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sábado, 11 de abril de 2009

DIÁRIO - LES FOURMIS CHEZ NOUS ou AS FORMIGAS DE CASA



É muito comum comparar o modo como as pessoas agem às formigas. Hoje de manhã também resolvi fazer isto, escrevendo, afinal escrever é um exercício saudável e preciso me manter treinado para escrever minha dissertação de mestrado. Mesmo que minha dissertação não seja sobre as formigas e sim sobre a análise musical para intérpretes.
Nas manhãs que fico em casa gosto de levantar quando o sol já está bem alto (geralmente saio da cama quando o sol já está bem alto) e tomar meu café com um docinho qualquer na varanda de trás, apreciando o movimento do jardim. Nos últimos dias tenho observado com atenção uma longa fila de formigas que passa na extremidade da calçada de cimento, próximo ao gramado, bem em frente onde fico sentado. Elas saem do canteiro à minha direita e vão cambaleantes com uns pedacinhos de mato verde até uma rachadura na calçada na parte de trás da casa distante uns vinte metros, para elas uns 4 quilômetros. Fico pasmo olhando as trombadas que dão umas nas outras, elas caminham, ou correm, sempre muito próximas, chocando seus matinhos muito maiores que elas e que, apesar de balançarem muito, raramente caem.
Ainda no início de sua jornada, a fila de formigas tinha que desviar de uma pedra numa manobra desconfortável aos olhos, torcendo todo o corpo massacrado pelo pedaço enorme e instável de mato. Todo aquele aparente esforço me sensibilizou e resolvi remover a pedra do caminho, num ato que foge à minha conduta padrão que é de tentar não alterar o desenrolar espontâneo da vida natural. É incrível que mesmo morando numa casa confortável, tendo carro à gasolina e acesso a praticamente todos os confortos modernos, como longos banhos de banheira, ainda tenho essa sensação de que posso ser de alguma forma importante ao tomar cuidado com as coisas ao meu alcance ou pensar em não alterar a ordem natural dos eventos. Essa condição me legitima como membro ativo e apaixonado em um dos mais bem sucedidos e contraditórios movimentos sociais da humanidade, a ecologia. Bem sucedido em dois sentidos, primeiro pelo grande poder de adesão em massa e segundo, pelos resultados; aqui em casa na minha infância só se ouvia pardais (passarinhos urbanos importados da Europa) e raramente um pássaro canoro local de porte, mas agora não é difícil ter a companhia de sabiás laranjeiras e cinzas ou ver vôos rasantes de tirivas barulhentas. Parece que nem o Bali conseguiu mais convencer seu filho a ir numa caçada...
Ao transgredir e tirar a pedra do caminho das formigas, constatei surpreso que elas realmente não se orientam pelos mesmos meios convencionais dos humanos. Elas continuaram desviando seu trajeto, agora de um obstáculo imaginário! É claro que ao tratar o espaço vazio, outrora ocupado pela pedra, por “obstáculo imaginário”, eu estou agindo com reservas, como também atribuo com reservas uma certa incredulidade às formigas ao estacarem por um segundo neste lugar e se desviarem penosamente sem necessidade. Isto, porque esta incredulidade é minha, que estou limitado às minhas próprias formas de orientação, como a visão, a audição, o tato e a fé, e não consigo penetrar no instinto orientador de uma formiga. Afinal, as formigas não podem ver ou ouvir como nós, nem ser crédulas ou incrédulas, pelo menos espero que não. Alguns textos nestes livros denominados de “auto-ajuda” e outras destas espiritualidades baratas vivem fazendo metáforas com tudo o que se possa imaginar, transpondo com uma crueza simplória milhares de eventos naturais à natureza das ações humanas. Se existe alguma transposição que possa ser feita ela deveria ser interna e codificada. É dessa maneira que gostaria de defender as formigas!
Após o meio-dia a fila da contramão começa a ser mais numerosa. Algumas formigas ainda fazem o caminho de ida segurando o matinho, mas o trânsito vindo do sentido oposto é mais intenso e causa mais encontrões. Durante o tempo que fiquei observando este vai e vêm notei uma formiga excepcional, extraordinária. Mesmo antes do meio-dia ela já vinha na contramão em direção ao canteiro, e ainda vinha carregando o seu matinho. Acho que nunca poderia saber o que estaria acontecendo com esta tonta desorientada, ou genial, ou preguiçosa formiga. Fico agora procurando com bom humor mais alguma dessas, mas todas estão voltando muito depressa e sem carregar nada. É bem possível que ela tenha chegado ao canteiro e dado meia volta, começando tudo de novo. Num outro dia pode ser que eu acompanhe melhor alguma dessas curiosas e aparentemente incrédulas criaturas.

Leandro Gaertner - Gaspar, Setembro de 2006.

Escrever em blog

Escrever é fácil! Escrever para publicar em blog é mais fácil ainda! Na verdade, é uma delícia e estou fazendo isto pela primeira vez agora, neste exatíssimo momento, 00:59 minutos do dia 10 de abril de 2009. Não terá concurso, nem banca examinadora, não precisa pensar em nada profundo, mas se quiser pode. Pode tentar escrever que nem Hermann Hesse, Homero (hehe), pode fazer neologismos, pode até tentar ser um Pamuk...vale tudo. Absolutamente nada é proibido, pode usar o blog para se fazer sério, se preocupar com o Brasil, com o mundo mesmo, Estados Unidos, crise, Satiagraha e outras tagarelices efêmeras, pode meter pau na aleatoriedade, etc...Simplesmente, não importa! É maravilhoso! E só agora, mais de 6 meses com um blog foi cair a minha ficha, acho que só agora minha mente estava livre para isso. Todos os textos que anexei até então foram arroubos despretensiosos e auto-terapêuticos, porém ainda mais auto-terapêutico é deixá-los online para qualquer pessoa. Escrever para ser lido é um alívio e o blog um marco histórico.
Ainda tenho uns textos para anexar, uma historinha meio mal humorada, porém divertida, que vou colocar para ficar de consciência limpa (Dr.Jekill na classe média) e outras mais curtas que me deram igual bem-estar. De resto irei tentar escrever em blog da maneira mais livre e prazerosa o possível, elogiando, xingando, e talvez ele será um exercício contínuo da escrita, um alívio, um contato próximo com pessoas amadas distantes, um convite a fazer novos amigos.
Pelo que entendi uma das coisas mais importantes em blog é uma escrita mais rápida, quero dizer, escrever menos, então os meus textos maiores fogem um pouco a esta regra, se é que podemos assim chamar uma práxis. Outra coisa normal dos blogueiros é a especialização temática, coisa que tentarei evitar. Pelo menos aqui EU mesmo serei o tema a ser especializado, com todas as bobagens preconceituosas, lógica retorcida e certamente alguns acertos. Talvez uma boa opção seja, pelo menos penso isso agora, ficar num meio termo entre o mundo público chatinho da maioria, que mal consegue escrever e luta com o português cada vez que tenta deixar um depoimento no Orkut e o mundo dos colunistas oficiais, que escrevem metodicamente e vivem disso. Entre estes dois mundos acho que existe um vácuo confortável, onde posso ficar bem à vontade e por aí que irei, até mudar de idéia. Pois, como quero crer, blogar não tem regras! Resumindo, é um ótimo lazer para gente que pôde estudar de verdade (me refiro a acabar a faculdade, fazer mestrado e ainda ter expectativas com doutorado) e tem algum tempo de sobra como eu, como também são ótimas as revistas especializadas em fofoca e novelas para as pessoas com ensino fundamental e as revistas pseudo-científicas e livros de auto-ajuda para as pessoas com o pezinho num desses cursinhos de terceiro grau de 200 reais.
Volto a frisar que escrever é muito bom! Organiza as idéias e pode servir como memorial no futuro. É muito gostoso achar um velho diário, ler umas cartas de 10 anos atrás, talvez até mais legal que ver fotos antigas. Espero reler estas linhas quando ficar velho e me divertir... se chegar lá. E quero reler um estilo livre, um molho sangrento à cabidela de Thoreau, Hugo, Hesse, Debussy, Mozart, Bach, Redon, Hopper, Fantin-Latour, Pixinguinha, Villa-Lobos, Parker & Gillespie, Kubrick, Dawkins..... Antes de terminar, pensei numa outra coisa sobre o que não serei neste blog Sonho de uma Flauta.... tentarei não me poupar como se poupam os colunistas intelectuais (e são mesmo intelectuais) que são fantásticos e astutos, são críticos de cinema, de música, analistas de economia, colunistas sociais (estes bem menos intelectuais), são incríveis e fazem sair leite de pedra, porém se poupam sempre (talvez se poupam tanto que não fazem mais nada além de escrever suas colunas). Meus esforços irão ao sentido da sinceridade, senão como chegarei a me comunicar com minhas pessoas amadas? Para tanto nem eu serei poupado.

Leandro Gaertner
Recife, 10 de abril de 2009.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Espirais do Tempo


















Resumo de História da Música

Resumo de História da Música (dos Gregos ao Séc.XIX)
Organização: Leandro Gaertner (legaertner@hotmail.com)

Baseado na obra:

GROUT, Donald J.; PALISCA, Claude V. História da música ocidental. Lisboa: Gradiva, 2007.


1
A situação da música no fim do mundo antigo

A situação da música no fim do mundo antigo
• 312 d.C.: o imperador Constantino fez do cristianismo a religião da família imperial.
• 395 d.C.: divisão do Império do Oriente (Bizâncio) e Império do Ocidente (Roma).
• 476 d.C.: quando o último imperador do Ocidente foi deposto, os alicerces do poder papal estavam já tão firmemente estabelecidos que a Igreja se encontrava em condições de assumir a missão civilizadora e unificadora de Roma.

A herança grega
•Ensinamentos, correções e inspiração nos mais diversos campos de atividades (diferença entre música e outras artes).
•Reconstituição de cerca de quarenta peças ou fragmentos de peças musicais gregas.
•Grécia e Roma: baixos-relevos, mosaicos, frescos, esculturas, literatura.
•Desaparecimento das tradições da prática musical romana no início da Idade Média (início da Igreja Cristã).
•As teorias musicais antigas estiveram na base das teorias medievais.
A música na vida e no pensamento da Grécia Antiga
•A música como origem divina, poderes mágicos... (Ex: mitologia e antigo testamento).
• Culto de Apolo (lira) e de Dioniso (aulo - este instrumento associava-se ao canto de certo tipo de poema – o ditirambo).
•Acompanhamento nas grandes tragédias clássicas – obras de Ésquilo, Sófocles, Eurípides.
• Desde o séc. VI a.C. tanto a lira como o aulo eram tocados como instrumentos independentes, a solo (concursos, festivais instrumentais e vocais, proliferação de músicos profissionais).
•Música monofônica e quase totalmente improvisada, com a sua melodia e o seu ritmo ligado intimamente à melodia e ao ritmo da poesia (com instrumentos acompanhadores).

Música e Filosofia na Grécia
•A música grega chegou à Idade Média, sobretudo através da teoria e não da prática (sem continuidade histórica musical).
• Música – forma adjetivada de musa.
•Pitágoras (c.500 a.C.), Aristides Quintiliano (séc. IV a.C.), Platão (Timeu e República, escrita em c.380 a.C.) - música e aritmética.
• Cláudio Ptolomeu (séc. II d.C.) - intervalos musicais e sistema de corpos celestes.
• Música e Poesia.

