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sábado, 11 de abril de 2009

Dr. Jekill na classe média (Conto)

[1]

I Jekill[2]

Dr. Jekill não se altera quando anda pelas ruas da cidade, porém isto não significa que não explode por dentro. Os outros cidadãos não podem nem suspeitar que aquela figura comum caminhando rápido e cadenciadamente entre eles encerra um desgosto quase ao ritmo de seus passos.
-Que horror! Está tudo errado!
São raros os momentos que esta frase não lhe vem à cabeça quando observa o movimento à sua volta. Num primeiro olhar externo pode ser mesmo um pouco extravagante dar tanto valor e criticar as banalidades práticas e necessárias à vida em grupo se é levado em conta uma outra realidade adversa, como uma guerra, uma tragédia natural ou uma epidemia, mas a verdade é que neste momento e mesmo nesta realidade Jekill corroe-se! Isto deve ficar bem claro aos leitores para que não haja uma má e raivosa interpretação quanto às angústias deste pobre diabo, que desabafa um queixume em cada esquina. Apesar de nunca ter vivido uma guerra ou ver seus amigos conterrâneos soterrados por um terremoto ele entende, pelo menos racionalmente, as terríveis implicações dessas situações e não discute a infinita superioridade de problemas e dor causada por elas se comparadas aos corriqueiros atravancamentos desta sociedade. Dentro de uma escala de atrocidades, as incomodações de Jekill poderiam ser enquadradas como secundárias ou penúltimas. São as irresponsabilidades e atentados imediatamente anteriores ao caos generalizado.
Como fica evidente em sua frase, para Jekill o erro está em todos os lugares. O mais surpreendente é o grau de conservação e manutenção desta condição super excitada, como a de um dono de cachorro bravo que vai liberando a corrente aos poucos, exatamente o tanto para que o animal jamais consiga alcançar o osso, sem, no entanto provocá-lo ao ponto de um ataque feroz contra sua mão. É bem possível que esta sensação de impotência seja comum a um grande número de pessoas, mas ainda não é a melhor hora para falarmos dela. Talvez partindo de coisas menores e exclusivas fique mais fácil compreender os tormentos do nosso personagem, sem descartar, naturalmente, que mesmo estas observações individuais podem ser também compartilhadas.

II Perfumes

Uma das coisas mais simples e aparentemente bobas, para alguns até mesmo uma birra excêntrica ou pura infantilidade, é o desafeto de Jekill com o uso indiscriminado de perfumes. Nós, Homo Sapiens, somos em sã e reflexiva consciência essencialmente mal cheirosos, já bastante na superfície externa e insuportavelmente nas substâncias que transformamos e expelimos do nosso interior. Um corpo humano saudável fede através de infinitas variáveis históricas, culturais, alimentares, geográficas e, de forma mais interessante, através das variáveis particulares. Logo explicarei todas com exemplos práticos e sucintos para que não restem dúvidas quanto ao posicionamento de Jekill. Segundo nosso aparentemente neutro e inodoro confessor, um avesso aos borrifos exagerados, ao entrarmos num elevador ou mesmo num simples passeio na praia, corremos o risco de nos apropriarmos contra nossa vontade primária de detalhes íntimos alheios. Se um outro se perfuma sem escrúpulos, acabamos por saber suas preferências nos prazeres físicos interpessoais, suas finanças, acuidade nas sutilezas, seu grau de egocentrismo, além de sermos forçados a esquecer por preciosos instantes todos nuances do local onde estamos, nos concentrando finalmente no rastro deixado pelo perfume.
Todas as variáveis do cheiro confundem-se e são a princípio interligadas, mas aqui cabe uma tentativa de discriminação. A histórica refere-se sobretudo à nossa interpretação do passado, quase sempre sujo, mal cheiroso e sem um acesso fácil aos líquidos perfumados e aromas delicados. Nossos antepassados tomavam um banho por semana e nos filmes todos os medievos passam a trama, que pode durar semanas, com as unhas pretas e manchas de carvão pelo corpo. Este clichê certamente deturpado é apenas uma pequena introdução para dizer que esta variável é a que menos pesa nas conclusões de Jekill devido à sua ignorância quanto aos odores do passado e de suas muitas e desconhecidas variáveis contemporâneas, que como na música, jamais serão desvendadas por completo. A despeito da distância de nossos dias, certamente um estudioso dos aromas como um músico purista podem muito bem assumirem uma outra posição quanto a seus objetos de estudo e, afirmarem sem erro que, respiram o ar e percebem os ruídos dos séculos passados.
A variável cultural para os odores assemelha-se muito a alimentar e com facilidade se confunde à geográfica, mas ainda é possível citarmos um exemplo específico saído da boca do higiênico Jekill. Como todos sabem a França é uma das nações mais massacradas neste assunto e, apesar de pessoalmente considerar a palavra “cultural” demasiado arriscada e repleta de implicações, respeitarei a vontade de Jekill e continuarei com sua observação referente ao “hábito cultural” dos franceses e sua diferenciação lingüística para “se lavar” e “se banhar”, sem entrar por conta própria em conceitos especializados como habitus, cotidiano, cultura social e transformações histórico-culturais. Segundo ele, os franceses de hoje, e isto significa os franceses de verdade, ainda tomam um banho mais leve e diário, uma ducha rápida e econômica para limpar a poeira da jornada e, semanalmente, ocorre o que eles chamam de “se banhar”, aí sim entram na banheira e ficam de molho inclusive dando um bom trato nos cabelos. Não está muito claro o tipo de transformação histórica para a consolidação dessa enorme fama mercadológica dos perfumes franceses, fora as brincadeiras e a tentadora redução de que “os franceses não tomam banho e por isso usam tanto perfume”. Este é também somente mais um pequeno exemplo das inúmeras variáveis às quais os vapores humanos estão condicionados.
A pele áspera ou lisa, com os pêlos espalhados pela superfície, porém a maioria concentrados em regiões específicas, geralmente estas detentoras dos mais altos graus de odor, exala sem parar refletindo também tudo o que comemos. Ao comermos curry durante uma semana inteira, provavelmente o cheiro vindo das axilas se tornarão peculiares e nossos interlocutores, se não forem da cultura indiana, poderão nausear-se e reclamarem um perfume. Seguindo este raciocínio, podemos sugerir numa brincadeira maldosa que, em vez da França produzir tantos perfumes, poderia produzir menos lingüiças de intestino suíno. Aqui também está claro para Jekill que não importa o que passamos para amenizar nossos odores, eles estão lá! Ao ver um humano aproximando-se a sensação pode ser aterradora! Uma massa móvel com panos sobre uma camada disforme de pele, com pêlos, alguns até cerdas, cistos, verrugas, hematomas, sinais, cicatrizes, secreções e orifícios que, se examinados com minúcia seriam a causa dos piores acessos de repulsa. Jekill passa por um desses com o cuidado de tornar o encontro o mais breve possível, mas é inevitável a flechada que suas narinas, garganta, olhos e finalmente, o cérebro recebem sem misericórdia. Ele precisou ser lembrado que fedemos e, ainda mais, ser lembrado que “Ei Jekill, eu não te conheço, mas você terá que me cheirar de qualquer forma. Veja como é bom meu perfume! É francês!”.
Uma outra forma de compreender os odores do corpo é regida pela nossa localização geográfica. Essa talvez seja a mais óbvia e perceptível das variáveis, pois o calor sempre provoca as erupções mais violentas e o frio estanca os líquidos sob o couro. E como é de nossa natureza utilizarmos nossa racionalidade das maneiras mais inesperadas, inventamos regras que são limítrofes ao mal estar físico. Um habitante dos trópicos estará naturalmente sujeito às exalações diferenciadas daquelas dos habitantes de regiões temperadas ou polares, porém sem prestarmos muita atenção a isto, pelo menos não nas vias práticas, nos cobrimos de pano para uma festa no verão, aceitando a proibição dos desregrados; por cima o perfume, as sedas e os linhos, por baixo o suor, a murrinha e o azedume. Por isso nossas melhores, mais caras e aguardadas festas não levam a nada além do cansaço, bebedeira e aos pés roxos pulando descalços numa alegria forçada. Propulsor de um movimento mais vicioso que virtuoso este ramo do mercado, a moda da indumentária e da aparência, não colabora ou muito pouco faz pela verdadeira elegância, esta necessariamente ligada ao bem estar e à beleza concomitantes. Continuando neste breve desvio, certamente daqui a duzentos anos irão achar nossa sociedade grotesca por produzir bulímicas e anoréxicas morrendo de fome voluntariamente como nós hoje rimos dos penteados de um metro e meio de altura na moda aristocrática francesa do século XVII, que favorecia o acúmulo de insetos e abrigava ninhadas de rato. Ainda quanto às grandes festas, que são muito mais próprias ao encontro dos pequenos e ariscos grupos com relações já estabelecidas previamente, podem se tornar algo válidas somente ao convidado que possui um esquema arranjado para o flerte e chega no salão esperançoso para o que pode acontecer após a festa. Neste ponto nosso quase nu Jekill insiste na utilização acentuada do didatismo visto a grande simplicidade desta variável e pede desculpas por tão improvisada digressão aos que já haviam compreendido de antemão.
Tudo isto não quer dizer que Jekill não atribua beleza aos seus semelhantes da raça humana ou que seja desprovido de até agradáveis lembranças perfumadas, ou então que não existam ocasiões de prazer ao sentir um leve e doce perfume escondido numa curva feminina. Tudo isto significa que este tipo de prazer é raro como encontrar uma florzinha amarela solitária e heróica no meio de um resto de mangue de um rio urbano cada vez mais espesso de lixo e merda. As pessoas escondem sua catinga borrifando perfumes como bebem, como comem, como ouvem música, como lêem, como falam e pensam. Para Jekill o que importa é encontrar após as delícias dos olhos e ouvidos os segredos aromáticos em lugares ainda não visitados. Um perfume deveria ser um presente secreto!

