles ficam ali, aguardando o retorno da filha.
A tarde passa com a copa das árvores mais altas alaranjadas pelo sol descendente e bem nesta hora a grama começa a ficar gelada se andamos descalços. Quando o carro finalmente reaparece pelo calçamento atrás da casa, a oma se levanta ligeira e vai esquentar a água. A filha chega falante com alguns papéis e caixas de remédio; ela tem trabalhado bastante pelo velho pai e também quase nunca sai de casa, é o contato com os médicos e com o mundo exterior.
Uma pequena toalha é arrumada até a metade da mesa e a oma coloca os potes de doce e geleias, ajeitando com cuidado a louça para três pessoas tomarem o café. O opa é levado pela mão passo a passo até seu lugar e espera para ser servido, agora os três estão sozinhos na penumbra da copa-cozinha. Algumas perguntas em voz mais alta são feitas ao homem sentado: “Pai! Já tomou o remédio?” “Onde está o remédio?” As duas demoram a se juntarem à mesa. “Pai! Sabe quem morreu ontem? O Willy Becker.” A oma encobre a boca aberta com as duas mãos e olha com atenção para a filha, o velho levanta o olhar profundo e triste por um instante e, num longo suspiro, volta a encarar o tampo da mesa com sua xícara enorme. Eles ficam ali sentados por pouco tempo e conversam apenas algumas frases. A filha elogia o doce da Helga, a velha oma diz que amanhã precisa acabar de passar a roupa.
Depois de lavar a louça vai até o velho rancho de madeira pegar uma enxada. A oma quase sempre usa vestidinhos até os joelhos e chinelos que aparecem os dedos do pé, ela caminha pelo pátio ainda mais arcada e encolhida que de costume, como se fora da casa se sentisse menor do que já era. Entre devaneios sem fim, pensa no velho de sua geração que morrera ontem e calcula aliviada que ele era mais velho do que ela. Passa entre o rancho e o viveiro abandonado segurando a enxada para baixo. O viveiro está cheio de plantas crescendo em liberdade em vasos de plástico e de barro, trepando pelas grades deterioradas ou plantadas no chão, a maior planta é um fícus que fugiu do controle; que copa mais cheia, que esconde poucos ou nenhum ninho e onde se vê de noite os gambás passeando pelos galhos. Mais atrás no jardim, antes de chegar ao barranco do rio, a oma entra pelo portãozinho que se abre para o antigo galinheiro, agora um grande quadrado cheio de mato bem alimentado crescendo sem piedade. Dentro do antigo galinheiro ela consegue ver de um lado a caixa d’água de cinco metros de altura torta como a Torre de Pisa, “se ela cair, o rancho vai junto.” Do outro lado, o alto muro que separa seu terreno da casa do seu filho mais novo, onde agora moram dois de seus nove netos. A velha se entorta um pouco para frente e começa a arrancar o capim com a ferramenta, a terra escura tem algumas pedrinhas que fazem um som forte a cada golpe. Ela trabalha devagar e com movimentos regulares, franzindo um pouco o rosto e após capinar alguns metros aparenta estar alheia ao que acontece fora de sua atividade.
Todo o cenário, que vai do pátio do antigo açougue e sua mangueira abandonada, o rancho velho que serve como garagem e depósito de ferramentas e velharias, a grande casa cheia de vasos bem cuidados, o comprido jardim e o barranco do rio, é onde a oma passa seus dias. Nestes lugares ela preenche seu tempo com pequenas e constantes lidas. Para um observador desatento pode ser difícil notá-la andando pelo quintal, mesmo se ela estiver bem à sua frente, no meio do jardim na coleta de acerolas. A oma já se confunde com seu próprio espaço, seus canteiros, sua casa e suas árvores. Mas, para um observador atento, a velha mulher de dedinhos nodosos é transcendente. Percebê-la andando entre os arbustos e flores é como ver algo importante no último instante, um pouco antes de desaparecer. É um privilégio! Escutar as pancadinhas de sua enxada no outro lado do muro é uma alegre surpresa, é como um pensamento inesgotável, porém suave e sem enfeites, “a oma agora está capinando...”
Antes de escurecer completamente a oma já tem os trabalhos para a janta bem adiantados. O dia termina com a última novela, às vezes até mais cedo e as conversas com a filha são breves e funcionais, as portas são fechadas e os pássaros do jardim e do telhado se aquietam. Se passar alguém andando muito devagar pela estrada o cachorro vai latir e arrastar a corrente pelo calçamento do pátio. Em algumas noites se podem ouvir miados lamentosos por toda vizinhança e outros cachorros ou ainda algum silvo arrepiante vindo de longe pelos lados do barranco do rio. Quem espera na sala ou fica parado no corredor escuta seu próprio coração batendo e a casa não reage mais. As lâmpadas são fracas e os cantos se enchem de esconderijos fazendo esquecer as formas que poucas horas antes eram iluminadas, o tique-taque seco do relógio de parede deixa o silêncio ainda mais evidente. Também existe um outro grande relógio de estimação pendurado que não funciona há incontáveis anos e olhar para aquela caixa de madeira escura com os ponteiros parados causa um estranho desconforto. O fogão à lenha está esfriando, mas na cozinha ainda dura um pouco do cheiro de fumaça; quando crianças, netos e bisnetos tinham medo da casa nesta hora, parecia que o ar nos pés ficava cada vez mais gelado obrigando todos a irem para seus quartos, quase dava para ver os fantasmas - a casa estava transformada.
A oma se prepara para deitar, satisfazendo as últimas exigências de sua rotina, anda para o quarto iluminado no fim do corredor e ainda escuta a filha fechando as janelas lá em cima. Logo vem pronta do banheiro com os cabelos soltos e de camisola. O marido já dorme profundamente quando ela se ajeita no travesseiro e estica o braço para apagar a luz.