A Doutrina do Etos
•A música como uma força capaz de afetar o universo.
•Numa fase posterior, passaram a sublinhar-se os efeitos da música sobre o caráter e a conduta dos seres humanos. Doutrina da imitação de Aristóteles, a música representa as paixões ou estados da alma.
•Platão e Aristóteles: sistema público de educação cujos dois elementos fundamentais eram a ginástica e a música.
•Na doutrina grega do Etos existe uma divisão genérica em duas categorias: 1- música que tinha como efeitos a calma e a elevação espiritual (culto de Apolo, formas poéticas correlativas a ode e a epopéia - lira); 2- música que tinha como efeitos a excitação e o entusiasmo (culto de Dioniso, o ditirambo e o teatro - aulo).

O sistema musical grego
•A teoria musical grega compunha-se tradicionalmente de sete tópicos: notas, intervalos, gêneros, sistemas de escalas, tons, modulação e composição .
•Distinção entre dois tipos de movimento da voz humana: o contínuo e o diastemático.
• O bloco fundamental a partir do qual se construíam as escalas de uma ou duas oitavas era o tetracorde (formado por quatro notas, abarcando um intervalo de quarta – consonância – Pitágoras).
• Havia três gêneros de tetracordes: diatônico (mi,ré,dó,si); cromático (mi,dó#,dó,si); enarmônico (mi,dó,dób,si – quartos de tom ou próximos do quarto de tom).
• Dois tetracordes podiam combinar-se de duas formas diferentes para formarem heptacordes (sistema de sete notas) e sistemas de uma ou duas oitavas.
•Aristóteles já apontava diferenças fundamentais entre os modos musicais.
A música na antiga Roma
•Os domínios gregos tornam-se uma província romana em 146 a.C.
• Ritos religiosos, música militar, no teatro, diversões particulares,educação. Do indivíduo culto romano se esperava que soubesse música, como também falar e escrever em grego.
•Principal herança: melodia ligada às palavras, melodia improvisada, um sistema de formação de escalas com base nos tetracordes, uma terminologia musical.

Os primeiros séculos da igreja cristã
•Influência das sociedades mistas orientais-helenísticas do Mediterrâneo (rejeição de alguns aspectos: grandes espetáculos públicos, festivais, concursos, representações teatrais, música instrumental: ligação com o passado pagão).
•O canto dos hinos é a primeira atividade musical documentada da Igreja Cristã. (Mat., 26,30; Mar., 14,26;).
•Atribue-se ao Papa Gregório (590 – 604) e a seu sucessor, o Papa Vitaliano (657 – 672), a organização de um repertório de cantochão, que mais tarde será difundido por toda Europa por imposição de Carlos Magno (fundador do reino franco e coroado em 800 chefe do Sacro Império Romano).

Canto litúrgico e canto secular na Idade Média
•Cantochão (Canto Gregoriano): versão da Abadia de Solesmes (fim do Séc.XIX - Séc.XX).
•Concílio Vaticano II(1962-1965) – línguas vernáculas.
•Cantochão: instituição histórica, repertório de concerto, música cerimonial ainda em prática.

Liturgia Romana
•Ofícios ou Horas Canônicas (codificados na Regra de São Bento c.520).
-matinas (antes do nascer do Sol) (alguns dos mais antigos cantos da Igreja)
-laudas (ao alvorecer).
-prima (6h).
-terça (9h).
-sexta (12h).
-nonas (15h).
-vésperas (ao pôr do Sol) (desde cedo já admitia canto polifônico).
-completas (geralmente após as vésperas).
Missa
•Serviço mais importante (Ite, missa est)
•Elementos da missa foram entrando na liturgia em momentos e lugares diferentes.
•Liturgia da palavra e da eucaristia.
•Final do Séc.VI: cânone da missa definido.
•Missal de 1570 (Papa Pio V).
•Próprio e Ordinário.
•Arranjos polifônicos a partir do Séc. XV.
•REQUIEM AETERNAM DONA EIS, DOMINE. (Daí-lhes Senhor, o Eterno Repouso). Missa sem o Gloria e sem o Credo, com Dies Irae.

Estrutura da Missa

PRÓPRIO
1-Intróito 4-Graduale 5- Aleluia 7-Ofertório 10-Comunhão

ORDINÁRIO
2-Kyrie 3-Glória 5-Credo 8-Sanctus 9-Agnus Dei 11-Ite Missa Est

Formas de Cantochão
•Tons de Salmodia: duas frases equilibradas (como duas metades de um versículo de salmo) - antífona>salmo (primeira metade)>salmo (segunda metade)>antífona.
•Forma estrófica (hino).
•Forma livre.
Detalhes do Cantochão
•Pauta de 4 linhas (sendo uma designada primeiramente por clave de Dó ou Fá – altura relativa).
•Neumas: -todos com a mesma duração (o ponto duplica).Neumas ligados correspondentes a uma única sílaba são cantados ligados. Traço horizontal prolonga o neuma.

Método de Solesmes: notação usada atualmente baseada na notação do Séc. XIII

Cantochão
•Manuscritos conservados a partis do Séc. IX.
•Similaridade (fonte comum – S.Gregório – organização de livro).
•Lenda da cópia do corpus do cantochão (Pomba-S.Gregório-Escriba).
•Como o cantochão pôde ser fixado antes de existir a notação?
•Monarcas francos (unificação dos reinos poliglotas - Roma, o melhor caminho).
•Notação: Primeiro auxiliar a memória, para depois registrar os intervalos com precisão (após a existência de uma uniformidade da interpretação improvisada; foi tanto conseqüência desta uniformidade como um meio de a perpetuar).

Tipos de Cantochão
•Textos bíblicos ou não bíblicos.
•Bíblicos: Prosa (ofícios, epístola, evangelho); Poético (salmos, cânticos).
•Não bíblicos: Prosa (Te Deum, antífonas); Poético (hinos, sequências).
•Antifonal (coros alternados); Responsorial (solo alterna com coro); Direto (sem alternância).
•Silábico; Melismático; Neumático.
•Principal propósito: pôr o texto em evidência.

Momentos da Missa
•Antífona: cantada por um grupo de cantores, de modo são silábicas ou ligeiramente ornamentadas, movimento por graus conjuntos.
•Responsório: um versículo curto cantado pelo solista e repetido pelo coro antes de uma oração ou de uma breve passagem das escrituras.
•Tracto: cânticos longos e melismáticos.
•Gradual:melodias ornamentadas, um tipo de Responsório abreviado.
•Aleluia: consiste em um refrão sobre a palavra aleluia: foi um marco do desenvolvimento dos princípios puramente musicais, repetição de sessões diferentes, contraposição aos Graduais e aos Tractos (orientalismo-improviso-passado); Aleluias (ocidentalismo-ordenação-moderno).
•Ofertório: semelhante aos Graduais.
•Cantos do Ordinário: Gloria e Credo (mais silábicos); Kyrie, Sanctus e Agnus Dei (mais ornamentados).

Desenvolvimento do Cantochão
•Escolas do norte (mosteiro de S.Galo-Suíça, maior números de saltos, intervalo de terça, novas formas de canto).
•Tropo: uma parte acrescentada a um cântico da missa, geralmente em estilo neumático e com texto poético.
•Sequência: longos melismas de estrutura bem definida que vinham geralmente após os Aleluias.

Teoria e Prática Musical na idade Média
•Métodos da era carolíngea (Carlos Magno 800 d.C.) mais voltados para a prática (notação, leitura, classificação, interpretação do cantochão) ou ainda improvisar e compôr organum.
•Guido de Arezzo (Musica enchiriadis – anônimo do Séc. IX).
•Modos eclesiáticos (forma acabada no Séc.XI).
•Notas: final e tenor (Autêntico-desce até uma nota abaixo da final. Plagal- pode subir para além da oitava).
•Modos identificados por números e agrupados aos pares.
•Único acidente usado legitimamente no cantochão: Sib.
•Acidentes necessários para a transposição.

Modos Eclesiásticos

•Por quê não havia modos em Lá, Si e Dó na teoria medieval? ( Ré, Mi, Fá cantados com o Sib equivalem à Lá, Si e Dó.
•Lá e Dó (correspondentes ao m e M) só foram teoricamente reconhecidos em meados do Séc. XVI.
•Guido de Arezzo (leitura a primeira vista e memorização – Hino à S.João).
•Notação: aparecimento das linhas (alturas).
•As durações ainda não eram precisas.

Hino a São João
Ut queant laxis resonare fibris
Mira gestorum famuli tuorum,
Solve polluti labii reatum,
Sancte Johannes

Para que as maravilhas de teus atos possam
ressoar com largos cantos,
apaga os erros de lábios depravados,
ó São João.

2
Monodia Secular

Primeiras Formas Musicais
•Goliardos: clérigos ou estudantes antes das grandes universidades (Séc. XI e XII) – canções de caráter informal (vinho, mulheres e sátiras).
•Conductus: para “conduzir” o celebrante de um local para outro. Tem relação muito tênue com a liturgia e no fim do séc. XII o termo já se aplicava à canções não litúrgicas, geralmente de caráter sério, com texto de métrica regular sobre um tema sagrado ou não.
•Canções em vernáculo: chanson de geste (poemas épicos, narrativos, relatos de feitos heróicos, acompanhados por fórmulas melódicas simples – jongleurs et ménestrels).
•Feudalismo, recuperação econômica da Europa, menestréis (alvo de fascínio e repulsa) – canções de domínio popular.

Troubadours e Trouvères
•Troubadours (sul da França) e Trouvères (norte e centro da França). Podiam confiar suas composições aos menestréis.
•A arte de um modo geral florescendo nos círculos aristocráticos: amor (tema predominante dos troubadours), também temas religiosos, debates políticos e morais – organizados em cancioneiros.
•Subtipos de cantigas: Pastourelle (Adam de la Halle – 1284).
•Melodias geralmente silábicas, com figura melismática no fim do verso, repetição variada (estrofes), extensão limitada (sextas, raramente mais que oitava).
•Modos mais usados: I e VII (com seus plagais), mais acidentes de forma a se aproximar dos modos M e m.
•Estrutura formal definida na poesia.
•Minnesinger (Alemanha).
•Franceses e Alemães: cantigas de devoção reliogiosa inpiradas nas cruzadas.

Meistersinger
•Organização de músicos alemães (Séc. XIV, XV, XVI).
•Textos em vernáculo (também de caráter religioso ou não, com idioma melódica derivado tanto do cantochão como das canções populares).
•A partir do séc.XIII a arte dos trouvère, minnesinger e meistersinger passou a ser também objeto de uma burguesia em ascensão.

Cantigas de Santa Maria
•Cancioneiro organizado por Afonso, o Sábio (Espanha, c. 1280).
•Mais de 400 cantigas monofônicas semelhantes às canções dos troubadours.
•Relatam os milagres da Virgem Maria.

Música Instrumental e Instrumentos Medievais
•Música para dança (estampida): monofônica ou polifônica, com várias seções repetidas.
•Instrumentos: lira (herança romana), harpa (ilhas britânicas), vielle (cordas friccionadas – antecessora do violino), saltério, alaúde, flautas, charamelas, trombetas, gaita de foles, órgão portativo e positivo.


Os primórdios da polifonia e a música do Séc. XIII

Transformações
•Séc. XI (transformações importantes na Europa).
•1-A composição substitui a improvisação.
•2-Notação musical (composiçãoXexecução=intérprete).
•3-Princípios ordenados (tratados teóricos).
•4-Polifonia.