III Alimentação

Jekill está gastando bastante dinheiro com comida e isto é apenas um dos reflexos de sua conturbada, mas sob controle, relação com os alimentos. O problema principal não se refere especificamente aos gêneros alimentícios e sim como eles são apresentados na hora da refeição, o que já é motivo suficiente de diversas dificuldades. Uma simples desavença com certos tipos de alimentos parece ser complicada, e realmente é quando se trata de uma aversão a qualquer fruta, por exemplo, porém numa circunstância menos abrangente basta selecionar e escolher, as opções ainda são muitas. As dificuldades que o caprichoso Jekill tem enfrentado não consiste em encontrar alimentos que aprecie, mas encontrar estes ingredientes combinados a contento, dispostos satisfatoriamente. Este pequeno zelo é na realidade uma batalha sem fim que pode trazer baixas onde menos se espera, pode causar desconforto e outras inconveniências afetando mais uma vez sua tênue e pouco ramificada teia de relações interpessoais. Não obstante todos os efeitos colaterais e malefícios à sua sociabilidade, a experiência de ingerir gororoba ainda é determinante para suas decisões. Após um não muito detalhado exame de consciência Jekill conclui que estes novos cuidados são naturais à sua maturidade e fazem parte da grande linha evolutiva de transformações de um ser humano saudável de classe média ou superior. Num acesso de sinceridade Jekill ainda confessa sua tendência quase patológica ao exclusivismo dizendo que poucas coisas interessantes são possíveis de se fazer com mais de um indivíduo e quase nenhuma com mais de dois. Nesta seletíssima lista de atividades em grupo estão o sexo a dois, a três e ad infinitum, mas também estão os jantares e os passeios de escuna em pequenos grupos de quatro a cinco pessoas. Nosso solitário na multidão explica esta tendência ao individualismo com a intenção de proporcionar um total esclarecimento quanto às suas decisões, procurando beneficiar a total compreensão dos leitores no que diz respeito à sua preocupação com a sociabilidade.
Um dos momentos de maior dificuldade enfrentados por Jekill é na fila do bufê e, ultimamente, até mesmo um ingênuo anúncio à distância ou uma pequena fila se formando já são motivos de calafrio, arrepios e, dependendo dos perfumes e sons a sua volta, a acessos de refluxo. Estes pratos quentes e frios dispostos lado a lado para que as pessoas andem em fila ordenada escolhendo sua refeição é uma das mais populares invenções da nossa sociedade. É inclusive uma das salvações de um grande número de assalariados, da rotina fora de casa, dos estudantes e dos donos de restaurante; é a aniquilação dos garçons. Jekill insiste na tecla que não é, e não pode ser de forma nenhuma, contra o estabelecimento destes populares tratadouros, mas frisa seu desprezo em pegar filas, arrastar a bandeja pelo balcão cheio de pedaços de comida, improvisar rápido qualquer coisa no seu prato porque alguém já está roçando suas costas.
Todos estes restaurantes de grande circulação acabam por pecar nos detalhes e, sem nos atermos aos pontos positivos por causa da sua praticidade econômica, caem no grotesco, pelo menos ao olhar de Jekill. Nosso crítico gastronômico também arruma confusão no universo das pizzas e quase todas as refeições regadas com esta especialidade são também momentos de complacência, um esforço bondoso e de auto-preservação para não parecer um estraga prazeres. A pizza como qualquer outro prato deve, ou bem deveria, poder ser degustado na inteireza de seu sabor. Um verdadeiro apreciador leva o tempo aproximado de um repasto para sentir o sabor por completo, ficar intimamente ligado aos ingredientes, identificar-se e acreditar que aquela pizza de marguerita é coisa sua, assumir e defender a personalidade da sua pizza em qualquer um dos rumos que a conversa da mesa tomar! O sabor único à sua frente é a sua identidade e naquele momento integra-se a um importante elemento de diferenciação com os demais, Jekill ainda acredita, num olhar mais extremo, poder seu humor e pensamentos serem conhecidos por intermédio de sua pizza e ao olhar em volta poder até mesmo reconhecer-se no seu próprio prato.
Melhor ainda se o sólido que mastigamos ou os ares que expelimos na produção da voz em uma discussão forem acompanhados pelo vinho, este sim o grande oráculo mole da civilização ocidental. Uma boa escolha deste ditoso líquido, que aproxima-se mais de uma companhia que de uma bebida, mais a fidelidade aos sabores do seu alimento premiam sem erro o zeloso comensal à satisfeita apreciação. A título de esclarecimento e para que não haja sombra de dúvidas em nenhum de seus ditames, Jekill explica que o buscador internético Google é Delfos, o oráculo duro de outrora. Esta breve explanação sobre o ideal procedimento com as pizzas serve aos leitores como incentivo à imaginação. Sem nem relacionarmos as variantes de massa, espessura, a adequação dos fornos ou o cortante veredicto dos italianos ao comerem nossas pizzas “esta massa não é ruim, mas isto aqui não é pizza”, já é possível prever os desgostos de Jekill ao ser levado pelo destino das massas a mais um dos fenômenos gastronômicos da nossa tão popular sociedade, o rodízio. Mesmo não sendo um dos maiores adeptos do repertório de trocadilhos como alguns de seus parentes, neste momento de desespero Jekill alerta os críticos para sua entrega de pontos. A balburdia, o cheiro de azeite, os grãos de milho voando das mesas, os gritos suplicantes pelo frango desfiado, os garçons atiçando os mais primitivos níveis da promiscuidade do paladar, para Jekill este cenário terrível é digno de uma das mais realistas passagens apocalípticas. Neste ponto ele novamente pára suas queixas e explica suas contradições, pois participaria com toda alegria do coração de um rodízio de carnes à moda de Trimálquio. Nosso condicional glutão escabela-se ao tentar justificar sua simpatia pelas carnes em oposição ao rodízio de pizzas, porém desiste logo no início dizendo que as coisas do coração não têm explicação e, lembra nesta hora, de ter engolido em seco para não destratar um escravo alheio quando este lhe oferecia um bufê de salada à porta de um dos mais caros e conceituados rodízios de carnes.