Com amor para Irma Wiese Gaertner





Leandro Gaertner
Blumenau e Gaspar, Fevereiro de 2006 e Janeiro de 2007.


Imagem: Manhã com névoa (Alfred Sisley 1874)

PS. No dia em que resolvi ler este texto para Oma, anos depois de ter escrito, ela disse que quase tinha perdido meu pai na hora do parto, disse que ele tinha nascido muito roxo. Ela suspirou e disse “Ainda bem que não perdi...” Se ela já tem essa sensação de alívio, imagina eu.


terça-feira, 18 de agosto de 2009

R E C I F E

Eita... Sei que Recife merece mil blogs e mil páginas, todos a todo vapor no esforço de captar um centésimo de sua essência... agora distante vejo aquele aglomerado de gente na ponta do continente como uma jóia verde e caudalosa, ardida e morna, acho que um dos lugares mais escancarados do mundo e por isso insondável. Não teria a profundidade necessária para desnudar todas as sutilezas daquela querida terra dos altos coqueiros e dizer quase tudo em três palavras como Aslan Cabral "Quente, Pobre e Feliz", nem resumir tanta amizade como o sorriso do Rico ou tanta musicalidade quanto o bandolim do Beto ou encerrar tanta displicência quanto o garçon do Arriégua, só posso brincar de comparar e com isso eu me divirto.
Nos primeiros cinco minutos no bafão já comecei a brincar disto e não parei mais, mas não demorou muito para entender algumas coisas e assim levar meus meses em Recife, atento e admirado. Vivia à caça de estranhezas e belezas, como toda cidade grande cidade, aquele clarão encalorado de Pernambuco só oferece e mostra e esbanja e vomita e afaga e espeta e quase nada esconde.
Não foram as lindas pontes, nem o cotovelo enferidado do Capibaribe, que mais amei, foi um grupinho de taxistas em volta de um radinho ouvindo frevo na pracinha desgrenhada da Várzea, entre um Brenand e outro, foi o laguinho da federal brilhando arejado e decorado de flores. Aquele tropical absurdo quando saímos de uma sala do Conservatório Pernambucano de Música ou do CAC, ou o vento assanhado rasgando pelas frestas do CFCH, o pequeno jardim do Éden ou das Carícias ou das Formigas ou dos Gatos, o ar fresquinho da Várzea, longe do centro e dos prédios de Casa Forte.
No shopping em Boa Viagem tive que usar o GPS ou me deixar levar pela Cambica até os vapores cafeinados da Casa do Pão de Queijo ou nos perdermos juntos em sonhos distantes na TokStok, depois abraçar aquela luazinha fraquinha de dentro do ônibus, satisfeito.
Macaxeira hoje.... How i met your mother.... onde mais isso poderia coexistir balançando na mesma rede? Vai barracão... vai Brubeck cheio de vinho e veritas, duas mulheres lindas na minha frente, risonhas, uma branca, quase ruiva, e uma morena, quase índia, duas heroínas, lindas e amorosas, corajosas, o melhor já feito em todas as latitudes!
Recife é para lavar a alma, passar calor, tropeçar no lixo, cantar Mozart com toda força, comer camarão, pizza, correr pro Barro-Macaxeira, engarrafar nas calçadas da Boa Vista, desfilar maracatuéreo pelo Recife Antigo, olhar para os lados, tocar flauta em castelos, beiçar a Jureminha, ler e escrever, é a casa de Nossa Senhora do Ó, é lá que parei para poder voar, voar nas ideias e também para outras terras. Recife não deixa nós nos perdermos nos extremos da Finlândia ou do Haiti, ainda bem que Recife existe!