Organum PrimitivoSéc.XI
•A música polifônica já ocorria provavelmente na música não litúrgica.
•Primeira menção à polifonia (Musica Enchiriadis c.900).
•Organum paralelo: cantochão (vox principalis) acompanhada em quartas paralelas pela vox organalis.
•Consonâncias (uníssono, 4as, 5as, 8as) e dissonâncias (outras notas de passagem).
•Desenvolvimento de movimentos contrários, oblíquos e paralelos (fim do séc. XI).
•Começou em partes do Ordinário (Kyrie, Gloria, Benedicamus Domino) e do Próprio (Graduais, Aleluias, Tractos e Sequências).
•Polifonia alternada com monodia (solistasXcoro).

Organum MelismáticoSéc. XII
•Voz grave (tenor) que sustenta a melodia principal. A voz melismática (solo) com mais liberdade sobre o bordão. (Organum duplum).
•Regra geral:duas vozes com mesma letra (Tropo) ou voz grave (cantochão) contra outra linha (Tropo com outra letra).
•Novos sentidos para a palavra organum: a)Toda música polifônica com base no cantochão; b) Um tipo de composição (os organa de um compositor, como as sonatas de um compositor); c)Termo latino para os instrumentos musicais, mais particularmente ao órgão.

Organum de Notre Dame
•Desenvolvimento da música polifônica, sobretudo no norte da França: Paris, Beauvais, Sens.
•Léonin (c.1159-c.1201); Pérotin (c.1170-c.1236).
•Pérotin (organum com mais de 2 vozes – triplum, quadruplum).
•Polifonia estritamente eclesiástica.
•Consonâncias.

ConductusSéc. XIII
•Desenvolveu-se de fontes semi-litúrgicas (hinos, sequências), acolhe letras seculares.
•Consonâncias.
•Movimento rítmico mais uniforme entre as vozes (ao modo tripartido 6/8, 9/8), diferente da variedade rítmica do organum (estilo de conductus).
•Quase sempre silábico.
•O tenor era muitas vezes uma melodia nova, não proveniente de um cântico ou outra fonte fonte preexistente (novidade histórica: obra polifônica original).
•O organum e o conductus foram caindo em desuso a partir de c.1250.

Motete
•Difundiu-se a partir do Séc. XIII em Paris.
•Do francês “mot”: palavras acrescentadas ao duplum.
•É comum letras diferentes para cada voz.
•Maior parte composições anônimas.
•Combinação heterogênea de temáticas (canções de amor, música de dança, refrões populares, hinos sagrados), inda baseado no cantochão.
•Ampliação da polifonia para a música não sacra no final do séc. XIII.
•Hoquetos: geralmente aparecem em motetes e conductus no final do séc. XIII e início do séc. XIV (ochetus-soluço).

A notação
•Notação dos padrões rítmicos; (não era rígido; c.1250).
•Baseados nos pés métricos da poesia latina e francesa.
•Necessidade de notar o motete.
•Franco de Colônia (Ars Cantus Mensurabilis c.1250): notas de valor fixo (máxima, longa, breve e semibreve).

3
Música Francesa e Italiana no Séc. XIV


Panorama Geral
•Séc. XIII: estabilidade unidade (Roma e poder papal incontestável). Razão conciliada com a Revelação Divina.
•Séc. XIV: mudança e diversidade (contestação do poder e disputas - de 1304 a 1378 residência em Avignon). Razão Humana e Revelação Divina são domínios separados.
•Quebra do progresso econômico, peste negra, declínio do feudalismo, ascensão da burguesia, fragmentação da Europa (França absolutista e Itália dividida em pequenos estados).
•Importância dos interesses seculares: literatura em línguas vernáculas (Divina Comédia de Dante 1307).
•Primórdios do humanismo: ressurgimento dos estudos da literatura clássica grega e latina.
•Pintura: valorização dos fenômenos mutáveis do mundo (Giotto c.1266-1337).
.
Ars Nova na França
•Ars Nova (1323): tratado escrito por Philippe de Vitry (1291-1361).
•Discussão: a divisão dos grandes valores musicais em figuras menores.
•No Séc. XIV foi mais produzida música profana que sacra. Contínua tendência de secularização do motete.
•Motete: forma típica de composição das solenidades eclesiásticas e seculares.
•Documento musical francês mais antigo do Séc. XIV: Roman de Fauvel (poemas satíricos – um cavalo ou burro alegórico que encarna os pecados representados pelas letras do seu nome: flatterie-adulação;avarice-avareza;vilaine-vileza;variété-leviandade;lâcheté-covardia), com interpolações musicais de Vitry.

Guillaume de Machaut c.1300-1377
•Compositor mais importante da Ars Nova francesa.
•A maioria dos seus 23 motetes baseiam-se no modelo tradicional:um tenor litúrgico instrumental e textos diferentes para as duas vozes mais agudas.
•Canções profanas ao modo dos trouvères.
•Ainda percebe-se as quintas paralelas e muitas dissonâncias, porém uma outra ordem harmônica distingue a Ars Nova de Machaut com as terças e as sextas.

Messe de Notre Dame
•Composição mais famosa do Séc. XIV.
•Uma obra a 4 vozes sobre o Ordinário da missa.
•Diferente dos compositores anteriores como Léonin e Pérotin (despreocupados com a unidade pelos modos e temática entre as divisões da missa, e ainda eram mais usadas as divisões do Próprio): em Machaut - coerência e unidade musical entre as divisões do Ordinário (Kyrie-Gloria-Credo-Sanctus-Agnus Dei), a missa concebida como obra única.
•Alguns teóricos falam de um motivo recorrente ao longo da missa.
•Incertezas quanto à interpretação da missa: instrumentação.

Música no Trecento Italiano
•Atmosfera social e política: França (estabilidade e poder crescente da monarquia) – Itália (disputas de poder entre várias cidades-estados).
•Fonte mais importante: Códice Squarcialupi: provavelmente copiado em Florença por volta de 1420 (proprietário Antonio Squarcialupi 1416-1480) – 352 peças de caráter secular (madrigal, caccia, ballata) para 2 e 3 vozes, de 12 compositores do Séc. XIV (Biblioteca dos Médicis - Florença).
•Madrigal: geralmente a 2 vozes com textos idílicos, bucólicos, amorosos ou satíricos), estrofes com mesma música e figuras melismáticas no fim dos versos.
•Caccia: música mais movimentada em forma de cânone (fuga-caçada). Por vezes uso dos hoquetos e dos ecos para sublinhar o humor e cenas de grande animação (mesma figura comum aos compositores posteriores como Vivaldi e Haydn).
•Ballata: para 2 ou 3 vozes, de caráter lírico para ser dançado.

Francesco Landinic.1325-1397
•Maior compositor de ballata e mais destacado músico italiano do Séc. XIV.
•Grande virtuose cego do organetto.
•Não escreveu música para textos sagrados: 90 ballate a 2 vozes e 42 a 3 vozes, 1 caccia e 10 madrigais.

Especificidades da Prática MusicalSéc. XIV
•Formes Fixes: peças musicais estruturadas (como a ballata italiana ou o viralai e rondel francês).
•Isorritmo: padrões rítmicos similares e em blocos maiores (não somente pequenas células); em todas as vozes do moteto.
•Música Ficta: notas enfatizando os pontos cadenciais dando mais flexibilidade à linha melódica, não notadas na partitura, porém de conhecimento comum dos músicos.
•Desenvolvimento da notação do sistema francês: divisão binária (imperfeito) ou ternária (perfeito) das notas mais longas (longa-breve-semibreve): divisão da semibreve – mínima e semínima escritas pintadas de preto.
•Início do Séc. XV passaram a ser desenhadas como notas “brancas”.

Instrumentos Musicais
•Divisão pela intensidade.
•Altos (haut): charamelas, cornetas, sacabuxas.
•Baixos (bas): harpas, alaúdes, flautas.
•Instrumentos bem presentes na música polifônica, como acompanhantes ou exclusivamente.

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Da Idade Média ao Renascimento: música da Inglaterra e do ducado da Borgonha no século XV


Música Inglesa
•Música na Inglaterra e norte da Europa maior ligação com o estilo popular.
•Tendência à tonalidade maior (diferente das características do motete francês (linhas independentes, letras divergentes e dissonâncias).
•Uso mais livre de sextas e terças.
•A escola de Notre Dame era conhecida nas Ilhas Britânicas.

Fauxbourdon
•Início do Séc. XV influenciou os compositores continentais; entre c.1420-1450 atingiu todos os tipos de composição.
•Em sentido estrito o termo significa: composição a 2 vozes em sextas paralelas e oitavas intercaladas; uma terceira voz podia ser acrescentada uma quarta abaixo do soprano (melodia principal com o soprano).
•Resultado: três vozes mais equilibradas em importância, reconhecimento da sonoridades das sextas e terças como um elemento fundamental do vocabulário harmônico.

John Dunstablec.1385-1453
•Difusão da música inglesa no continente: vastas possessões e ambições inglesas na França – prováveis serviços de Dunstable ao duque de Bedford (1422-1435) comandante dos exércitos ingleses contra Joana d’Arc.
•Cerca de 70 composições conhecidas hoje: todas as formas de polifonia da época (motetes, Ordinário da missa, cantigas profanas, obras a 3 vozes sobre os mais diversos textos litúrgicos).
•Peças sacras a 3 vozes (mais numerosas e historicamente mais importantes obras; as vozes podem aparecer de diversas maneiras na textura polifônica: algumas com o cantus firmus na voz do tenor, outras com uma linha ornamentada no soprano e uma melodia extraída de outra peça na voz do meio, outras compostas livremente, sem material temático extraído de outro repertório).

Formas de composição inglesas
•Antífonas votivas: (final do Séc. XV – Eton College) - composição sacra em louvor de santos ou da Virgem, polifonia de 5 a 9 vozes, alternância entre grupos maiores e menores, música de cerimônias inglesas até meados do Séc. XVI.
•Carol: (Séc. XV) origem nas cantigas de dança como o rondeau e a ballata, com alternância de coro e solista, de 2 a 4 vozes sobre um poema religioso de estilo popular (Ex: encarnação), mistura de rimas inglesas e latinas, melodias alegres, em ritmos ternários e, apesar de não serem canções populares, tinha esse aspecto.

A música no ducado de Borgonha
•Reino soberano em uma grande região do norte da Europa: Bélgica, Holanda, nordeste da França, Luxemburgo.
•Como em outros centros europeus, a corte de Borgonha contaram com excelentes recursos musicais, disputando os serviços de cantores e compositores eminentes.
•Esta corte tinha um ambiente cosmopolita, visitada por músicos estrangeiros ganhou, de certa forma, status de estilo internacional e influenciou outras cortes importantes.

Guillaume Dufayc.1400-1474
•Músico atuante em diversos ambientes, da Borgonha até Roma, Florença, Bolonha.
•Fontes em manuscritos de origem italiana.
•Principais tipos de composição do período borgonhês: missas, motetes, chansons profanas em francês.
•Tendência como do Séc. XIV:diferença tímbrica entre as vozes visando a transparência na textura no conjunto da peça, linha melódica do discantus evolui em frases líricas até figuras melismáticas antes das cadências importantes, influência inglesas como o fauxbourdon.

Motetes borgonheses
•Habitual 3 vozes ao estilo de chanson: soprano solo melodicamente livre associado a um tenor e apoiado por um contratenor.
•Principal diferença em relação aos anteriores: a melodia do cantochão utilizada não tinha mais apenas a função de um resíduo simbólico da tradição, era também uma parte concreta e expressiva da composição.
•Motetes para cerimônias solenes: Nuper rosarum flores de Dufay para a consagração do duomo Santa Maria del Fiore (Florença, 1436).