IV Eleições e Poder Público

Antes de prosseguir nas miúdas implicâncias Jekill é assaltado por um surto de amargura e retoma uma de suas dores mais dilacerantes, brevemente mencionada no início de suas confissões, a sua sensação de constante provação super tensa por causa do acúmulo de erros. Estes erros não foram bem explicados antes, mas tratam-se simplesmente das besteiras impensadas dos poderes públicos, dos pequenos e dos grandes. Os pequenos nem precisam entrar nesta verborrágica discussão, pois se um síndico compulsivo gasta parte do orçamento de seus condôminos com a compra mensal de dezenas de escovinhas de aço, os efeitos de sua irresponsável patologia fazem poucos estragos no andamento geral de uma vida. Agora, numa situação bem mais corriqueira e menos patológica, se um deputado federal aprova pela enésima vez o aumento do seu salário, dinheiro este que inevitavelmente faltará numa outra ponta, esta sim poderá ser uma atitude com seqüelas mais severas. Então, com isto esclarecido, Jekill segue enumerando alguns erros que lhe são visíveis a olho nu na infra-estrutura pública.
Numa hipotética ordem cronológica de eventos, o primeiro passo de alguém com interesse em cargos públicos pode ser o nascimento desta idéia em si. O que leva alguém a decidir esta carreira tão concorrida e alvejada por todos os lados? A primeira coisa que nos vem à mente é uma outra pergunta: o que ela fazia antes? É difícil responder estas questões pertinentes aos primeiros passos de um grande servidor público, mas podemos tentar fornecer algumas saídas lógicas e descompromissadas com dados ou casos particulares. Um grande grupo deve ser oriundo da cultura familiar nos altos cargos e carregam no próprio nome as entradas e atalhos. Em alguns raríssimos casos este feitiço pode virar contra o feiticeiro, o que não impede de modo algum a continuidade dos projetos e até alguns acertos por outras vias. Nestas conversas Jekill vacila constantemente e mais parece alguém tateando no escuro, fato escusado devido sua ignorância e pequenas ambições no campo político, o que pode ser considerado um distanciamento voluntário, um olhar de soslaio desconfiado de longe. Jekill tem uma natureza um pouco rude e assim desculpa-se se seus arroubados comentários possam parecer como alguém tateando no escuro com uma faca na mão.
Seguindo a lista de iniciações no mundo dos serviços públicos um dos campeões pode ser o acúmulo de status social, que traz a sensação inebriante da evolução e do poder, geralmente corroborada com os mega-salários. Em casos onde o pretendente possui uma carreira profissional incipiente, quando a possui, também não se descarta a possibilidade do desespero ao entrar na lamacenta corrida eleitoral. Um brutal vale tudo para ver garantido um ganho por alguns anos, que ainda pode ser multiplicado facilmente por articulações e meandros camuflados. Neste último caso, não interessando o custo, a vitória compensa com lastro a empresa investida e, mais uma vez sem complexos artifícios, o resultado de um lado perdedor não ativo vem à tona. Segundo esta lógica seca, o lado perdedor passivo não seria outro que não o dinheiro público arrecadado nos impostos, que legalmente patrocina todas as campanhas e em todos os vieses possíveis. Jekill não coloca a palavra “legalmente” aqui com um sentido pejorativo ou sarcástico, como tanto aprecia fazer, mas neste caso a palavra se encaixa perfeitamente, pois até nosso honesto cidadão acredita não existir outros caminhos de bancar as campanhas. Estas situações ainda podem combinar-se e, quem sabe o que pode ainda acontecer até a poeira sentar? Jekill em sua simplicidade de raciocínio entende que a máquina já anda assim há muito tempo, há mais de cem anos, e não pode nem de brincadeira palpitar um milagre como um desses milhares de técnicos de futebol do povo, mas de qualquer modo prefere continuar tateando no escuro segurando sua faca.
A entrada nos grandes cargos públicos nem sempre se dá por um concurso ou eleição, mas pode passar-se por algo que é carinhosamente chamado de indicação ou apadrinhamento, que resumidamente quer dizer uma pessoa colocada no posto não importa qual. Esta modalidade tem os mesmos teores de complicação e precisariam ser analisadas uma a uma, pois abarcam seriamente as sutilezas que distinguem emprego de trabalho, porém o que se vê até onde menos se espera é um festival de incongruências, um circo do absurdo e, até onde percebo por sua narrativa, o próprio Jekill poderia escolher qualquer secretaria após algumas instruções. Se pudéssemos apontar um dos maiores focos do erro, seguramente as indicações para os altos cargos de confiança e decisão despontariam com facilidade, afinal as pessoas certas deveriam estar nos lugares certos! Esta é somente a chegada das pessoas nos cargos. Ainda poderiam ser enumerados outros sumidouros de dinheiro dos impostos, alguns propositais através de apropriações indevidas como a mídia prefere chamar e outros, mais tristes e frustrantes, pela escrachada incompetência. Essas reclamações não teriam fim se Jekill não se mostrasse verdadeiramente pesaroso por tudo, sentindo uma grande dificuldade em descrever jocosamente suas observações. Mas mesmo não sendo o tema que mais lhe agrada, continua remoendo suas sinapses em busca de ligações que façam sentido ao menos a grosso modo.
Através de um enfoque igualmente amplo, Jekill continua suas lamúrias de contribuinte sofredor abordando uma expressão que anda bastante em voga nos dias de hoje: enxugar a máquina. Sem muito esforço metafórico conclui-se que esta expressão significa não gastar dinheiro público à toa, aproveitando os recursos disponíveis da maneira mais coerente e justa o possível. A impressão é que isto demorou uns bons governos para se estabilizar enquanto jargão e agora que faz parte corrente inclusive do jornal televisivo de maior audiência, apelidado com sadismo de “Ilha da Fantasia”, a máquina girou mais um dente de sua engrenagem e já se fala em “não tem mais onde enxugar”. Este preâmbulo abre aqui mais um clássico da relação governantes e governados, algo que o empolado Jekill escolheu chamar de demagogia institucionalizada. Neste ponto ele se levanta da cadeira e busca uma leitura bem pertinente aos pensamentos anteriores e tenta assim agradar um pouco seus leitores à luz satírica de Petrônio[3]:

“Meus bravos estrangeiros... Se sois negociantes, buscai a fortuna em outra parte ou tentai outro meio de ganhar a vida. Mas se sois pessoas de uma classe mais distinta, e não vos aflige a obrigação de mentir da manhã à noite, não vos amedronteis, pois estais aqui a caminho da riqueza. Porque nesta cidade não se faz nenhum caso da literatura; a eloqüência foi banida; e os bons costumes não encontram aqui nem estima nem recompensa. Todos os que encontrareis em Crotona se dividem em duas classes: testamenteiros e beneficiários de testamentos.”(Satiricon)

Este audaz escrito afaga de certa forma a alma do aprendiz de libertinagem que agora lhes escreve! Jekill também toma a liberdade em sentir prazer com esta novela milenar ao perceber que todos já tiveram seu quinhão de desagravo. O elegante romano perdendo a vida com os pulsos cortados e as afrontas de hoje sendo resolvidas no tapetão dos favores, projetos de lei e das bolsas de estudo. A demagogia institucionalizada é difícil de ser definida. Pode ser vista como um jeitinho brasileiro pós-moderno, mas dentro destas confissões pode ser mais bem visualizada na presente e novíssima fábula do cachorro faminto acorrentado e seu dono. Em vários aspectos básicos nossa sociedade está aquém de outras sociedades contemporâneas e esta situação é legitimada pela desorientação morosa da maioria de nossas instituições mantidas com impostos, como se simplesmente vivêssemos mentindo uns para os outros para então podermos prosseguir. Os atravancos criados pela irresponsabilidade cultural do poder público, e aqui cultura quer dizer que a irresponsabilidade está enraizada historicamente, por infelicidade realista, são compreendidos, explicados e por fim irremediavelmente acolhidos à normalidade.
Jekill esquiva-se de outras possíveis divagações em parte pela inevitável falta de profundidade de seus comentários, sobretudo numa época dos estudos especializados como a nossa, e também pela completa descrença da validade prática destas preocupações. Cientistas políticos, sociais e econômicos têm escrito obras de real propriedade quanto às causas, conseqüências e soluções para todos os entraves do nosso poder público através de prodigiosos métodos e relevantes estudos, porém na maioria das vezes restritos à reduzidas mesas redondas no claustro acadêmico, enquanto toda esta engrenagem é traduzida às multidões somente sob o entendimento de simplórios jornalistas, dentre estes os bem intencionados e os “paus-mandado”, carregados de clichês repetidos que reforçam a sensação de normalidade de uma circunstância deformada. Nosso verborrágico e prolixo Jekill não recorreria a este eufemismo se fosse mais fácil simplesmente sublinhar os significados de criminalidade, uma palavra prestes a sumir dentro de tantas variantes e instâncias desta sociedade das conveniências. De alguma forma este ciclo está fechado e em movimento, estamos nesta condição super excitada sem, no entanto darmos o derradeiro esticão e vermos o que poderia acontecer! Depois disso Jekill emborrachado larga a garrafa de vinho vazia no chão e decide tratar de assuntos menos enfadonhos.