Leandro Gaertner
Tapira, Agosto de 2009.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

DIÁRIO DE VIAGEM - Inglaterra 1996

“Quando os primeiros raios de sol apareceram, também saíram dos esconderijos os esquilos e até uma lebre. Fiquei sentado nas raízes do carvalho escrevendo o diário e sentindo que a floresta estava diferente agora. Algo tinha mudado... Tudo que havia sentido no fim da tarde anterior já era distante! Os calafrios haviam passado e estava feliz, pois naquela noite deixei de ser só um visitante da floresta...”

Dia 53
Escrito na Floresta de Sherwood

Agora estou deixando Manchester com uma ótima impressão da cidade. Afinal tive uma perfeita e silenciosa noite de sono! O albergue está super vazio, pois é segunda-feira normal, estou matando aula. Não entendo minha forma de avaliação pra uma cidade, mas de Manchester eu gostei. É uma Curitiba sem aquela favelança do subúrbio, não é limpinha mas também não é suja. O centro é Curitiba de corpo e alma. Estou a caminho de Nottingham, no centro do país, dizendo tchau pra minha primeira sessão de cinema na Inglaterra.
Cheguei em Nottingham para o almoço às 12:00 horas. Depois fui até o centro municipal de informações para saber como ir até a Floresta de Sherwood. A moça do balcão explicou e fui conferir o que restou do Castelo de Nottingham com a estátua de Robin Hood. Já tinha resolvido pegar o busão das 14:00 horas. Tudo resolvido... Dei aquele passeio no castelo, nos jardins, tirei fotos, falei com dois senhores que era do Brasil – a mesma coisa de todos finais de semana... + ou – 13:30 voltei para a região do Centro Vitória onde sabia ser o ponto. Procurei, procurei, não achei nada! Voltei para as informações puteado, mas falei normalmente com o recepcionista. O indiano deu-me outro mapa e agora entendi. Foi cagada minha não encontrar a estação certa do ônibus 33 para uma linha que passa perto da Floresta de Sherwood. Achando a estação correta peguei o ônibus correto às 15:35. Queria voltar logo para pegar o trem das 19 horas...

(Depois eu continuo pois já está muito escuro, preciso tentar dormir!!!)

Resolvi continuar ainda hoje pois este momento é único!!!
A floresta é mágica, impossivelmente penetrante, cativante, a sensação de estar aqui, deste jeito como estou é nova, original, natural, completa.

Total!!!

A escuridão vai tomando conta e é difícil enxergar, mas faço pela importância desta noite para minha recordação futura... Tenho um pouco de receio pela noite que cai sobre as folhas. Espero não chover, é tudo fantasticamente excitante. Minhas mãos cheiram a barro e grama, estou sujo, minha roupa muito. Deitado no desconforto estou mais confortável como nunca estive. Olho para cima, o carvalho antigo está imóvel com os finos galhos balançando ao vento. Sinto algumas gotas caindo do céu cinza querendo escurecer... Estou feliz por poder estar aqui, feliz por viver com saúde e poder fazer o que estou fazendo!!!
Nunca mais esquecer este instante que gostaria compartilhar com a família. Sinto-me quase completo, é incrível, inexplicável...