MissasSéc.XV
•Composição polifônica do Ordinário musicalmente unificada (desejo de uma forma musical ampla e complexa).
•Primeiramente as cinco partes podiam ser compostas no mesmo estilo geral, como ballade ou chanson (no continente).
•Outra opção para a unidade das partes do Ordinário: Missa de cantus firmus ou Missa de tenor (o uso do mesmo cantus firmus em todas as partes) – prática que começou na Inglaterra, mas que logo foi assimilada na Europa continental.
•Acréscimo de uma quarta voz no baixo (bassus), assim a voz do tenor, originalmente o cantus firmus, torna-se uma voz no interior da textura, ganha mais liberdade e é usada para unificar a missa.
•Vozes: 1- cantus (ou discantus ou superius);
2- contratenor altus; 3- tenor; 4- contratenor bassus.

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A era renascentista e novas correntes do Século XVI


Renascimento
•Volta aos gregos e latinos (clássicos traduzidos a partir de manuscritos).
•Valores humanos em oposição aos valores espirituais: realização pessoal em vida (expressão das emoções humanas).
•Valorização da educação clássica em oposição à educação religiosa: realização pessoal através dos estudos, aquisição e embelezamento de propriedades e mecenato.
•Novas idéias em outras áreas: racionalismo e humanismo (Michelangelo, Lutero, Copérnico, Shakespeare).

Música do Renascimento
•Terças e Sextas admitidas também na teoria musical.
•Mudança na afinação para amenizar as consonâncias imperfeitas e chegar até as notas da escala cromática.
•Associação estreita com do músico com a literatura: músico e poeta (ritmo da fala e prosódia).
•Impressão de partituras: Gutenberg (1450) (livros litúrgicos com notação de cantochão c.1473 e música polifônica impressa em Veneza por Otaviano Petrucci 1501).
•Segunda metade do Séc. XV: a missa era a principal forma de composição (época de grande prestígio da música sacra polifônica, porém com a prática das formas profanas, como as chansons).
•Compositores como Ockeghem aproveitavam os temas de suas chansons para constituírem os cantus firmi de missas.

Johannes Ockeghem c.1420-1497
•Sonoridade semelhante à de Dufay.
•Textura contrapontística a 4 vozes (aspecto mais denso, homogêneo, grandes frases, fluxo parecido com o cantochão melismático).
•Tessitura habitual das vozes no final do Séc. XV:
•Contraste criado com a omissão de vozes por trechos inteiros ou ritmos idênticos em todas as vozes.
•A utilização em escrita canônica (cânone=regra,lei), muitas vezes dissimulada entre o discurso das 4 vozes.

Josquin des Prez c.1450-1521
•Compositor muito aclamado em sua época.
•Fronteira entre o mundo medieval e moderno.
•Missas de Imitação: apresentações fugadas ou em respostas, motivos característicos retirados de uma chanson, missa ou motete preexistente.
•Preocupação de associar música ao texto. (Ex:Chanson Mille regretz – regretz, paine doulourouse / arrependimento, aflição dolorosa: a música acompanha a letra em forma de linhas descendentes e Motete Absolon fili mi – sed descendam in infernum plorans/mas desça ao inferno chorando: a música acompanha a letra, descendo melodicamente e harmonicamente).
•Chanson Mille regretz – igualdade entre as vozes está clara nas figuras de imitação.
•A música do Séc. XV geralmente terminava em consonâncias perfeitas, em oitavas, ou quintas e oitavas.

Novas correntes do Século XVI
•Geração Franco-Flamenga (1520-1550): geração de compositores do norte seguinte a Josquin des Prez (Gombert,Clemens, Senfl, Willaert).
•A influência cosmopolita dos compositores do norte perde força e criam-se novos estilos em cada país (os estilos locais seriam mais conhecidos e assim, mais apreciados pela maioria das pessoas do que a arte erudita dos compositores do norte; ampliação da diversidade da expressão musical).
•Características Gerais: maior número e importância de composições instrumentais, missa de imitação (imitação de modelos polifônicos substituindo o cantus firmus), melodias do cantochão usadas de maneira ainda mais livres como temas nas missas e motetes, escrita para 5 ou 6 vozes (complexidade contrapontística).

Adrian Willaert c.1490-1562
•Relação ainda mais estreita com o texto, um dos primeiros compositores a exigir a impressão de sílabas abaixo das notas correspondentes, técnica composicional de evitar as cadências (prolonga o discurso musical, delimita melhor as idéias e finalizações, favorece a escrita contrapontística), trabalhou na igreja de S.Marco (Veneza 1527-1562: Zarlino, de Rore, A.Gabrieli).

A afirmação dos estilos nacionais
•ITÁLIA: transição no Séc. XVI para se tornar um grande centro musical.
–Frottola: canção estrófica italiana de estrutura rítmica bem marcada, harmonia diatônica simples, estilo silábico, a 4 vozes, estilo homofônico, melodia na voz aguda.
–Lauda: canção de devoção religiosa, não litúrgica e de caráter popular, textos em latim ou italiano, a 4 vozes, com os aspectos musicais semelhantes à frottola, sem revelar grande influência do estilo musical sacro franco-flamengo.

•FRANÇA: desenvolvimento da chanson em estilo mais marcadamente nacional, editor Pierre Attaignant (publicou em Paris entre 1528-1552: 1500 peças em estilo chanson) – principais compositores de chansons das primeiras coletâneas de Attaignant: Sermisy (c.1490-1562)(Tant que vivray) e Clément Janequin (c.1485-c.1560) (música descritiva – Le roussignol).
–Chanson: semelhante à frottola italiana, canções rápidas, geralmente binárias com passagens em ternário, melodia na voz aguda, possibilidade de figuras imitativas, estruturas curtas e bem definidas.

•ALEMANHA: a polifonia desenvolveu-se mais tarde na Alemanha do que nos demais países europeus. A arte monofônica dos Minnesinger (Séc. XIV) e Meistersinger (Séc.XV-XVI) só gradualmente, a partir de c.1500, foi sendo influenciada pela polifonia franco-flamenga. Os primeiros mestres do lied polifônico foram Isaac (c.1450-1517), Finck (1445-1527), Hofhaimer (1459-1537).
–Lied: com o desenvolvimento da sociedade urbana e mercantil nasceu uma forma tipicamente alemã de Lied polifônico. Os Lieder eram usados na corte ou nos círculos da elite, geralmente a 4 vozes, estruturados no antigo estilo do cantus firmus, em imitação ou estilo homofônico, com a voz principal no cantus ou no tenor.

•ESPANHA: no final do Séc. XV as obras dos compositores borgonheses e franco-flamengos eram conhecidas e cantadas na Espanha, ao mesmo tempo de se desenvolveu um estilo de música polifônica nacional com elementos de origem popular (villancico – Juan del Encina 1469-1529). A polifonia sacra espanhola na obra de Morales (c.1500-1553) e, posteriormente, de Victoria (1548-1611) caracteriza-se pela sobriedade melódica e moderação nos artifícios contrapontísticos.
–Villancico: breve canção estrófica com refrão, melodia principal na voz superior, provavelmente um solista acompanhado dois ou três instrumentos.

•INGLATERRA: o estilo de composição imitativa dos franco-flamengos passou a influenciar a música inglesa a partir de c.1510, apropriando estes elementos à música popular (Ballet – Thomas Morley c.1557-1610). Porém, a música polifônica inglesa do final do Séc. XV e Séc.XVI que chegou até nós é sobretudo de caráter sacro, e mostram uma predileção pela sonoridade plena, a 5 ou 6 vozes, com a utilização de grupos contrastantes. Principais compositores: Taverner (c.1490-1545) Tye (c.1505-1572), Tallis (c.1505-1585).
–Ballet: canto estrófico leve, homofônico, para 3 ou mais cantores, caracterizados por ritmos dançantes e “fa-la-la”.

Madrigal
•Foi o gênero mais importante da música profana italiana no Séc. XVI. Tornou-se uma forma genérica internacional.
•Inicialmente com 4 vozes, depois com 5 ou mais vozes.
•A maioria dos compositores se baseava na obra do poeta Petrarca (1304-1374) (Pietro Bembo 1470-1547), que usou a sonoridade das palavras como guia nos seus poemas: (o ritmo, a estrutura da rima, o número de sílabas por verso, a acentuação, a duração das sílabas, as propriedades sonoras de determinadas vogais ou consoantes eram determinantes na elaboração de um sentimento aprazível (piacevolezza) ou grave (gravità) nos seus versos).
•Música: caráter-sentimento do texto associado estreitamente com o discurso musical – cromatismo, cadências e frases musicais sincronizadas com o texto como recurso expressivo.
•Alguns compositores madrigalistas: Orlando di Lasso (1532-1594), Jacques Arcadelt (c.1507-1568), Cipriano de Rore (1516-1565), Adrian Willaert (c.1490-1562), Luca Marenzio (1553-1599), Carlo Gesualdo (c.1561-1613), Thomas Morley (1557-1602), Claudio Monteverdi (1567-1643).

Música Instrumental no Século XVI
•Mais notação da música instrumental (aumento do interesse teórico, publicação de livros que descrevem os instrumentos ou dão instruções sobre a forma de tocar): Musica getutscht und ausgezogen (Resumo da ciência e da música) de Sebastian Virdung 1511 e Syntagma musicum (Tratado de música) de Michael Praetorius 1618.
•Tradição da música instrumental improvisada (contrapunto alla mente).
•Composições para música instrumental derivada da música vocal, como os madrigais, chansons e motetes (ornamentação melódica – primeiramente improvisada e depois passou a ser notada: origens da escrita instrumental do início da era barroca).
•Busca pelo contraste e repetição no discurso musical com base exclusivamente na música, não mais ligadas à liturgia ou aspectos do texto.

Música de dança
•Composições notadas para alaúde, instrumentos de teclado (clavicórdio ou cravo) ou outras formações. Geralmente as danças eram agrupadas em pares contrastantes, com a primeira binária lenta e a segunda ternária rápida variando o tema da primeira: pavana & galharda; passamezzo & saltarello.
•Outras danças foram se estilizando no Séc. XVI e constiuíram as suites dos períodos seguintes: allemande e a courante.
•A música de dança no Séc. XVI se afasta da finalidade original e passa a constituir um vasto repertório de música instrumental estilizada (como as valsas de Chopin no Séc. XIX, por exemplo).
•Basse danse: uma das danças de corte preferidas do início do Séc. XVI, onde os instrumentistas improvisavam com base em um tenor tomado de empréstimo (branle: um dos passos básico da basse danse).

Música Instrumental no Século XVI
•Canzona: forma instrumental independente - canzona de sonar (chanson para ser tocada).
•Toccata: forma de música improvisada no teclado na segunda metade do Séc. XVI. Esta forma podia ganhar outros nomes como: Fantasia, Prelúdio, Intonazione.
•Ricercar: expressão usada primeiramente pelos alaudistas e consiste em uma forma instrumental que segue o protótipo da música vocal, como o motete (procurar, buscar, tentar, experimentar).
•Sonata: o termo começou a ser usado ainda no Séc. XV para uma variedade de peças para instrumentos solistas ou em conjunto. No Séc.XVI, a sonata veneziana é o equivalente sacro da canzona e consiste numa peça em várias seções, cada uma com temas diferentes ou variações do mesmo tema, antecessora da sonata da chiesa e da posterior sonata barroca.
•Giovanni Gabrieli (c.1557-1612): música policoral com instrumentos em Veneza (S.Marcos). Partes específicas para conjuntos instrumentais e indicação de dinâmica na partitura (Sacrae Symphoniae 1597).
•Variações: as melodias utilizadas como base para as variações eram, em geral, breves e do tipo canção, fraseado regular, estrutura clara, binária ou ternária (este é o princípio das formas posteriores como chaconne e passacaglia). Compositores ingleses foram expoentes da variação em composições para virginal (instrumento de tecla da família do cravo): William Byrd, John Bull, Orlando Gibbons, Thomas Tomkins.