V Músicos profissionais

Talvez uma das reclamações menos importantes, devido ao desconhecimento geral da população quanto ao assunto ou por causa de sua quase irrelevância no bom andamento das coisas, refere-se à dinâmica de formação e atuação dos músicos profissionais. Antes de explicar seus incômodos, Jekill mais uma vez quer criar um contexto como maneira de evitar as injustiças e condenar o que lhe parece bem, tentando delimitar com precisão seu objeto de desgosto. Ao esparramar-se no velho sofá amarelo de tecido áspero olhando de lado num demorado suspiro para a janela, Jekill deixa evidente que esta sua preocupação vai mais para o descontentamento do que para a agonia.
Certa vez um jovem trombonista lhe pedira orientação sobre estudos de música em outros lugares, algumas informações a respeito de escolas e professores, como se organizar para ingressar em instituições de ensino superior e outros assuntos da mesma natureza que demandaram pelo menos quarenta minutos de um sermão voluntário e ininterrupto. Este tipo de curiosidade é fundamental para o progresso em qualquer tipo de carreira e, quando chega o dia de sermos questionados sobre estes assuntos, o nosso compromisso é da maior seriedade, pois estamos colaborando com importantes avisos, talvez até ajudando nas decisões de uma carreira bem sucedida. É com esta convicção que Jekill falou por mais de meia-hora ao trombonista que acabara de conhecer, e inclusive terminou a conversa com aquela purificada e inevitavelmente ingênua sensação de missão cumprida. Parece que qualquer um que acabe perdendo esta xeretice, este desejo desbravador pelo conhecimento, se acomoda e inicia uma seqüência de anos de mesmice, marasmo crônico e insignificância. Uma das maiores assombrações de Jekill é justamente a de se tornar insensível à estagnação, pois acredita que também seja daqueles perigosamente propensos à comodidade. Todo este auto-exame é feito com curtos e repetitivos acenos positivos de cabeça enquanto observa o mato pela janela do sótão de sua casa, para ele é complicado desligar estas observações de suas reflexões mais internas.
Ele tem aversão aos músicos que mesmo advertidos não se preocupam em levantar a barra e melhorar de referencial ou, ainda pior, àqueles que incentivam a mediocridade quando oferecem inconsequentemente a combinação entre despreparo e recompensa. Neste segundo caso é muito difícil reverter a situação uma vez estabelecida. Para ilustrar de modo bem prático tal afirmativa basta olharmos com atenção para algumas junções musicais ao nosso redor e veremos logo exemplos indecentes. Existe, por exemplo, o estudante de música que deixa antecipadamente de ser estudante ao calcular os ganhos atuais em um grupo musical qualquer versus investimentos próprios na sua formação e opta por satisfatório descartar a possibilidade de completar seus estudos, desistindo mesmo das opções mais plausíveis e aproximadas. Há aquele que, além disso, renega em altos brados os benefícios de continuar estudando, certamente recrutando para seu lado os de espírito ainda amolecido.
Uma das ocorrências mais irritantes, que torna o semblante de Jekill lastimoso, tem uma característica um tanto específica no meio musical. Por ser a música uma expressão artística, nada mais justo que nela tenham livre acesso todas as almas e que de sua infinitude possam tirar proveito e alívio todos os corações. Certo. Aproveitando-se desta democrática premissa muitas vagas em grupos que se vendem profissionalmente estão ocupadas por engenheiros, médicos e caixas de banco, ou então estudantes bancando sua formação em advocacia ao lado de músicos tentando fazer música. Aos olhos do público ou de quem arca com as despesas deste grupo tão eclético, seja através de um projeto com recursos públicos, um fundo municipal para cultura ou uma universidade, estão todos lá no palco em pé de igualdade. Na maioria das vezes em pé de igualdade até mesmo no interior do grupo, com os mesmos salários e sem qualquer espécie de hierarquização. A conseqüência espontânea disto é triste, implodindo o interesse dos estudantes e desmoralizando os músicos estudiosos. Aqui voltamos para a questão do desconhecimento, do desentendimento e da ignorância geral da população. Por mais incrível que possa parecer e para a aflição de Jekill, algo como esta escandalosa falta de critérios é a regra e não a sua exceção. A imensa maioria não faz idéia do embuste! Até agora estas reclamações têm sido as mais equilibradas e nosso acabrunhado Jekill parece estar no máximo de sua sobriedade em seu traje favorito, com a calça de sarja preta, com os braços em movimentos precisos e comedidos no seu blazer marrom.
Os comentários sobre estes músicos têm sido amenos devido aos cuidados de Jekill em ser simétrico no julgamento. Ele pondera que, nas duas principais situações de seu tormento, existe um outro lado que deixa os músicos em aperto, às vezes frente a frente com um dilema. É por isso que a maldade e o sarcasmo de antes agora são substituídos por um resignado ar de desconsolo. Os músicos que conseguem algum tipo de estabilidade trabalhando com música não podem ser tão facilmente convencidos a largarem a segurança para continuarem seus estudos em outro lugar porque isto pode ser desastroso. O projeto para matricular-se numa escola distante necessita de muitos cuidados e de outras facilidades nem sempre disponíveis. Na outra situação, este exército de amadores que lotam tantos grupos musicais oficialmente artísticos e profissionais vem somente preencher um buraco que não teria outro jeito de ser preenchido. Uma banda, orquestra sinfônica ou até uma orquestra de câmara das nossas redondezas não poderia nem sair do papel se pudesse contar somente com músicos de verdade. Para ser mais dramático e acelerar a pulsação dos leitores menos relaxados, nem mesmo um quarteto de cordas, de canto ou de sopros decente poderia brotar neste deserto. São os fatos, talvez com alguma chance de reversão pela vinda de um navio lotado de músicos do leste europeu, mas quanto a esta possibilidade teríamos que agir com presteza, antes que todos aqueles super cultos e famintos sejam anexados pela riqueza da comunidade européia. Então, a solução imediata é chamar qualquer um e, por ser trabalhoso e doloroso enxergar-se de fora, sem demora todos se convencem da autenticidade e proeminência de suas realizações musicais. Se perguntado sobre as chances de se criar uma grande e competente formação musical neste estado Jekill prontamente diria: “Nenhuma”; e completaria com o auxílio de Nelson Rodrigues[4] dizendo que o problema não é dinheiro, pois “Dinheiro há!!!”. Nota-se que o ruborescente Jekill divaga e desvia-se com extrema facilidade de seus assuntos acentuando sua tendência à amargura e à belicosidade. Diz ele com punhos e dentes cerrados que o caso é falta de desconfiômetro e vergonha para os músicos tanto quanto conhecimento e inteligência para os dirigentes públicos.
Os músicos amadores ou os profissionais não estudiosos ainda podem atrapalhar os bem intencionados de um outro jeito ao empestarem todas as frentes de trabalhos secundários, historicamente conhecidos como “bicos”, uma alternativa bastante importante na manutenção logística dos artistas. São raros os contratantes que distinguem tecnicamente os músicos em seus jantares e recepções e, apesar de não incluírem-se no rol dos trabalhos mais interessantes, os bicos podem ser providenciais em épocas de dificuldades financeiras. Felizmente ainda existe algum tipo de seleção natural que por fim beneficia um pouco os músicos mais sérios, e que a título de informação aos leitores, além de algumas apresentações peneiradas, trata-se do trabalho como professor de música. Se bem que, mesmo nas escolas ainda corre-se o risco de termos aulas do primeiro volume de violino ou piano com um professor recém ingressado no segundo. Não se via tantos músicos amadores nos palcos e ensinando desde as primeiras décadas do século XIX. Estes exemplos multiplicam-se e por causa disto Jekill dera tanta atenção ao jovem trombonista com vontade de aperfeiçoar seus estudos. No decorrer dos meses após este encontro eles voltaram a se falar fortuitamente até que um dia o mesmo jovem veio lhe questionar novamente sobre as mesmas dúvidas... Desta vez Jekill atônito resumiu a conversa dirigindo o rapaz de memória volátil aos cuidados do oráculo na internet.
Através de uma análise pragmática pode-se dizer que alvejar os músicos profissionais que conhece tenha sido simplesmente uma escolha, pois ele poderia muito bem ter se servido dos mesmos argumentos para muitas outras profissões. Aquele músico indolente que vai todos os dias bater o ponto sentado na sua cadeira, despreocupado com a inventividade e descumprindo sua promessa de excelência não pode ser diferente do funcionário público que anda devagar na sua repartição mal podendo esperar o final da jornada ou do médico que termina a consulta raciocinando mais com a lista de remédios conveniados do que com a saúde do paciente. O aspirante à bem-aventurança Jekill num raro acesso de humildade regozija-se por também não poder enxergar apropriadamente a inteireza de suas ações e pensamentos e, apesar de todas estas acusações e reflexões parecerem pertinentes, no fundo não passam de uma chatice, uma porcaria ética descontrolada e moralista. Ele respira fundo vibrando por dentro, ansioso por também estar fazendo parte de uma sociedade tão medíocre.
Engole em seco ao ser censurado por escorraçar só o que não gosta e fica irritado com a tontice de tal reprimenda, pois afinal como poderia ser convincente atacando o que gosta? Geralmente louvamos com facilidade e de olhos lacrimejantes as coisas adoradas e não o contrário. Ou então estaria ele sendo repreendido simplesmente por causa de suas patadas inconvenientes e desreguladas? As coisas de que gosta verdadeiramente são muito poucas e ainda resta um mar de desprazeres que precisam ser tolerados em paz constantemente. Decidir em revirar algumas torpezas nestas confissões é uma coisa pequena, porém é necessário que seja feita com o rigor das ações instintivas. “Não se pode esperar que eu passe a mão em todo o lixo!”, resmunga Jekill socando com os punhos o seu sofá. Para isto já existem os demagogos bem pagos que no máximo de sua ousadia fazem alguns ataques de sarcasmo brando e cômico, todos se borrando de medo para que a casa não caia. Nosso desobediente mal humorado parece querer logo deixar os músicos de lado para continuar num assunto que muito lhe agrada e que realmente pode ser a causa de urticária generalizada.