Eu amo viver !!!!!!

Boa noite na Floresta de Sherwood
10:20 hs PM

AMANHECEU
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Cheguei na floresta 16:20 h, apressado, quase volto pro ponto para pegar o próximo ônibus de volta para Nottingham. O ponto fica num vilarejo chamado “Edwinstowe, Royal Oak” e fica distante da entrada da floresta + ou – 1 Km, techo que fiz a pé. Quando vi que a Floresta de Sherwood tem muito a oferecer, decidi pegar o busão das 6:30 h. Então comecei a andar pelos rumos, o parque está quase vazio, apenas algumas pessoas, pois é meio da semana... Seguindo as placas cheguei até o “grande carvalho”, continuei andando e sendo dominado pela lenda. Quando já ia saindo vi um aviso numa pequena placa explicando ao turista que não é obrigatório só andar nos trilhos feitos, é permitida explorações aos segredos da floresta...
Comecei a andar mato adentro. Esta florestas na Inglaterra não podem ser chamadas de mato pois são bem abertas, árvores grandes (carvalhos) e distantes. O solo é coberto por uma espécie de gramínea com várias espécies de plantas pequenas como a samambaia. Andando entre as árvores, resolvi escalar um carvalho. Tentei no primeiro que pareceu fácil, mas não consegui. Atravessei uma clareira, escolhi outro carvalho e consegui chegar ao topo. Ele é meio inclinado facilitando o meu desejo. Queria tirar uma foto do alto da árvore, mas chegando no topo com muito sufoco, vejo que os galhos tampam a vista, não é o carvalho ideal. Além de ter acabado o filme de 24 poses e não 36, como pensava. Minutos antes de começar meu passeio fora do rumo, quando já ia saindo do parque , vi um círculo de pinheiros grandes, densos e escuros, formando uma perfeita cabana no centro. Me passou pela cabeça pela primeira vez a possibilidade de dormir na floresta... Ri, mas achei sério e possível.
No alto do carvalho, sentindo toda aquela adrenalina pensei mais sério ainda sobre dormir no mato. Por quê não? Por quê não? Desci da árvore e continuei refletindo sobre a possibilidade. Via só três aspectos negativos: “aula amanhã, sem fotos, não poderia mais enganar o cobrador com a data do passe de trem”. Fiquei uns 15 minutos no pé da árvore tentando bolar saídas para ainda conseguir falsificar o Brit Rail. Muito bandido! A pergunta ainda ficou no ar e voltei pensativo e sorridente para a vila Edwinstowe. Como achava que o filme era de 36 poses, nem olhei e, quando a câmera pifou no alto do carvalho, pensei que era problema da pilha. Fui até um bazar, troquei as pilhas, que realmente estavam fraquejando, descobri que o maior grilo era com o filme e troquei. Perfeito! Segundo problema resolvido. O primeiro, o da aula, nem levei em consideração... Sem perceber eu torcia para não encontrar motivos para ir embora. Tudo me veio à mente, inclusive voltar semana que vem, especialmente para dormir na floresta. Logo descartei pois não seria a mesma coisa, não seria natural! Voltei para o ponto de ônibus, tinha comprado uma passagem com returno. Precisava daquela viagem de 45 minutos para pensar mais. O cérebro esta a mil!!! Aos poucos as chances de dormir ao relento pela primeira vez foram aumentando... Comecei a seguir outra linha de pensamento após resolver o terceiro problema. Em relação aos passes de trem, que me deixou um tanto apreensivo, descartei: “Eu não vou perder dinheiro, só não vou ganhar!”