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Música sacra no Renascimento tardio

A música da Reforma na Alemanha
•Martinho Lutero: 95 teses em Wittenburg (1517): manutenção da música católica (cantochão e polifônica), com texto original latino, ou texto original traduzido para o alemão, ou novos textos em alemão adaptados às antigas melodias; as melodias não eram alteradas com alteração pessoal (como os compositores de organa sobre as melodias do cantochão).
•Lutero desejava a participação da congregação na música dos serviços religiosos.
•O Coral luterano: Choral ou Kirchenlied, hino estrófico cantado pela congregação; como o cantochão ou a canção popular, o coral se compõe essencialmente de dois elementos (um texto e uma melodia); as primeiras coletâneas de coral destinavam-se a ser cantadas pela congregação em uníssono, sem harmonização e sem acompanhamento; Ein feste Burg.

A música da Reforma na Alemanha
•Contrafacta: tipo de coral onde a melodia se conserva, mas o texto é substituído por uma letra nova. Ex: O Welt, ich muss dich lassen adaptação do Lied de Henricus Isaac, Innsbruck, ich muss dich lassen.
•Corais polifônicos: segunda metade do Séc. XVI houve uma tendência de composições a 4 vozes em progressão por acordes (diferente do contraponto livre ou imitação), com a voz a principal no soprano, simplicidade rítmica, semelante aos hinos. Os arranjos polifônicos não destinavam-se à congregação, mas sim ao coro. A partir de 1600 o uso gradual do órgão tocando as 4 vozes enquanto a congregação canta a melodia.
•O motete coral: melodias tradicionais como material de base para a livre criação artística, com interpretação individual e com a possibilidade de figuras descritivas (típico das regiões de predomínio luterano).
•O motete coral confirmou a divisão que sempre existira na música luterana, entre os simples hinos congregacionais e a música mais elaborada para um coro com formação musical.
•Principais compositores do Séc. XVI- XVII: Hans Leo Hassler, Michael Praetorius, Johann Hermann Schein, Johannes Eccard, Leonhard Lechner.
•A música destes compositores definiu o estilo de música sacra luterana, o que viria 100 anos depois culminar com J.S.Bach.

Música sacra da Reforma fora da Alemanha
•Oposição mais enérgica que Lutero na manutenção dos elementos do cerimonial católico.
•Maior desconfiança com os atrativos da arte: proibição de textos não bíblicos.
•Coleções de Salmos: traduções métricas rimadas do Livro dos Salmos, com melodia novas (muitas vezes de origem popular), ou adaptadas do cantochão.
•Coleção de Salmos de 1562: salmos traduzidos por Clément Marot e Théodore Bèze com melodias de Loys Bourgeois (c.1510-c.1561).
•Compositores importantes: Claude Le Jeune, Claude Goudimel, J.P. Sweelinck.
A Contra-Reforma
•Concílio de Trento (1545-1563): crítica vaga ao cantus firmus e à chanson imitativa, como a dificuldade em entender o texto litúrgico, ao uso exacerbado de instrumentos musicais.
•Apesar das críticas, sabe-se que o Concílio não proibiu especificamente a música polifônica ou a imitação de modelos profanos.

Giovanni da Palestrina1525-1594
•Maioria de composições sacras: 104 missas, c. de 250 motetes e c. de 50 madrigais de caráter e mais de 100 de caráter profano.
•Compositor anterior a J.S.Bach mais estudado.
•Influência dos compositores franco-flamengos (denotando o seu conservadorismo, de caráter clássico, com o emprego de cânones e textura a 4 vozes).
•Emprego preferencial dos graus conjuntos, com raros saltos, clareza na harmonia com pouco uso de cromatismo, melodia com longas linhas diatônicas, ritmo regular de aspecto binário ou quaternário.
•Stile Antico (Estilo Antigo): o estilo de Palestrina foi o primeiro na história da música ocidental a ser conscientemente preservado.
•Tomás Luis de Victoria (1548-1611): música parecida com a de Palestrina (ligação com Roma), porém de maior caráter pessoal (influência espanhola), mais ênfase na expressão do texto, com suspensões dissonantes.
•Palestrina = Rafael e Victoria = El Greco.
•Orlando Di Lasso (Itália) e William Byrd (1543-1623 Inglaterra).

A escola veneziana
•Veneza era no Séc. XVI a segunda cidade mais importante da península itálica (ligação com o oriente, isolamento dos vizinhos, tradição da Abadia de S. Marcos).
•Giovanni Gabrieli (c.1553-1612): motetes policorais venezianos (contraste e oposição de sonoridades): este contraste tornou-se um fator fundamental do estilo concertato do período barroco.

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Música do primeiro período barroco

Transformações na músicaRenascimento - Barroco
•Formas instrumentais puras (ricercare, canzona e toccata).
•Principal característica das canções solo renascentistas era o lirismo ao estilo dos madrigais. Uma das inovações no início do Séc. XVII foi o uso da canção solo como veículo de expressão dramática.
•Distinção entre a Prima Prattica (entendia-se pela polifonia vocal representada pela obra de Willaert e nos escritos teóricos de Zarlino) e a Seconda Prattica (pelos estilo dos modernos italianos como Marenzio, Rore e Monteverdi).
•Prima e Seconda Prattica também eram chamadas de Stile antico ou Stile moderno ou Stylus gravis (severo) ou Stylus luxurians (ornamentado).
•Predomínio do estilo italiano, com importantes centros artísticos: Veneza, Florença, Roma e Nápoles.

Barroco
•Continuidade das práticas do Renascimento.
•Palavra primeiramente usada com sentido pejorativo: pérola de formato irregular em português antigo. Por muito tempo a palavra é usada para designar algo de “mau gosto,” “exagerado”, “grotesco”.
•Barroco é um nome genérico e conceitual e não encerra as características musicais. Como os outros conceitos históricos (como gótico, renascentista, romântico) encerra várias atividades criadoras dos homens.
•Pensou-se em nomes para este período da música como: período do baixo-contínuo ou período do estilo concerto.
•O período é difícil de delimitar, porém geralmente é explicado entre os anos de c.1600 – c. 1750.
Aspectos musicais
•Escrita idiomática: Ex: música escrita especificamente para violino ou para voz solista, diferente da música anterior que poderia ser cantada ou tocada por quase qualquer combinação.
•Aperfeiçoamento da família dos violinos (Itália) e apreciação das violas (França). Aperfeiçoamento dos instrumentos de sopro, que passaram a ser usados de acordo com suas características tímbricas e recursos particulares. Desenvolvimento para música para instrumentos de teclado e do virtuosismo vocal.
•Indicação de dinâmica.
•Distinção entre os estilos vocal e instrumental, tanto que os compositores podiam utilizar conscientemente recursos vocais na escrita instrumental, e vice-versa.
•Baixo contínuo: textura típica com um baixo firme e uma voz aguda ornamentada. O compositor escrevia a melodia e o baixo, enquanto o instrumentista de teclado ou alaudista preenchia as vozes intermediárias com notas baseadas nos acordes convenientes.
•Dissonância e cromatismo: estrutura musical ordenada pelo sistema tonal (modos maior e menor) (Tônica - afastamento e tensão na Dominante -Tônica).

A Teoria dos Afetos
•Extensão da musica reservata do início do Séc. XVI (música associada ao texto).
•Desejo dos compositores de exprimirem afetos ou estados de espírito como ira, agitação, majestade, heroísmo, elevação contemplativa, assombro ou a contemplação mística, etc. Estes efeitos musicais eram intensificados por meio de contrastes violentos.
•Estes afetos são sentimentos num sentido genérico e não a expressão dos sentimentos individuais de um artista.
•A partir de 1600 alguns teóricos já passaram a classificar e sistematizar esta tarefa, porém esta tarefa foi realizada principalmente a posteriori.
•Associação com as figuras de retórica. Ex: Processo de Composição: invento (descoberta) – dispositio (planificação) – elaboratio (elaboração do material).

Ritmo
•Também usado como forma de contraste; (1) por um lado o ritmo de métrica regular, com barra de compasso e por outro (2) o ritmo livre, sem métrica, como nas peças instrumentais solistas, recitativos ou improvisos. Ex: um exemplo mais tardio é a toccata & fuga, recitativo & aria.
•Ritmos de danças (já conhecidos nos séculos anteriores), porém agora organizados metricamente, em compassos, em estruturas definidas de tempos fortes e fracos.

Música Instrumental
•1: Tipo fugado:peças em contraponto imitativo contínuo (não dividido em seções). Chamavam-se ricercare, fantasia, fancy, capriccio, fuga, verset, etc.
•2:Tipo canzona:peças em contraponto imitativo descontínuo (ou seja, dividido em seções).
•3:Variação: peças que efetuam variações sobre um tema: partita, passacaglia, chaconne, partita coral, prelúdio coral.
•4: Danças: ritmos de dança estilizados agrupados entre si. Os agrupamentos mais estreitos denominam as suites.
•5: Improviso: geralmente para instrumentos de teclado ou alaúde: toccata, fantasia, prelúdio.

8
O princípio da ópera


Precursores da ópera
•Música vocal renascentista: madrigal (lirismo).
•Final do Séc. XVI a dramaticidade invade a música vocal. Estava próximo da idéia de ópera os madrigais em que o compositor tomava como texto uma cena dramática de um poema. Ex: Gerusalemme liberata de Tasso e Il pastor fido de Guarini.
•Intermedi ou Intermezzi.
•Inspiração nos clássicos gregos.
•Pastorela.

Camerata Florentina
•Girolamo Mei – erudito florentino editor de várias tragédias gregas e entre 1562-1573 pesquisou, no original grego, quase todas as obras sobre música da antiguidade (De modis musicis antiquorum).
•Giovanni Bardi (mecenas que promovia encontros informais no seu palácio em Florença) e Vicenzo Galilei: os encontros também contavam com a presença do compositor Giulio Caccini (1551-1618).
•Mei chegara à conclusão de que os gregos conseguiam obter efeitos singulares com a música porque esta consistia numa única melodia, cantada solo com acompanhamento ou cantada por um coro.
•Galilei (1581): Dialogo della musica antica e della moderna – com base na obra de Mei, Galilei ataca a teoria e prática contraponto vocal, como o que era corrente no madrigal italiano. Defendia que uma única linha melódica, com alturas e ritmos apropriados poderia exprimir um verso.

As primeiras óperas
•O estilo Recitativo.
•Jacopo Peri (1561-1633): Euridice (1600).
•Claudio Monteverdi (1567-1643): Orfeo (1607).
•Ópera Veneziana: 1- ênfase no canto solístico; 2- distinção entre recitativo e ária; 3- introdução de esquemas próprios para as árias; 4- maior autonomia da música em relação à poesia.
•Pier Francesco Cavalli (1602-1676); Antonio Cesti (1623-1669)
•O formato de ópera desenvolvido pelos compositores venezianos até meados do Séc. XVII torna-se o modelo para os dois séculos seguintes.

9
Principais formas musicais do Século XVII e início do Século XVIII


Oratório
•Surgiu quase na mesma época da ópera.
•O nome origina-se do Oratório de São Felipe de Néri (Roma).
•Primeiramente semelhanças com a ópera, com recitativos, árias, coros, cenários e fantasias, porém baseados em temas sacros (histórias geralmente tiradas da Bíblia).
•Com o tempo as representações foram caindo em desuso e o oratório passou a ser executado como uma apresentação musical, em igrejas e salas de concerto.
•Paixão, Corais, Cantata.