VI Infra-Estrutura Urbana

São tantas as reclamações aqui e tão violentas imprecações perante tamanhos absurdos, que quase se faz necessária uma forma diferente de organizar e categorizar estas confidências. Mas isto não será posto em prática, pois poderia comprometer a espontaneidade e os caros leitores não teriam um contato honesto com as estranhezas e choques do nosso austero, sensível e bagaceiro. Portanto tudo continuará como antes, seguindo estritamente o encadeamento das idéias, desta maneira decidida com a melhor das intenções em respeito àqueles que começam a cultivar o interesse, quiçá a curiosidade pelas teias mais puras do raciocínio um tanto arranjado de Jekill. Após este providencial intróito cabe um segundo esclarecimento bem ao estilo da metodologia acadêmica para tentar delimitar o que afinal quer dizer infra-estrutura urbana. Sem mais delongas, trata-se das ruas, pontes, urbanização geral, esgotos, segurança pública, lixo, transportes, rede elétrica e telefônica, trânsito, calçadas, limpeza, serviços públicos e burocracia, rede bancária e filas, estes tópicos como sendo o ponto de partida das mais vis execrações.
Uma das mais desastrosas decisões já tomadas na desastrosa história do nosso poder público foi a desativação da estrada de ferro. Não poderia ter ícone mais apropriado à falta de planejamento, cegueira a longo prazo e interesses privados do que a trama de negócios ocorrida naqueles distantes anos 60, ao ser decidido acabar com a linha de trem já estabelecida para um possível benefício e impulso à indústria de carros. O que vemos todos os dias pelas ruas não é nada mais que o acúmulo de irresponsabilidades e descaso com o dinheiro público iniciada há uns trezentos anos e que continua da mesma maneira, em metamorfose, com algumas besteiras somente visíveis daqui há duas ou três décadas. Não deve existir memória suficiente num computador pessoal para registrar a lista de erros, enganos involuntários, chutes, tentativas fracassadas, projetos furados, cálculos errados, sem contar com as fraudes, tramóias e outras ardilezas, produto das mentes atrofiadas aos pensamentos decentes e incapazes de acerto dos nossos dirigentes do dinheiro público. Esta classe de imperadores clássicos que misturam as coisas ao ponto de esquecerem que são funcionários do Estado e que o dinheiro entrando pelo ladrão é a representação dos cidadãos que, por sua vez, confiam em suas decisões. Nossos governadores federais, estaduais e municipais são pagos todos além do seu real valor de trabalho para ainda se sentirem como benfeitores e donos de uma infinita capacidade de concessões ao aprovarem a construção de uma ponte ou o asfaltamento de uma rua. Para autenticar o que está sendo dito aqui, batizam suas realizações com seus nomes ou de seus pais, como se eles mesmo fossem os heróis quando sim estão sendo mais aplaudidos e bajulados do que nunca por gozarem com o pênis alheio. O que Jekill não pode entender é como pode alguém homenagear-se ou então homenagear quem bem entender com empreendimentos financiados pelo dinheiro público. O mais incrível é o fato de transformar-se num favor, qualquer obra realizada por qualquer gestão, e a comunidade contemplada com 2 quilômetros de asfalto deve ser eternamente grata e lembrada com extensos festejos e placa comemorativa do heróico funcionário público que lá fez retornar um pouco do dinheiro que lhe é confiado. Claro que esta macaquice não deve ser exclusiva da nossa sociedade cucarachupiniquim, pois sentir prazer como antes descrito é certamente uma das fraquezas humanas mais evidentes. Mas como aqui as curvas são mais tortuosas e o dinheiro se perde demais, este tipo de cena ganha mais um ar de infâmia do que natural fraqueza. Apesar de ser coerente observar que os concidadãos do nordeste deste país estejam em situação mais delicada com a explícita dinastia dos Magalhães, Sarney e Collor de Melo, as nossas cidades também não escapam a este deslumbramento epidêmico dos eleitos para o poder público. Esta foi somente uma choradeira inicial. Jekill certamente não está entre a multidão babando ou se divertindo ao apertar as mãos de candidatos no meio do seu churrasco na quermesse de São Pedro.
É agradável imaginar as facilidades que teríamos com os trens. Algumas profissões como a de caminhoneiro se redefiniriam, algumas não sei quais, poderiam sumir e outras várias nasceriam. Provavelmente teríamos menos caminhões tão pesados nas estradas principais e assim elas durariam mais tempo, até os carros seriam menos com o trem em atividade. Com menos tráfego e menos chance de acidentes ganharíamos qualidade de vida. Que sonho distante seria ir trabalhar no conforto e na segurança de um trem, marcar um encontro e tomar um café no vagão restaurante. Quando se fala em trens por aqui logo se associa a uma antiguidade colonial e os super-rápidos trens bala dos países mais sérios se confundem com a irrealidade e com a ficção-científica. Assim fica difícil, sem a cogitação de trens e com poucas estradas disponíveis, o transporte aéreo com suas habituais limitações, nestes últimos meses nem tão habituais assim, e o transporte fluvial pouco desenvolvido. Locomover-se em determinados trechos rodoviários implica além de paciência em muito cuidado, um trajeto de setenta quilômetros até uma praia pode se transformar numa odisséia de obstáculos. É muito comum, por exemplo, serem utilizados os dias de maior agitação nas estradas, como os finais de semana na época das férias, para operações de recuperação da cobertura de asfalto, quando os mais distraídos acabam caindo numa armadilha de 30 quilômetros e 4 horas de atraso. Indo um pouco mais longe nesta situação conclui-se que o cerne do problema nem são os trabalhos mal planejados e em períodos inconvenientes, o mais grave é não poder contar por roteiros alternativos. Como hoje se planeja, se projeta e se decide ao bel prazer, nas décadas passadas também não conseguiam parar e analisar qual seria o cenário vindouro e as estradas projetadas parecem ser apropriadas a um tempo onde os automóveis conviviam com as charretes e carros de boi. As nossas únicas opções de transporte infelizmente também são o resultado desta burrice tradicional, os empreiteiros incultos que agora decidem aleatoriamente com pouca noção de conseqüência coletiva não fazem mais que seguir esta cartilha hereditária do poder público. Jekill alerta aos leitores que suas críticas têm se direcionado principalmente aos erros e à falta de zelo dos dirigentes com o dinheiro que não é deles, para os casos de roubo, que também possuem um amplo capítulo nas cartilhas mais antigas do nosso governo, nosso reacionário contribuinte reserva algo mais enérgico.
A insalubridade do trânsito não pode ser somente atribuída a estas decisões desnorteadas do poder público, pode-se até dizer que a nossa sociedade tem o que merece. Os jornais anunciam as mortes como um problema das estradas, da má conservação, sinalização, falta de acostamentos, etc., segundo o seu costume de bater na mesma tecla, repetindo de novo e de novo as notícias. Ao pegar um jornal de província Jekill não deixa de recordar os ataques de Thoreau[5] às manchetes repetitivas, onde a notícia de uma vaca atropelada será sempre a mesma, ou seja, torna-se uma repetição a partir da segunda vez. A opinião pública e as vítimas acabam gastando muito mais atenção na estrada em vez de preocuparem-se com os motoristas ensimesmados. Em suas viagens nosso assustadiço condutor fica pasmo de raiva ao ver que a estrada está lá, e até com alguns trechos razoavelmente construídos para suportarem certo tráfego e velocidade, porém existe uma necessidade incontrolável de ultrapassar. Nossas parcas rodovias não oferecem qualquer condição para uma viagem fluida, necessariamente temos que notar o outro e entendermos o ritmo do trânsito, ora mais depressa ora mais lento. Não se sabe se ocorre uma espécie de transe competitivo gerado pela excessiva movimentação, vulgarmente conhecida como “muvuca”, que faz uma considerável parte dos motoristas dirigirem sempre no limite de segurança, ignorando que dividem o mesmo espaço com estranhos numa ordenada seqüência de poucos segundos. É a esta total desconsideração ao outro que Jekill atribui a maior parte dos acidentes, e os condutores que não medem esforços e conseqüências para ganharem um metro de vantagem é o que ele chama de ensimesmados. Não é válido associar somente as mortes e mutilações às condições da estrada, mas também às irreconciliáveis percepções de ritmo do trânsito. A humanidade sempre teve seu excesso de contingente controlado pelas doenças, massacres, guerras ou grandes desastres da natureza e agora, Jekill atreve-se a incluir as rotineiras mortes no trânsito nessas tragédias. Até que seria em parte interessante se uma mágica ocorresse e no lugar de nossas esburacadas e desniveladas estradas surgisse uma autobahn de quatro pistas. Com os motoristas que temos os acidentes seriam fantásticos.
Jekill tem mesmo algumas idéias macabras, só para descontrair. Devido tal constatação ele evita o máximo possível se meter numa estrada, tentando não dar chance para o azar. Outra doidice contemporânea é a ininterrupta fabricação de automóveis enquanto as estradas continuam as mesmas, cada vez mais abarrotadas. Como diria a mais nova celebridade do mundo virtual, carinhosamente conhecida como a mulher do tapa na pantera:”Onde vamos parar?”. Jekill procura usar pouco o carro, não só pela alta probabilidade de um encontrão, mas também por causa das injustas quantias de imposto embutidos no combustível. Desta forma planeja bem suas saídas para não ficar quicando de um lado pro outro no meio de tanta confusão. Já teve também, em alguns momentos, a impressão de estar simplesmente realizando a função de levar o carro para um lugar e não o contrário. Como quando estacionamos num lugar e após um período determinado pela lei precisamos trocar de vaga, ou algo de uma sutileza mais individual, quando vamos a dois compromissos e sentimos a necessidade de levar o carro junto a ambos, mesmo podendo realizar a distância entre eles a pé. É nesta hora que parecemos tratar o carro como se ele fosse uma bolsa ou um outro artigo qualquer, diferente de sua concepção para transporte. Jekill gosta de ter um automóvel como qualquer um, mas não pode deixar de pensar nas variantes de sua utilização. Não pode deixar de notar o homem com o grande e sonoro carro que tenta amenizar de alguma forma sua medíocre existência, lutando contra sua insuportável sensação de invisibilidade ou o garoto, tão caro aos pais, que vai ter seu fim voluntariamente por causa de um racha.
Jekill desce até a cozinha para fazer uma xícara de café. Ele vê estes pensamentos também como as erupções de um chato, como uma fixação exagerada pelo pessimismo, mas não ao ponto de o transformarem num excêntrico misantropo. O que o diferencia de um completo desgarramento é a sua opção pelo conforto, sua interação com todas as invenções contemporâneas comuns não o permitiria uma afronta sem limites. Por isso suas observações aqui descritas podem soar tão internalistas aos ouvidos mais treinados e bem balanceados. Ele fala do interior de seus assuntos, sempre irritadiço e cheio de queixas, porém incapaz de afastar-se dos benefícios desta sociedade. Ao sentar-se na varanda com vista para o mato admite sua condição inegável de cidadão da classe média. Se ao menos pudesse ter idéias menos prosaicas como as que teve até agora...Se pudesse refletir sobre a chuva que dá seus primeiros sinais nas copas das árvores, sobre o vento insinuante ou sobre os prazeres do café. Ou quem sabe dar uma filosofada sobre os divinos mistérios da fé, do amor e da vida. Mas neste momento de olhos fechados na busca das inspirações superiores, agradavelmente isolado com o cheiro de grama molhada de seu jardim, é novamente ludibriado, e acaba por voltar seus pensamentos para os mistérios medianos da rede pública de esgoto.