Levando em conta o lado bom, me achei imbecil de ter vacilado fazer algo tão único por dinheiro ilegal, ainda por cima. Estava decidido!!! Passar a noite do dia 3 de junho para o dia 4 de junho, a céu aberto, na Floresta de Sherwood!!! Uma decisão muito maluca, que saiu não sei de onde, mas importante pelo puro e simples ato do pensar e fazer, deixando acontecer. Em Nottingham comprei meu jantar no McDonalds, fiz tudo rápido para pegar o próximo ônibus. Quando o motorista me viu de novo até ficou pasmo... É o melhor motorista que já conheci, muito legal e assobia todo o percurso. No caminho de volta para Edwinstowe, como já claramente iria dormir no mato, fui pensando como dizer pra mãe no telefone na quarta-feira. Só rindo... Desci do ônibus e comecei a caminhar rumo à aventura. Estava me sentindo tão bem andando pela estrada rumo à floresta que é impossível por nesta agenda todo complexo sentimento. Precisaria de páginas, muitas páginas para tentar pôr no papel o que pensava naquele momento.
Chegando, no estacionamento ainda tinha alguns carros, apesar de ser 20:30, algumas poucas pessoas passeavam. Ainda na entrada fiz uma cópia à mão muito rudimentar do mapa do parque onde os turistas tem acesso. Estava pronto para fazer a parte mais legal: procurar um bom lugar para se aconchegar. Andei um tempinho pelos rumos, sempre completando o mapa que fiz na agenda. Parei num ponto que pareceu bom, pulei a cerca e entrei no verde. Nem procurei muito e já achei o lugar ideal. Um lugar limpo, sem samambaias, apenas um capim macio. Para dar mais emoção decidi que iria dormir no pé de um velho carvalho. Como solo é bastante humoso poderia ter arrancado muitas pequenas árvores para me camuflar melhor. Não o fiz, estou num parque ecológico. Escondi minha chamativa mochila debaixo de uns arbustos, catei algumas folhas e fiz minha cama. Exatamente 21:40 estava pronto para dormir, até escovei os dentes com o gelo derretido no copo de coca-cola do McDonalds.
O lugar que escolhi é + ou – distante do rumo usado pelos turistas, fica no meio do espaço que existe entre estes caminhos. No mapa no final da agenda, talvez a visualização seja melhor...
Comecei a escrever ainda noite, tive que parar às 10:20 pela escuridão. Não total pois a lua está cheia. Animal!! Que momento, que lugar... Deitei já com a gota do orvalho pingando de leve das árvores. Abri o guarda-chuva e coloquei sobre as pernas. O corpo estava bem protegido com a jaqueta e o capuz. Tentei dormir! Não deu! Já esperava por isso mas ignorei. O frio apertou, levantei, peguei minha mochila e usei ela para tampar um quinto das minhas pernas! Sabia que dormir em si, seria a pior parte. Ao ar livre na Inglaterra não é muito aconselhável. Dormi mal mas realizado... Ou melhor só cochilei, para dormir precisaria de um cobertor.
Agora estou na raiz do meu carvalho, querendo deixar a floresta e voltar para a civilização. O nascer do sol está sendo lindo, acompanhado por esquilos e até uma grande e ligeira lebre. Sem contar com a passarinhada que começou logo no primeiro clarão, às 3:30. Tudo isso, mais a realidade fora do papel, cheiro frio, emoção, gerando uma infinita satisfação...
Estou deixando a floresta de Sherwood, uma decisão simples, prática, unida a muita vontade de fazer. Nunca mais poderei esquecer tudo que aconteceu nesta autêntica Grãventura!