Suíte
•Herança renascentista de ligar uma dança na outra, geralmente danças contrastantes.
•Com os compositores barrocos a suíte se estabeleceu enquanto forma composicional, para instrumentos solo ou grupo de câmara.
•O esquema mais comum acabou abrangendo uma série de 4 danças de diferentes países: allemande, courante, sarabanda e giga.
•Outras danças: bourrée, minueto, gavota, passe-pied (prelúdio).
•Todas danças da suíte na mesma tonalidade, geralmente na forma AB, porém pode ser em forma rondó.

Sonata
•Sonare: peça para ser tocada.
•Trio-Sonata: Ex: dois violinos (flauta, oboé), cello e cravo.
•Sonata da camera e Sonata da chiesa: geralmente quatro movimentos contrastantes (lento-rápido-lento-rápido).
•Desenvolveu-se principalmente como uma forma solista e para duo.

Concerto
•Italiano = consonância; Latim = disputa.
•Música policoral de Giovanni Gabrieli.
•Concerto Grosso: ripieno X concertino.
•Concerto Solo: solista X orquestra.
•Estrutura mais usual: Tutti 1-Solo1-Tutti 2- Solo 2 etc...

Ópera
•Recitativo e Ária.
•Abertura italiana: rápido-lento-rápido – base da sinfonia clássica. (Alessandro Scarlatti).
•Ária da capo: ABA – o D.C. como repetição variada.
•Abertura francesa: lento, majestoso, incisivo com figuras pontuadas. (Jean-Baptiste Lully e Jean-Philippe Rameau).

Compositores representativos da música ocidental do Século XVII e primeira metade do Século XVIII.
•Compositores:
•1- Jean-Philippe Rameau (1683-1764).
•2- Antonio Vivaldi (1678-1741).
•3- George Frideric Haendel (1685-1759).
•4- Johann Sebastian Bach (1685-1750).

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Primeira metade do Século XVIII e origens do estilo clássico


Música instrumental
•Origens de alguns tipos genéricos de composição (Séc. XVII):
–O tipo fugado: peças em contraponto imitativo contínuo (não dividida em seções). Chamavam-se ricercare, fantasia, fancy, capriccio, fuga, verset e outros nomes.
–O tipo de canzona: peças em contraponto imitativo descontínuo (dividido em seções), por vezes com elementos de outros estilos. Estas peças dão lugar, em meados do século XVII, à sonata da chiesa.
–Peças que efetuam variações sobre uma dada melodia ou baixo: partita, passacaglia, chaconne, partita coral e prelúdio coral.
–Danças e outras peças em ritmo de dança mais ou menos estilizados, quer frouxamente agrupadas entre si, quer integradas de forma mais estreita em uma suite.
–Peças de estilo improvisatório para um instrumento de tecla ou alaúde, solistas: podiam chamar-se toccata, fantasia e prelúdio.

Principais formas da música barroca
•Ópera.
•Concerto.
•Sonata.
•Trio-Sonata.
•Suite.
•Oratório.
•Tocata.
•Fuga.
•Tema e Variações.

Temperamento igual
•Em 1567 o alaudista Giacomo Gorzanis compilara um ciclo de 24 pares passamezzo-saltarello , um para cada uma das tonalidades maiores e menores e Vincenzo Galilei deixou um manuscrito (1584), também para alaúde, de 12 conjuntos de passamezzo antico-romanesca-saltarello (tonalidades menores) passamezzo moderno-romanesca-saltarello (tonalidades maiores).
•Alaúde: trastes espaçados de tal forma que a oitava se dividia em doze semitons iguais.
•Quintas e quartas puras da afinação pitagórica, com terças maiores muito grandes e terças menores muito curtas.
•Quando a simultaneidade tornou-se corrente no final do Século XV, combinando terças e quintas ou terças e sextas, os instrumentistas de tecla começaram a ajustar a afinação das quintas e quartas por forma a obterem melhores terças e sextas. Temperamento mesotônico: terças maiores ligeiramente maiores que as puras e as quintas ligeiramente menores.
•Temperamento igual: todos o semitons são iguais e todos os intervalos são diferentes dos puros, mas ainda aceitáveis. Ex: O Cravo Bem Temperado (J.S.Bach - 1722).

FUGA
•Forma independente no final do Século XVII.
•Vozes independentes que enunciam um tema em entradas sucessivas (exposição).
•Regra geral: o tema é exposto na tônica e resposta na dominante; as outras vozes alternam depois tema e resposta.
•As exposições integrais ou parciais dos temas são separadas por breves episódios (passagens em que não se ouve o tema em nenhuma voz e que podem servir para modulações).
•Regresso à tonalidade: stretto e aumentação.

11
Segunda metade do Século XVIII
Haydn e Mozart


Joseph Haydn (1732-1809)
•Trabalho na corte Esterházy cerca de trinta anos (um dos últimos músicos eminentes com este tipo de trabalho).
•Eszterháza: isolamento, criatividade, experimentação e produção contínua.
•Viagens a Londres (1791-1792; 1794-1795) – Doutorado em Oxford (1791).
•1790 – Residência em Viena.

A obra de Haydn
•Impossível precisar a produção de Haydn (alvo de falsificações devido à fama); oficialmente 108 sinfonias e 68 quartetos.
•Sinfonia clássica dividida em quatro andamentos: allegro – andante moderato – minueto e trio – allegro. (instrumentos de sopro cada vez mais independentes da seção das cordas: algo negligenciado muito pelas orquestras modernas).
•Forma Sonata.
•Sturm und Drang (oposto ao estilo galante).
• Quartetos (2 violinos, viola e cello): independência e igualdade de importância entre as vozes.

Wolfgang Amadeus Mozart(1756-1791)
•Gênio precoce (filho de Leopold Mozart - Salzburg); formação sistemática desde os primeiros anos de vida.
•Mais de 600 composições catalogadas em 1862 por L. von Kochel.(KV – Kochel Verzeichnis).
•Mozart dos 6 aos 15 anos passou mais da metade do seu tempo em viagens ou em exibições públicas de seu talento; tocando, improvisando e compondo.
•O jovem Mozart familiarizou-se com os vários estilos de música da época por causa das muitas viagens (Alemanha, Itália, França, Inglaterra). Sua obra acabou tornando-se uma síntese de estilos nacionais.

Wolfgang Amadeus Mozart
•Primeiras sinfonias pouco antes dos 9 anos, primeira oratória com 11 anos, primeiras óperas com 12 anos (La finta semplice; Bastien und Bastienne).
•Contato com a música de J.C.Bach (Londres) e Haydn (Viena).
•Período de 1774-1781 Mozart viveu maior parte do tempo em Salzburg: sonatas para piano e violino, serenatas, concertos para violino, música sacra.
•Período vienense (1781-1791): 25 – 35 anos. Sucesso nos 5 primeiros anos e então a decadência financeira, afetiva e de saúde até sua morte precoce. Como compositor foi o período da maturidade (óperas, sinfonias, quartetos, concertos para piano, etc.)
•Influência de J.S.Bach, sobretudo na escrita contrapontística e seriedade, percebidas sobretudo na Flauta Mágica e Requiem (Mozart conheceu a Arte da Fuga e o Cravo Bem Temperado em 1782).

12
O período revolucionário e início do romantismo

Classicismo e Romantismo
•Transformações no séc. XVIII: Revolução Francesa (mudança da organização social).
•Problemas na terminologia (Clássico).
•Clássico-Romântico: falsa antítese na história da música.
•Continuum 1770-1900 (nos domínios da progressão harmônica, ritmo e forma).
•Pensamento científico (outros conceitos são também elaborados Ex: sentido não pejorativo ao gótico).

Romantismo
•Romântico: deriva de romance, cujo sentido literário original era o de uma narrativa ou poema medieval sobre personagens ou episódios e escritos numa das línguas românticas. A palavra romântico passou a ser empregada em meados do século XVII com a conotação de algo distante, lendário, fictício, um mundo imaginário ou ideal em oposição ao mundo real e presente.
•O desligamento com o presente leva o artista a pensar na “obra para o futuro”.
•“A adição do estranho ao belo” (Walter Pater); “Não há beleza excelente que não tenha alguma estranheza na proporção” (Lord Bacon).

Características do Romantismo
•Apesar da arte romântica buscar a sua matéria à vida real, transforma-se, criando, assim, um mundo novo, que necessariamente se afasta, em maior ou menor grau, do mundo de todos os dias. Difere da arte clássica pela maior ênfase a este caráter de distância e estranheza (na escolha e tratamento do material).
•Romântico como sentido genérico: manifesta-se em outros períodos históricos (renascimento-barroco; classicismo-romantismo).
•Clássico: equilíbrio, auto-domínio, perfeição dentro de limites bem definidos (IDEAL ESTÉTICO RECONHECIDO). Romântico: liberdade, paixão, movimento, abarcar o mundo inteiro, busca do inatingível (EXPRESSÃO INDIVIDUAL).
•A personalidade do artista confunde-se com a obra.
A música e a sociedade
•Compositor e público: transformações nos últimos 100 anos de um público restrito e culto para um público numeroso, diversificado e relativamente pouco preparado.
•O fenômeno do artista romântico: pouco sociável e isolado.
•Contraste das criações musicais do Século XIX: grandiosas (sinfonias, óperas) e intimistas (lieds, peças para piano solo).
•Diferenciação entre músicos amadores e profissionais; a figura do virtuose.
•Revolução Industrial: aumento da população urbana, população anônima.
•Mudança dos instrumentos musicais; aumento das orquestras.
•Nacionalismo (folclore).

13
Ludwig van Beethoven
(1770-1827)


O homem e sua música
•Século XVIII e Revolução Francesa: circunstâncias externas e a força do próprio gênio levam à transformação.
•Clássico: equilíbrio, auto-domínio, perfeição dentro de limites bem definidos (IDEAL ESTÉTICO RECONHECIDO). Romântico: liberdade, paixão, movimento, abarcar o mundo inteiro, busca do inatingível (EXPRESSÃO INDIVIDUAL). A personalidade do artista confunde-se com a obra.
•Disparidade entre a quantidade da produção de Haydn-Mozart e Beethoven: obras mais longas e dificuldade de escrever.
•Relação com os patronos: isolamento social e tempo para criar. O público ideal e universal.
•Influência de outros compositores: além de Bach, Haydn e Mozart; Muzio Clementi (1752-1832), Jan Ladislav Dussek (1760-1812).
•A surdez já se manifestava em 1796 e em 1820 Beethoven chega ao estágio final.

A Obra de Beethoven
•Geralmente as composições de Beethoven são ordenadas em três fases distintas, como forma cômoda de organizar uma reflexão sobre sua música.
•Fase 1: até c.1802 (Beethoven muda-se para Viena em 1792) Ex: Sonatas para piano até Opus 14 (as 10 primeiras sonatas), até a Segunda Sinfonia, quartetos de corda Opus 18.
•Fase 2: até c. 1816 (fase de “independência”) Ex: até a Oitava Sinfonia, Concertos para piano e violino, Sonatas para piano até Opus 90, ópera Fidélio, quartetos de corda Opus 59, 74 e 95.
•Fase 3:até sua morte em 1827 (fase “introspectiva e meditativa”) Ex: Nona Sinfonia, Variações Diabelli, Missa Solemnis, quartetos de corda Opus 127,130, 131, 132 e 135.
Beethoven e os Românticos
•Mudanças na instrumentação da orquestra.
•Dificuldade de compreensão de seus contemporâneos (sobretudo das últimas obras).
•Composições que mais influenciaram as gerações seguintes: quartetos Opus 59 (Rasumovsky), Sinfonias 5,6 e 7, sonatas para piano.
•Música programática: música instrumental associada a uma matéria poética, descritiva ou mesmo narrativa, não por meio de figuras retórico-musicais nem pela imitação dos sons e dos eventos naturais, mas pela SUGESTÃO IMAGINATIVA.