“As privadas nos banheiros modernos saem do chão como a flor branca do nenúfar. O arquiteto faz o impossível para que o corpo esqueça sua miséria e para que o homem ignore o que acontece com os dejetos de suas entranhas quando a água da caixa os leva gorgolejando cano abaixo. Os canos dos esgotos, ainda que seus tentáculos cheguem até nossos apartamentos, são cuidadosamente escondidos de nossos olhares e nada sabemos acerca dessas invisíveis Venezas de merda sobre as quais estão construídos nossos banheiros, nossos quartos de dormir, nossos salões de festa e nossos parlamentos”. (A insustentável leveza do ser)

O que escreveria Kundera[6] se fizesse hoje um passeio em algumas de nossas cidades litorâneas de veraneio? Onde as Venezas subterrâneas afloram na areia da praia e nos aquecem em baforadas pelos bueiros da calçada? A lama de milhares não está escondida dos olhos e muito menos dos narizes e o superfaturamento na compra de tubos, não se sabe quantos anos atrás, tem agora seus reflexos mais desagradáveis. Nestas galerias infernais que deveriam suportar a visita de um homem mal agüentam um cachorro. Quando estes números passam para os milhões, então estas cidades perdem a compostura. A sujeira largada nas ruas tranca ainda mais os já congestionados dutos de excremento e água e, se chove muito, os incrédulos habitantes precisam nadar num medonho mar represado de nojeiras. Os canos até podem disfarçar em nossas casas, mas nossas misturas mais podres jorram nas ruas de esgotos estreitos e abertos, nos rios que vão tornando-se pântanos e no oceano, o último destino das ilhotas de imundície.
A maioria das cidades não possui uma rede de esgotos pública condizente com o volume de banheiros. Se em nossas casas logo conseguimos esquecer o disforme troço que mergulha em redemoinho descarga abaixo, andando perto das margens dos rios e nas cidades costeiras somos novamente lembrados da ineficiência dos projetos públicos e da palermice de nossa sociedade, que não evita em amontoar lixo não importa onde. Não é de se estranhar nossa marcha lenta no turismo mesmo com a natureza a nosso favor, nem do esquecimento das práticas náuticas fluviais. Jekill conta que já escapou por um triz quando navegava de bateira por um riacho afluente. Justo após ter deixado a mira de um cano carcomido e enterrado no barro entre as folhagens, um barulho semelhante ao de um monstruoso estômago estala e num segundo uma pasta escura escorrega veloz na água, fazendo com que nosso audaz explorador se contorça para não ser atingido pelos respingos.
Na praia, além dos riachos que chegam moribundos entre os guarda-sóis, existem as fontes bastardas de fedor, uns fios aquosos que aparecem algumas vezes por dia e que ninguém desconfia sua verdadeira origem. Em uma dessas nascentes da discórdia um tampão foi providenciado, como uma rolha no ânus de uma fera subterrânea que irá certamente vomitar na outra extremidade. Caminhando pelas calçadas destas cidades praianas Jekill tem a nítida sensação de estar a poucos metros acima das vísceras estouradas da besta de mil tentáculos que se alimenta em nossos lares com seus pequenos flagelos de cerâmica, tão graciosamente apelidados por Kundera. O bafo quente saído do fundo dos bueiros é a respiração deste monstro desproporcional e estraçalhado, é o cheiro de suas entranhas putrescentes. Ainda nestas cidades de veraneio, nas épocas mais movimentadas os cidadãos não podem contar com um abastecimento de água compatível, várias vezes faltando até para uma eficiente eliminação das excreções com a descarga. No último ano, apesar das projeções para uma temporada de grandes demandas, a água da rede pública desaparecia quase metodicamente. Coincidência ou não, vários caminhões pipa haviam sido adquiridos para transportar emergencialmente a água extra e, de acordo com o andar da carruagem, por um preço tão alto que poderia ser rateado entre quatro ou cinco afortunados.
Este fedor escancarado em nossas ruas vem completar a feiúra que atinge os olhos. Além de termos as ruas tortuosas e cheias de obstáculos ainda temos que lidar com o mau gosto e apelação das propagandas em outdoors, que contribuem para que a paisagem urbana se torne uma verdadeira marafunda de pôsteres, cartazes, letreiros, faixas, uma bagunça para os olhos dos motoristas e um ataque pessoal aos que se deleitam com um belo acabamento paisagístico. Passear por nossas ruas é um massacre aos olhos, é tudo tão desajeitado que quase começa a ficar bom, e isto só não acontece porque a baderna não é otimizada, como parece ser a anarquia do trânsito romano. Nosso layout urbanístico é desastroso e nossas ruas, muros e casas dão impressão de estarem cada vez mais ensebados. Prédios históricos são demolidos e no lugar surgem impensados projetos arquitetônicos, pequenas áreas verdes, como árvores num pequeno jardim de prédio público, são cortadas e no lugar aparece um remelento calçadão cheio de pontas de cigarros e chicletes mascados. A infra-estrutura subterrânea é um aleive que mal comporta nossas águas para lavar a calçada, o que diria esconder a antiquada fiação elétrica que fica dependurada como a bijuteria de uma sirigaita a cinco metros de altura sobre nossas cabeças. Jekill em pé em sua sala dá uma estrondosa gargalhada quando lembra dos ciclistas europeus que chegaram meses atrás ao porto através de um navio turístico. Queriam desbravar de bicicleta as prometidas belezas de nossa região e foram convencidos que poderiam fazer como em seu continente. Pobres lesados, quando viram o caos de nossos centros e a sandice desgovernada de nossas estradas, foram obrigados a dar meia volta. Desgoverno pode ser uma síntese adequada à nossa infra-estrutura.
Uma impressão bem geral é a de uma sociedade de diletantes e pamonhas. Os mais respeitosos sociáveis são facilmente reconhecíveis como profissionais liberais instruídos, sem graça e bem remunerados, talvez bem semelhantes aos “famas“ de Julio Cortázar[7], alguns se realizando com aquelas ridículas colunas de jornal para festas sociais além de outras jequices e masturbações iluministas. Eles são fundamentais na manutenção desta geringonça mofa e improdutiva que é nossa sociedade. Autenticam este sistema a partir do conservadorismo acomodado e não sob um olhar revolucionário, aqui num sentido transformador coletivo benéfico, ordenado e criativo, como imagina ocorrer em outras tantas sociedades nosso utópico Jekill. Ele por pouco não sucumbe à descrença total. Mas apesar de tantos erros entende que para uma sobrevivência agradável é preciso encarar suas observações somente como uma licença, uma liberdade individual e sem importância. Suas divagações são soltas e atiradas a esmo, porém esta aparente espontaneidade está carregada da mais premente necessidade. Mesmo sem dar real gravidade aos seus pensamentos ele acaba lembrando mais uma vez de Milan Kundera, agora quando o escritor esclarece suas urgências citando uma passagem de um quarteto de Beethoven. Nesta composição a música possui dois pequenos motivos que se completam como pergunta e resposta. O som grave questiona lentamente “Muss es sein?” (Tem de ser assim?) e a resposta vem certa em uma passagem do Allegro: “Es muss sein!” (Tem de ser!). Jekill observa o pequeno bosque em seu jardim através das grandes janelas de sua sala e sente-se mais calmo. Semanas atrás não pôde controlar-se e quase acabou sendo preso se não saísse correndo.