ADEUS PRA
f l o r e s t a ! ! !
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Dia 54
Escrito no trem e em Brighton


Consegui mudar totalmente minha rotina. Minha viagem fez por merecer o nome de batismo. Fiz a diferença entre eu e os outros turistas! Poderia ter perfeitamente ido pra casa, planejado melhor com cobertor, comida, etc. Mas jamais seria a mesma coisa, assim de supetão é melhor, tudo acontece por acontecer acontecendo. É tudo muito doido!!!
Quando no ônibus ontem, a caminho da noite na floresta, tinha receio, mas conseguia saber porquê. Hoje sei que estava com medo de mudar o planejado, mesmo sabendo que seria uma experiência inesquecível... Simplesmente não pensei mais em coisas ruins, sempre procurando enxergar o lado bom. A decisão de fazer foi imediata e fulminante. A condição de pensar n o realizar ou não realizar foi rápida, uma hora e meia, a consciência de ter medo ou não durará sempre durante toda a vida. O detalhe desta vez foi o de escolher a coragem, uma coisa pequena que poderá servir como exemplo para meu futuro. Quando tiver uma oportunidade única, diferente, lembrarei da minha indecisão de ontem e optarei pela confiança! – Nunca pensei que teria uma segunda-feira tão legal!!!
Nesses últimos dois dias meu diário está numa divertida confusão... Quando “acordei” hoje na floresta com os pássaros, escrevi muito, aproveitando o embalo da situação. Tive bastante tempo para pensar pois ainda era muito cedo 4:30 AM, tudo fechado. Fiquei lá sentado junto à árvore, sentindo cada segundo com o mistério, lenda, magia e esquilos. Num desses instantes escutei um barulho no mato, olhei pra trás e vi um coelho gigante sair da moita. Meu primeiro reflexo disse ser um bambi, depois caí na real e me conformei com uma lebre papa-léguas.
A floresta inteira ainda estava um pouco úmida pela noite, eu, úmido e gelado. Numa próxima vez um cobertor será bem–vindo. Valeu cada milésimo de segundo, cada respiração naquele ar puro será importante pela decisão... Creio que muitos frutos nascerão partindo destes pensamentos, novas opiniões surgirão, tenho certeza que serão legais como foi minha primeira noite ao relento. Estreando melhor, só duas vezes: “Debaixo dos galhos de um antigo carvalho na lendária Floresta de Sherwood!!!”
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Após deixar “meu lugar” ainda escalei um tortuoso carvalho na beira de um dos rumos principais. Tudo para tirar fotos, um filme de 24 poses somente para minha louca pernoite. No caminho de volta pro vilarejo senti-me bem, não estava tão no bagaço como esperava ontem. Mas também não estava nas melhores manhãs. No ponto de ônibus via várias pessoas andando com mangas curtas e eu ainda tremendo um pouco, mesmo usando a jaqueta. Comi sanduíche com tody e nada de ônibus. Esperei 2 horas quando finalmente apareceu o número 33 para Nottingham. O motorista só parou porque acenei, ele disse que o ponto é em outro lugar. Ontem o motorista do assobio falou que o ponto era aquele no qual havia estado durante as últimas 2 horas. Das 7:30-9:30. Não poderia saber que cada motorista escolhe seu ponto... Paciência! Fui no andar de cima, dormindo e pescando esquilo. Em Nottingham só deu tempo para almoçar, comprar passagem para Londres e embarcar no trem às 11:30, pois tudo é longe e tenho que andar. Não mexi no número 3 no passe Brit Rail; semana que vem eu falsifico. Paguei £28,00 até Londres, de onde quero ir de busão até Brighton. Para mim a viagem Londres-Brighton tem que ser de ônibus, é histórica, afinal foi assim que tive meu primeiro contato com a Inglaterra...
Durante todo este tempo estou escrevendo no trem, treme bastante e é neguinho com celular pra todo lado... Chegando em Londres fui direto pro metrô, destino estação Victória, mais próxima da rodoviária. Peguei o busão das 14:30 para Brighton. O calor em Londres está animal, cheguei a suar no ônibus. Durante a viagem “dormi” bastante, como no trem. Estou bem mas com sono, tenho disposição mas quero dormir... Coisas de Sherwood.
Quando contei para Mrs. Hallifax minha aventura ela quase teve um ataque de tanto que gostou, não parava de repetir elogios, colocando muitos lados positivos no feito, toda hora retomava o assunto floresta!!! No livrão ilustrado da Mrs. Hallifax tem uma foto do amanhecer na floresta de Sherwood. A foto tem aquele solzinho penetrando devagar nos carvalhos com um pouco de neblina, vendo aquilo senti um aperto no coração pois não sei quando verei aquilo de novo! Toquei flauta, senti o conforto da casa, mas meu coração agora é feito de
Lendas e Aventuras !


Leandro Gaertner
Junho de 1996
P.S. (Texto copiado sem alterações de minha agenda "Diário de Viagem"; viagem que fiz com 18 anos, morando 3 meses na Inglaterra e viajando 1 mês pelo continente europeu - França, Alemanha, Suíça, Itália, Grécia, Holanda, Bélgica, Áustria e Espanha. O diário completo possui 122 dias escritos.)
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