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Música Romântica Vocal

Características da Música Romântica
•Apesar de usarem esquemas de composição semelhantes aos compositores anteriores (sonata, sinfonia, concerto, missa, canção, etc.), a música romântica apresenta algumas diferenças técnicas.
•Ex: uma peça de piano de Chopin ou Schumann pode ser compreendido como uma série de episódios pitorescos sem qualquer vínculo forte que garanta unidade formal do conjunto da obra. Porém, os oratórios ou sinfonias românticas conseguia um novo tipo de unidade, apresentando o mesmo tema ou motivo em vários andamentos.

LIED
•Influência da Balada do Século XVIII: poemas longos, onde a narrativa e o diálogo alternam numa história repleta de peripécias românticas e incidentes sobrenaturais.
•A Balada expande a concepção do Lied na forma, âmbito e conteúdo emotivo.
•Importância do piano: que passa de um simples acompanhamento ao papel de apoiar, ilustrar e intensificar o sentido da poesia.
•Franz Peter Schubert (1797-1828); Robert Schumann (1810-1856); Johannes Brahms (1833-1897).
•Schubert: escrita pianística rica, muitas vezes sugerindo uma imagem pictórica do texto, não meramente imitativos, mas no sentido de contribuírem para o clima da canção.
•Schumann: música tipicamente romântica marcada pelo lirismo e pelo colorido harmônico, mas mantendo a serenidade e equilíbrio clássico. Obras de maior vulto: canções de amor (em 1840 casa com Clara Wieck).
•Brahms: Arranjos de muitas canções populares alemãs. Preocupação de não prejudicar a melodia com um acompanhamento complicado ou harmonicamente inadequado. Um dos maneirismos mais recorrentes é a construção de uma linha melódica sobre as notas da tríade ou em torno delas, omitindo, por vezes, a fundamental.

Música Coral
•Distinção entre:
•1- obras para coro como parte de uma estrutura mais vasta (coros de ópera, andamentos corais das sinfonias);
•2- obras onde a escrita coral é o foco de interesse;
–2.1.Partsongs (homofônicas, à cappella, sentimento nacional, interesse pelo folclore);
–2.2. Música litúrgica (para ser usada nos serviços religiosos, movimento ceciliano, interesse pelo passado);
–2.3. Obras corais com solistas e orquestra (sobre textos dramáticos apresentadas em concertos e sem encenação);

domingo, 5 de outubro de 2008

)O velhO nO espelhO(


“O medo enferruja as âncoras, cada coisa que pôde ser alcançada e foi esquecida começa a corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue de seus pequenos rubis. E lá no fundo está a morte se não corremos e chegamos antes e compreendemos que já não tem importância.”
(Julio Cortázar)


Aqueles pensamentos já não eram novidades para o velho há muito tempo, talvez já o acompanhassem desde o início da vida adulta e agora, enquanto pensa parado em frente ao espelho, fica perturbado com este descontrole de idéias. Sempre lhe foi incômodo ter um pensamento qualquer, sobre qualquer coisa e logo descontextualizá-lo, transferindo-o para anos antes ou então anos depois. Isto para ele era um descontrole de idéias. Como seria ter pensado assim antes? Como seria ter pensado nisso somente muito mais tarde ou tarde demais? Existe um tarde demais para um pensamento? Ele preocupava-se com as idéias que viriam tarde demais e perguntava-se se poderia ter um pensamento, uma idéia, um acesso de entendimento justo alguns segundos antes do último suspiro.
Alguns desses pensamentos voltavam de tempos em tempos como se estivessem em órbita em torno de sua consciência e outros eram novos e o surpreendiam inteiramente: “Como não pensei nisso antes?”; esses talvez só tivessem uma órbita maior e dando o tempo necessário reapareceriam. Alguns outros pareciam ser capturados pela gravidade da consciência, porque depois que surgiam uma primeira vez, voltavam com certa regularidade. Um deles foi a impressão que não havia mais nada a ser feito de relevante em toda sua vida! Esta impressão o fez pensar, em várias épocas da vida, sobretudo após realizar coisas marcantes, que a sua parte já tinha sido concluída e o resto dos seus dias seria um longo e inútil marasmo. Agora pensa nisso com um ar resignado que, se existe mesmo algo a ser terminado, este término é bem mais uma imposição constatada do que um simples pensamento ou sensação. Como poderia ter lhe passado alguma vez pela cabeça que sua parte já estava terminada? Pondera agora quase com tristeza que tudo isso era um luxo desnecessário e um grande desperdício de energia. Ele apoiou os braços na pia e deu um sorriso sem abrir a boca olhando-se no espelho; estava pensando nisso de novo, mas não podia ficar triste porque ainda tinha a dúvida de estar tendo mais um pensamento luxuoso. O que pensaria nos seus últimos segundos?
Lembrou-se de uma estudante que conhecera quando começava a deixar os anos de juventude e os aniversários já passavam a ser momentos de reflexão. Ela costumava dizer que só não gostavam da própria idade e dos aniversários aqueles que não haviam tido experiências suficientemente satisfatórias, boas ou ruins. A estudante, mais jovem e cheia de observações mordazes, comentou simplesmente que as pessoas mais velhas demonstram uma maior capacidade de sobrevivência, então o velho abriu um largo sorriso imaginando o que a jovem estudante diria se o visse agora. Ele já havia superado seus dois avôs e já estava empatado com seu pai e bisavô materno em longevidade, já se considerando um homem com grande capacidade de sobrevivência. Tudo bem que as inconveniências dos corpos velhos existiam, porém ele as manejava com discrição, evitando situações que pudessem evidenciar sua fraqueza na coluna ou então ingerindo somente alimentos que colaborassem com suas vísceras. Ele sabia que ser discreto neste sentido significava desligar-se de uma parte do convívio social, mas se esforçava para manter esta situação sob controle. O velho desejava gozar sua capacidade de sobrevivência vivendo o mais normalmente possível até o fim.
Em uma de suas viagens Gulliver vai parar num país onde existem pessoas imortais. A sua primeira reação foi ficar maravilhado e eufórico com as infinitas possibilidades deste dom. Viver eternamente, conhecendo todas as culturas e aprendendo sobre tudo, uma chance sem comparações de viver com toda intensidade, aproveitando tudo o que existe. Esta euforia dura até encontrar um cidadão imortal e ver suas enormes limitações. Neste país os imortais não morrem, porém envelhecem. Envelhecem tanto ao ponto de não entenderem mais a língua corrente, não entendem as novas regras sociais, as gírias e todas outras mudanças e novidades que são normais ao transcorrer do tempo. Eles também possuem grandes problemas de memória, esquecendo de quase tudo que já lhes aconteceu, de pessoas que conheceram, o que aprenderam. Os jovens não confiam mais nos imortais velhos e até mesmo seus bens precisavam ser administrados por outros, geralmente contra sua vontade e aos poucos os imortais iam sendo esquecidos numa vida extremamente solitária. Por não conseguirem mais conversar nem fazer quase nada, ficavam vagando pelas ruas sozinhos e, se olhássemos em seus olhos, talvez notaríamos que para eles a sua própria existência estava morta.
O velho ouve o barulho do vento que faz as portas e janelas do casarão de madeira estremecerem. Desde pequeno ouvia chamarem essa ventania vinda do mar de vento sul, indo se dar conta do motivo só mais tarde. Fica ali imóvel e respirando o mais silenciosamente possível, coisa que na sua idade requer uma boa dose de controle, está tentando escutar o vento como escutava bem antes, quando era criança. O vento sul que prolongava as brincadeiras no salão da casa e intensificava o cheiro de gás na cozinha mal iluminada e de sombras bruxuleantes. Aquele vento que depois de algumas horas deixava os vidros das janelas melados de maresia, a praia deserta e as ondas espumantes, transformava a casa num aconchegante abrigo cheio do cheiro do café da tarde e de cantinhos escuros. Hoje ele ouve o vento forte que vem em rajadas do sul e observa como as árvores se comportam, pensa em como estão adaptadas.
A casa de praia já pertencera a seu avô que tinha passado seus últimos anos como um imortal numa varanda. Olha-se no espelho e vê um homem velho; acha bom ainda poder ter estes pensamentos com lucidez e subir as escadas sem a ajuda de ninguém. Enche as mãos com água e esfrega o rosto e os olhos fazendo uma careta que tornam as rugas ainda mais salientes. Mesmo ficando pasmo com seu reflexo considera seu olhar cheio de existência, é incrível como tinha mudado pouco ou quase nada desde a infância. Lembra-se com detalhes das sensações e fantasias que tivera naquela casa e em outros lugares e sabe que ainda brincaria do mesmo jeito se fosse hoje. Após tantos anos, viagens e pessoas, ele percebe que seu olhar é a marca de sua essência, a ligação entre os seus ascendentes e descendentes. Seu bisneto e seu bisavô viram corpos diferentes, mas o mesmo olhar. Ele pensava que se um indivíduo consegue atravessar a sua vida inteira sem um acontecimento inaceitável em proporções de horror ou beleza, o olhar acaba mantendo aquele ar essencial que temos desde o começo. O velho achava que seus olhos tinham uma matriz de compaixão que tornava o resultado final um olhar bondoso e tímido, alguém também já havia lhe falado isso e muitas vezes ele tentara ser mais altivo, apesar de ser cada vez mais difícil. A velhice parece trazer, com o acúmulo de experiências e enfraquecimento do corpo, uma humildade inerente ao indivíduo. Pode ser esta humildade uma condição única para se ter nesta fase da vida a plenitude. Agora ele sente a serenidade e pensa nestas coisas aleatoriamente, não se importando muito em encontrar certezas.
Espia o tempo pelas cortinas do banheiro e vê os sombreiros do jardim sacudindo. Do lado da estrada e do lado da praia formam-se redemoinhos de areia, o céu esta inteiramente cinza e mais ao longe, mar adentro, é um cinza escuro onde provavelmente deve estar chovendo. É um daqueles dias que logo depois do meio-dia o sol desiste de iluminar e no meio da tarde a noite já parece estar chegando, quando os trabalhadores da terra e do mar têm seus relógios adiantados e retornam para suas casas. O velho sempre admirou muito aquela riqueza de eventos: “Este tempo vai noite adentro.” Acreditava que fazia parte de algo grandioso e tentava perceber cada acontecimento que estivesse ao alcance de seus sentidos. Muitas vezes andava lentamente através de um jardim que se mostrava exuberante, observando ou imaginando com atenção tudo o que poderia estar acontecendo à sua volta. Imaginando, pois a maioria das coisas que podem acontecer em um jardim acontecem de forma invisível. Quanta atividade há na tortuosa e peluda copa de uma velha figueira? Também se interessava pela movimentação de pessoas na areia da praia, entre as pedras, as ondas, os carros, as árvores e as antenas; aquilo lhe significava um infinito de possibilidades. Quando podia ficar em silêncio absoluto, numa noite de escuridão quase absoluta, à entrada do mato, apurava os ouvidos ao máximo e escutava um galho se quebrando e despencando num lugar qualquer. Aquilo sim era um grande acontecimento para a floresta e para seus ouvidos. Algo assim até desencadeava uma seqüência de outros eventos como o vôo assustado de uma coruja ou a quase destruição de um formigueiro com semanas de existência. Ao olhar pela janelinha do banheiro e ver os sombreiros e suas largas folhas sacudindo com o vento, se pergunta qual é sua parcela de participação naquele evento como espectador.
Outra coisa que intrigava o velho era o tamanho do raio de ação de um indivíduo durante a sua vida, qual a amplitude geográfica que alguém atingia até morrer. Quando ia a cemitérios ou lia textos mencionando grandes personalidades prestava atenção na cidade de nascimento e morte. Percebera que as pequenas cidades são as favoritas para o nascimento e Paris para os momentos finais. É bastante curioso pesquisar o trajeto de um biografado até seu destino final e ele pensa em si mesmo nessa hora. Está muito velho, com a capacidade de sobrevivência mais que comprovada e a apenas cinqüenta quilômetros do hospital que nascera. Se morresse neste instante sua hipotética biografia não despertaria muita curiosidade nos ignorantes. Além disso, ele está na mesma casa que já freqüentava quando criança. O que deveria pensar disso?
Em relação ao raio de ação de um indivíduo durante a sua vida, a contemporaneidade gerou um grande fenômeno. Há vinte anos ou menos, a amplitude geográfica alcançada por uma pessoa era um dos principais diferenciais entre o seu sucesso em larga escala ou não. A divulgação de grandes idéias e a busca de conhecimento implicavam em viagens a grandes centros e dificilmente alguém isolado geograficamente poderia se sobressair como líder intelectual. O velho pensa nisso e lembra-se do pensador alemão Kant que saíra pouquíssimas vezes de sua cidade e que, enquanto a música redefinia-se nas mãos de Debussy, Schoenberg e Stravinsky na primeira década do século XX, o músico americano Charles Ives fazia experimentos de mesma envergadura bem longe dos centros europeus. Estes exemplos ele encarava como exceções à regra. O fenômeno contemporâneo da comunicação global aniquila grande parte das limitações geográficas. Será que as culturas estariam sendo definitivamente equalizadas?
A porta do banheiro está entreaberta e o velho pode ver os seus dois bisnetos passarem correndo de lá para cá. Estão correndo pela casa toda, indo e vindo aos gritinhos e de pés descalços da garagem no térreo até subirem as escadas ofegantes e se jogarem no sofá da sala de TV. Ele pode ver os dois quando aceleram os passinhos antes de pularem. Lá de baixo vem o som da louça e da conversa de um jantar sendo preparado. Estão juntos para a temporada de verão na velha casa de praia quatro gerações de sua família, seu filho e sua nora, sua neta com seu marido e seus dois bisnetos, a neta também tinha convidado duas de suas amigas balzaquianas da universidade para ficarem alguns dias. O avô tinha orgulho de ver sua neta seguindo o mesmo caminho acadêmico que o seu; e ela ainda tinha conseguido concluir sua formação e começado a trabalhar como professora mais cedo que ele. Orgulhava-se do tempo que passara com a neta na infância e juventude, era crente que suas orientações e conselhos foram decisivos. Ele a via fazendo com seus bisnetos os mesmos testes de coragem em volta da casa ao anoitecer que ele havia feito. Ainda hoje eles conseguiam ficar horas conversando e davam longos passeios na praia, a neta era sua maior ligação com a esposa.
Ele havia conhecido pouquíssimos bisavôs em todo o seu tempo de vida e por isso sentia-se um privilegiado. Via que as chances de seu filho alcançar este status eram menores que a sua, pois em sua família, como em tantas outras, engravidava-se cada vez mais tarde. Essa dinâmica da procriação era agora cada vez mais adotada, como fora também adotada por seus próprios avôs e pais a dinâmica de ter menos filhos. O velho pensava na quantidade de tempo que estava sendo contemporâneo de seus descendentes. Os bisnetos seriam os últimos. Que lembranças seus bisnetos terão dele quando ficarem velhos?
De todos os seus consangüíneos, ele é o mais velho. O segundo lugar é de uma prima com oito anos a menos. Quando eram bem jovens esta distância de idades era enorme, ele com vinte anos e ela com doze significava a condição de uma criança contra a de um jovem que trabalhava e tinha responsabilidades. Hoje os dois estão velhinhos e seu último encontro foi há alguns aniversários atrás. Os dois primos falaram muito pouco, olhando tudo em volta aos suspiros; um encontro entre dois velhos silenciosos pode ser de uma nostalgia quase insuportável. Refletindo sobre esta inevitável transformação, não consegue evitar uma sutil e secreta incredulidade: “Como passou rápido.” Ele não saberia dizer se é deste jeito para todos ou se tinha deixado de fazer alguma coisa. Será que tinha deixado de experimentar algo satisfatoriamente? Que idéias deixara de ter? Que pensamentos nunca ocorridos lhe fizeram falta? O homem velho de pé em frente ao espelho e cheio de perguntas decide descer as escadas e jantar, depois convidaria sua neta para uma partida de xadrez.