VII Esportes

Quanto mais obscuras e desconhecidas as práticas esportivas maiores são as chances de sua pureza. Arremesso de peso ou dardo, saltos ornamentais ou nado sincronizado parecem, num primeiro olhar, salvos da cobiça que envolve os resultados do futebol, corridas de carro ou das corridas de longa distância. O ocioso Jekill aprecia os esportes e admite existir uma alegria saudável em volta de sua prática, porém não pode deixar de reparar na ingenuidade patológica que cerca as competições de maior prestígio. Ele se refere às hordas de espectadores que acompanham eufóricos os progressos de seu time de futebol numa tabela de campeonato ou ficam durante três horas hipnotizados, vendo carros turbinados andando quase em círculo.
As competições mais importantes são naturalmente o foco da atenção de um número expressivo de pessoas e por isso os patrocinadores se preocupam tanto em colocarem seus nomes dentro deste circuito, em placas, camisetas ou na pintura dos carros. Além de simplesmente aparecerem, também é preciso que sua marca seja associada a uma equipe vencedora, para finalmente impulsionarem-se no imaginário e na lembrança dos espectadores-consumidores. Esta lógica é bem simples e não poderia ser de outro jeito, senão as competições de vulto mundial nem poderiam existir. Jekill incomoda-se com a quantidade de tempo e recursos despendidos com algumas destas competições por nossa sociedade. Um exemplo singelo de quanto isto é verdade vem da nossa maior emissora de TV e comunicação em massa, que dispensa significativa importância a eventos secundários, como oferecer em rede nacional espaço para campeonatos de futebol juvenil estaduais. Somente quando o espectador já se encontra prostrado num estado de letargia profunda e quase baba por inanição cerebral é que ele consegue assistir à série de gols da última rodada de um torneio estadual juvenil. Se existe lugar para algo tão irrelevante na principal emissora deste país, é possível calcularmos a quantidade de banalidades que ainda vem somar-se a sua programação e deduzirmos o grau de seriedade de nossa população.
O que mais surpreende nosso torcedor ausente é a empolgação ingênua dos espectadores que diariamente correm ávidos em busca dos resultados, fazem tabelas e comparações, comentam os perfis sociais e psicológicos traçados aos trancos pelos comentaristas e se debruçam paralisados sobre estes jogos sem fim. Mesmo quando ocorre um furo nesta ordem e um juiz é flagrado na desonestidade ou fica evidente que ele manipula o placar em benefício de um ou de outro time, os espectadores não conseguem se desvencilhar de sua rotina e continuam torcendo como zumbis capturados, mantendo a expectativa como numa oração automática. E o que dizer das torcidas organizadas que se atacam com a ira vinda em linha direta das ancestrais turbas de bárbaros? (Ou turbas romanas, para ser imparcial historicamente). Num mundo alternativo ideal não seria mal deixarem estes jovens preguiçosos e sem ocupação entoarem seus cânticos e gritos de batalha isolados dentro de uma arena de verdade, onde poderiam dar um belo espetáculo se matando e aliviando seu ódio primitivo. Neste ponto certamente já não estamos falando de esporte.
Com tantos interesses sobre as grandes competições é difícil deixar Jekill naquela gostosa cegueira que tem um verdadeiro torcedor. Às vezes ele até consegue imaginar um outro jeito para as coisas e vibra com uma jogada surpreendente, mas não pode sustentar isto por muito tempo. Pode somente agüentar alguns jogos, nada comparado à maioria que fica conectada uma vida inteira às tabelas, pontos, séries, negociatas e noivados de jogadores. Quanto ao patriotismo que está atrelado aos jogos, à vitória de um time ou de um atleta que segura a bandeira de uma nação até pode ser bom e controlar nossa selvageria xenófoba. A população do país maior já se dá por satisfeita ganhando o maior número de medalhas e assim não precisa invadir o país menor para se sentir melhor.
Além do interesse dos patrocinadores, geralmente os mega conglomerados internacionais, os resultados ainda podem ser pesados pelos apostadores. Jekill, que costumava correr os cem metros rasos antes da quinta série, sentiu uma imensa repulsa pelo desfecho da maratona na última Olimpíada. Para o entusiasmo dos oprimidos, tudo levava a crer que um pobre corredor de uma das cidades mais pobres de um país do segundo time como o nosso iria vencer a maratona olímpica. O contexto ainda trazia toda a carga de belezas e significados pelos jogos estarem acontecendo justamente nas cidades originais da Grécia e pela imprevisibilidade de tal vitória. Foi escandalosa a interrupção deste anônimo atleta quando faltavam poucos metros para a chegada, atacado por um homem convenientemente fantasiado e com a calculada intenção de atrasar o seu ritmo. Proh pudor!![8] É o que grita Jekill de tristeza à tamanha e histórica injustiça! De anônimo herói este atleta se tornou um santo condescendente ao aceitar uma medalha de terceiro lugar junto com uma rara honraria da tradição olímpica, apenas conferida a um navegador que evitara um afogamento abandonando a regata. Uma das mais bem-vindas demonstrações de demagogia se o corredor não tivesse um espírito simples demais para isto. Nosso agastado espectador não sabe o que pode ser levado a sério e prefere separar a beleza do esporte com sua força disciplinadora das propagadas e grandes competições.

VIII Pequeno comentário sobre o jardim

Na paz de sua casa Jekill aproveita a estiagem e vai colocar mais alpiste na casinhola de pássaros perto das árvores. Seu jardim é uma mistura de relaxamento e contemplação. Não suportaria a milimétrica jardinagem dos canteiros públicos, dos condomínios de classe média ou dos edifícios de consultórios com a gramínea importada e aparada com tesoura, com aquelas imitações de bonsai e as flores enfileiradas entre cactos e pedras cor de rosa. Jardinzinhos ordinários que crescem à base de cocô de poodle e outros animais de apartamento mimados à bizarrice.
Jekill tem em seu jardim um espaço para a imaginação. Não deixa chegar ao matagal que sufoca suas cores e aumenta com exagero a presença dos bichos peçonhentos, mas dá a chance para que uma erva se agarre em liberdade na cerca e que proliferem livremente as flores silvestres mais comuns. Este jardim é impreciso e de contornos misturados, pontilhado de amarelo no alto com a chuva-de-ouro, as bocas brancas e escancaradas da magnólia, as cores suaves e foscas de delicadas extremosas, uns pinheiros de natal, pés de mamão, palmito e uma pitangueira mirrada crescendo pelos lados, o chão coberto de grama, capim e marias-sem-vergonha. Outras flores e cores riscadas também povoam este pequeno mundo de Redon[9] onde Jekill passa seus melhores momentos tomando café e chocolate.