Itapema, Janeiro de 2006 – Leandro Gaertner
Obs: a citação do início foi colocada em Janeiro de 2007 e trata-se de um trecho do texto Instruções para dar corda no relógio do escritor Julio Cortázar.

Imagem: Desespero (Edvard Munch)

domingo, 14 de setembro de 2008

Homenagem ao Maestro Egon Bohn


Há quase 20 anos falecia na sua casinha do sítio em Gaspar Mirim um homem forte e idealista, que deixava para a memória de seus familiares, alunos e amigos mais que uma sensação de perda e saudade, mas um legado de valores e conduta virtuosa, baseados na educação musical de qualidade. Seu trabalho e amor pela arte e pela cultura continuam ainda hoje ecoando nas igrejas, palcos e escolas através de várias gerações de discípulos e descendentes destes ideais.
Egon Bohn nasceu em Blumenau em 3 de julho de 1929 e, como nos conta sua filha, a musicista Celine Bohn Gaertner, descobriu o mundo dos sons numa gaita de boca quando era garoto, tocando nas caminhadas para a igreja e para o trabalho. Saciava sua curiosidade musical observando professores e maestros, pesquisando em livros e instrumentos que lhe chegavam às mãos, assim aprendendo quase sempre de forma auto-didática. Foi um jovem de personalidade muito marcante, perfeccionista, com espírito de liderança e muito exigente no tocante à disciplina. Com uma formação escolar fundamental começou a trabalhar muito cedo, antes dos 14 anos na Usina de Açúcar São Pedro em Gaspar (1943 - 1945), depois trabalhou na Indústria de Linhas Leopoldo Schmalz S.A. (Linhas Círculo) em Gaspar (1945 - 1953), Fritz Lorenz S.A. em Timbó (1953 -1954), Comercial Cláudio Gaertner em Blumenau (1954 -1955) e Neitzel Corretores de Seguros Ltda em Blumenau (1955 -1975). Em 1945 foi admitido na Congregação Mariana da Paróquia São Pedro Apóstolo de Gaspar, onde optou naturalmente por participar da Banda São Pedro, fundada logo em seguida em 16 de junho de 1946. Neste período também teve aulas de trombone com o maestro da banda Sr. Eurides Luiz Polli e ingressou no Coro Misto Santa Cecília sob a direção do Sr. Luiz Franzói.
Em uma de suas apresentações musicais (30.11.1954) conheceu sua futura esposa, a musicista Claudette Goerisch (Bohn), com quem teve quatro filhas, Celine Bohn (Gaertner) (*1958), Lorena Bohn (Bornhausen) (*1959), Juvani Bohn (*1960 +1960) e Noêmia Bohn (Pessatti) (*1961). Em 1958 assumiu a regência do Coro Misto Santa Cecília, coincidindo este momento com a reformulação da liturgia católica romana. O pároco Frei Arthur Kleba OFM convida Egon Bohn para reorganizar o coro e adaptar o canto às novas diretrizes da Igreja, com as celebrações agora em língua portuguesa. Contando com a ajuda de Frei Arthur, Sr. Ildefonso Koser e de vários outros coralistas perseverantes, Egon Bohn inicia a reformulação do Coro Misto Santa Cecília, convidando jovens integrantes, ensinando música para os iniciantes, incluindo atividades de preparação vocal, leitura e solfejo e ampliando o repertório com canções folclóricas e outras não ligadas diretamente ao rito católico. Para aperfeiçoar o coral, o maestro Egon Bohn não mediu esforços, buscando orientação em diversos cursos em Blumenau, Florianópolis e Rio de Janeiro, onde teve aulas com grandes músicos como Heinz Geyer, Oscar Zander e Padre Penalva. O maestro João Batista Bohn, irmão de Egon, explica que neste período também ocorreu um evento de grande importância histórica para a Banda São Pedro (nesta época regida pelo maestro Eurides Luiz Polli) e Coro Misto Santa Cecília, a junção destes dois grupos guiada com energia pelo Sr. Egon Bohn. João Batista Bohn ainda explica em seu livro sobre o Clube Musical São Pedro que o maestro Egon Bohn incentivou com disciplina a igualdade entre os músicos da instituição, sem distinção racial, idade ou ideologia política, configurando um novo conceito de respeito mútuo e companheirismo. Outro tabu histórico foi se resolvendo também nesta época, como a participação de mulheres na banda e a convivência amistosa entre católicos e protestantes.
O maestro Egon Bohn pôde dedicar-se com mais intensidade após conseguir sua aposentadoria em 1975, pois até então todo seu trabalho com música era filantrópico e realizado nas horas livres. A partir desta data dedicou-se de corpo e alma para as atividades musicais de Gaspar, lecionando gratuitamente para os iniciantes da Banda e do Coro Misto e trabalhando como maestro destes dois grupos. Também preocupou-se com as questões públicas como a poluição sonora urbana, apresentando um projeto pioneiro na câmara de vereadores. Em 1977 organizou uma escola de música reconhecida pelo Departamento de Extensão Cultural da UFSC, possibilitando desta maneira um aprendizado musical de caráter laico e de grande competência técnica na comunidade gasparense. Hoje, esta escola está registrada com o nome de Escola de Iniciação Musical Egon Bohn, e ao longo dos anos 80 e 90 foi responsável pela formação inicial de diversos profissionais da música em nossa região, como sua filha, a musicista Celine Bohn Gaertner, maestrina do Coro Misto de 1988 a 2002, seu neto, o flautista Leandro Gaertner, solista da Orquestra de Câmara de Blumenau e professor de música na UNIVALI e o pianista Dayro Bornhausen, atual maestro do Coro Misto Santa Cecília e professor de música na FURB.
O Maestro Egon Bohn faleceu com 59 anos no dia 2 de novembro de 1988. A missa em homenagem foi realizada na Igreja Matriz de São Pedro Apóstolo de Gaspar, num dia silencioso e ensolarado, quando o tempo pareceu parar de tristeza com os acordes do Ave Verum de W.A.Mozart interpretado pelos seus muitos admiradores. Em uma homenagem póstuma publicada na época, o jornalista Silvio Rangel resumiu carinhosamente o que vem se comprovando nestes quase 20 anos: “Boa Noite Maestro! Teus discípulos te perpetuarão. Tua obra te imortalizará.” Egon Bohn foi mais que uma personalidade gasparense, foi um verdadeiro artista!

(Tive o privilégio e a honra de ser contemporâneo do Vô por 10 anos e 11 meses....Jamais iremos esquecer do “Ô... Zé!”! Tu estas presente na música e nos passarinhos!)

Leandro Gaertner - Escrito em Gaspar, dia 20.08.2007


Imagem: Orfeu (O.Redon)