IX Incidente no banco

Quando ainda estava na praia precisou ir ao banco pagar uma pequena conta que fizera numa livraria pela internet. Como poderia ser pago no caixa eletrônico dirigiu-se à sua agência principal para ver como estava a fila naquela tarde. Na primeira tentativa acabou desistindo para não ter que esperar desde a calçada ainda abarrotada de pedestres, bicicletas e o calor que atiçava com vento e areia os humores da besta subterrânea. No dia seguinte foi com mais convicção e entrou na fila, conseguindo um lugar pelo menos dentro do banco com ar condicionado. Um novo sistema de pagamentos começa a funcionar nos últimos anos e divide as intermináveis filas bancárias com outros estabelecimentos, sobretudo com as casas lotéricas. Na prática esta estratégia não surtiu grandes resultados. O número de bancários diminuiu atrasando as filas em caixas eletrônicos, pois as pessoas não param de chegar e ainda continuam se atrapalhando com os botões e os caixas continuam travando. O grosso das filas agora está nas ruas e iniciam espremidas nos cubículos inseguros das casas lotéricas. Jekill procura conviver com esta situação reconfigurada da maneira mais compreensível, tomando filas, selecionando os horários e usando ao máximo a internet.
Ao entrar na fila do banco aquela tarde, calculou esperar uns vinte e cinco minutos até chegar sua vez. A cidade até pode funcionar bem fora da temporada, mas nestes dias de calor a sua população parecia triplicar e rompia o bom andamento do sistema. Na fila algumas pessoas moviam-se impacientes, outras estáticas com roupas de banho pareciam querer esquecer onde estavam e Jekill ali junto arrastando vagarosamente seu chinelo ouvia as reclamações em silêncio. As duas funcionárias eram açoitadas sem parar e direcionavam os clientes mais desatentos aos caixas, dando instruções de um lado para o outro. Aquele ambiente é uma espécie de antecâmara e para se chegar à parte interna do banco ainda precisava cruzar uma porta rotatória com identificador de metais. A maioria dos clientes realiza suas transações neste lugar externo bem menos vigiado, sob o olhar das câmeras de vídeo e dos vigias que observam pelas paredes de vidro lá de dentro. As pessoas neste lugar não ficam nervosas com a precariedade da segurança, mas sim por causa das filas entrelaçadas, das reinvidicações exclamadas de repente por um estranho que parece um louco de dedo em riste, por terem que ficar tanto tempo esperando para resolver algo tão fácil. Não é preciso desgastar os leitores descrevendo com mais detalhes o movimento dentro do banco e por isso passamos às impressões de Jekill.
Ele aguardava com rigidez em uma das três ou quatro filas desta grande antecâmara, cuidando para não cheirar nem encostar-se aos outros, o que tornava sua espera um tanto trabalhosa. Um pouco a sua frente tinha uma senhora ironizando com um risinho diabólico os que demoravam em perceber um caixa eletrônico livre. É espantoso como em algumas ocasiões as pessoas perdem o pudor e tratam estranhos como velhos conhecidos, fazendo piadinhas sarcásticas de mau gosto ou até mesmo, como nas brigas de trânsito, esbravejando descaradamente um repertório grosseiro de palavrões. Nestes momentos se esquece todo o protocolo e de uma hora para a outra se vê completos desconhecidos xingando suas respectivas mães, ou em casos mais extremos ainda, um cidadão que até o momento dirigia normalmente para o trabalho sai do seu carro empunhando um facão enferrujado e vai resolver a discussão decepando os dedos do motoqueiro arrependido. Jekill fica na fila de cara fechada, o que desencoraja a folga dos mais desinibidos e lhe dá condições de filtrar com atenção outras características típicas destas situações, reparando nas várias formas de enganar os outros e passar na frente. Vez ou outra surgia pela porta da rua alguém julgando ter mais pressa que os demais e já ia logo ir conversar com a funcionária, se encostando com manha no início da fila. Ou quando alguém chega e encontra um amigo esperando já nos lugares mais adiantados, assim é irresistível. Quantas vezes também ele já fora surpreendido com a falta de polidez de um estranho que, sem dó nem piedade, aproveitara um deslize na atenção e roubara sua vez.
Desta forma, estacado na fila, ia avançando pé ante pé esperando com paciência. A sua comanda poderia ser paga com o desconto direto de sua conta corrente através da leitura do código de barras, na hora seria muito rápido e descomplicado. Quando em fim chegou ao primeiro lugar da fila viu que já havia passado mais de meia hora, então a funcionária sinalizou e ele deu duas passadas até o caixa vago. Quase no mesmo instante já notou que o monitor indicava estar fora de operação e, ao se posicionar novamente na fila, sua vizinha de trás antecipou-se e serpenteou com agilidade para o próximo caixa liberado. A vista de Jekill na mesma hora escureceu e os sons sumiram. Tudo não durou mais que dez segundos. Quando se deu conta estava sendo segurado pelos braços e a mulher encolhida de pavor contra a parede. Suas mãos doíam e ainda na cabeça tinha a sensação de incríveis solavancos. Ao ver-se paralisado pelos outros clientes do banco Jekill abriu bem os olhos e num gesto violento escapou empurrando quem estava na frente, fugindo enlouquecido pela porta da frente. Sentia-se completamente arrepiado e avermelhado, devia estar com um aspecto assustador quando parou de correr no meio da praia lotada a um quilômetro do banco. Estava bufando, encharcado de suor e com sua camisa rasgada. Não podia fazer idéia como tinha saído de lá. Havia atravessado a multidão como se não tivesse ninguém, se livrado dos homens com um salto estabanado, sentia todo o corpo dolorido e a garganta arranhada. Será que tinha urrado como um animal selvagem? Seu maxilar também parecia ter sido afetado e uns dentes estavam doloridos. Jogou fora seus trapos e foi para o apartamento arrumar a mala. Sem explicar nada a ninguém deixou a cidade no mesmo dia.
Uma semana depois ligou para um de seus primos que ainda veraneava e perguntou com discrição sobre qualquer coisa que, eventualmente, ele tivera ouvido falar sobre um incidente no banco. Completou explicando que estava apenas curioso sobre estes boatos, ao que parece tirados do jornal do fim de semana. Por sorte o primo tinha ido lá há poucos dias atrás e disse que não se falava em outra coisa. Um cara completamente fora de si, com os olhos esbugalhados e produzindo sons estranhos com a garganta atacou com os dentes a bolsa de uma das clientes. Antes que ele pudesse arrancar a alça ou morder como um cachorro raivoso a mão da mulher, o agressor foi imobilizado por outras pessoas. O louco capturado se debatia até conseguir escapar pela porta dando safanões e coices em desvario. A pobre vítima logo tinha ido ao chão e em choque não conseguiu explicar o motivo de um surto tão descomedido. Depois disto Jekill ficou assombrado.
Ainda bem que seu instinto de fuga tinha funcionado e agora podia ouvir esta história bem longe. Teria que esperar no mínimo um ano para voltar lá, contando que a mulher nunca mais retornasse. Ficou sinceramente aliviado por ter realizado um ataque tão patético, talvez a explicação pela reação moderada dos outros clientes do banco. Agora, com a normalidade restabelecida está sozinho no jardim de sua casa alimentando com alpiste as rolinhas, os pardais e os canários, atrapalhando a polinização.
(Itapema e Gaspar, Janeiro de 2007)

X Virtuosismo (Homenagem)

Mesmo por vezes instável e imprevisível Jekill ainda pode ser visto como alguém desprovido de atrativos valorosos. Não possue um diferencial marcante positivo, além de seus resmungos e mesmice nada pode ser distinguido, é um ordinário por excelência. Isto o coloca no exato oposto ao virtuosismo, junto com a avassaladora maioria das pessoas, incluindo eu e, talvez, você que agora lê estas linhas. Porém, esta refletividade não o impede de identificar o virtuosismo alheio.
Antes de tudo, para que tudo se esclareça com retidão, é preciso compreender os sinuosos rodeios do virtuosismo na introspectiva alma de Jekill. Ao analisar suas confissões é impossível não lembrar do deturpado Salieri representado em Amadeus, como um medíocre consciente que não suporta o virtuosismo de Mozart. Jekill não lembra de ter tido ele mesmo uma sensação desta natureza, mas entende o sentimento e poderia citar alguns casos reais fora da ficção do cinema. Por ser o termo virtuose, mormente aplicado aos músicos, em particular ao seu domínio técnico do instrumento ou voz, é nesta profissão que uma série incontável de exemplos surge. É uma tristeza ver alunas cantoras, aspirantes a diva, disputando em desespero suas competências através da retórica ou pianistas arrebentando os tendões aos 19 anos, incrédulos com o novo preferido de seu professor, um virtuose de 13 anos. No métier musical Jekill sempre admirou o desapego dos sopros a estas questões, são os mulherengos e felizes beberrões. Mas o virtuosismo também pode ser aplicado às outras atividades humanas e, neste momento para entendermos Jekill em sua inteireza, o seu contrário é o lugar comum, o sem graça, o mediano e não o vício ou a maldade. O virtuosismo deve ser entendido agora como uma extrema facilidade de atingir um objetivo qualquer. A coerência imaculada e absolutamente eficiente de ações de um indivíduo ou grupo até atingir uma meta bem definida. Estas improvisadas definições sugerem um virtuosismo genérico e torna possível que sejam incluídas as ações do bem e do mau, compreendidas assim através do consenso mais tradicional. Desta forma, o virtuosismo se coloca para além destas questões, ou seja, uma ação virtuosística pode ser boa (consenso tradicional) ou ruim (também consenso tradicional). Para que nosso cadete da filosofia não se perca nos abismos do conhecimento e denuncie seu quase vazio reservatório epistemológico, um exemplo concreto e direto se faz forçoso: quase todos concordam que um crime é uma coisa ruim (consenso tradicional), porém um crime com sucesso total, por exemplo, um roubo de banco onde os ladrões conseguem escapar ilesos com 1 milhão de reais, é um golpe virtuosístico. Tão virtuosístico quanto o sucesso de uma bondosa expedição a uma montanha ou um concerto dificílimo executado com brilhantismo por um violinista.
Sem se preocupar muito com o virtuosismo das coisas ruins, por causa da inexorável rede de acontecimentos indesejáveis a incógnitos terceiros, Jekill se extasia com o virtuosismo do bem, segundo o consenso tradicional. Apesar de apresentar alguns traços claramente patológicos, sobretudo latentes em sua desmesurada prolixidade, Jekill não poderia deixar de admirar, como tantos outros, a inspiração gerada pelo virtuosismo verdadeiro. E este virtuosismo que as pessoas querem copiar, querem estar próximas, querem falar que viram ou que conhecem alguém que viu, este é o virtuosismo de Heráclito: um só é mil se é o melhor.

A memória jamais falhará após a compreensão daquele sistema fechado, real e impenetrável! Um trovão que se aproxima por terra e de repente surge pelo caminho cercado de mato. Está materializado em uma arma metálica pontuda, polida ao extremo, apertada e dura. É um avião brilhante que balança ritmado enquanto avança pela pista no final do aeroporto, só querendo chegar e descansar. O som é paralisante e tem o efeito de mil homens! Em um minuto aparece o seu piloto atarefado e com um amor incalculável por saber que está atolado até as últimas tripas no virtuosismo da aviação! Queremos estar com estes virtuosos, eles estão no melhor que podemos desejar. Depois deles é só imaginação.
O virtuosismo é inspirador. Ele pode estar em atos isolados, como em alguns momentos brilhantes de qualquer pessoa, interpretados como uma maré de sorte, como também pode ser uma constante vitalícia. Jekill não se ilude e sabe que o virtuosismo está, antes de tudo, na simplicidade. A complexidade será uma conseqüência quando necessária. Este fato disfarça muitos virtuosos que quase não são percebidos e podem estar muito próximos. Um homem que seja coerente em seus atos e que se mantenha atento ao longo da vida é um virtuoso e pode inspirar seus filhos. Esta alegria é contagiante e tudo fica mais fácil. A leveza do ser é uma delícia!
Jekill entra tranquilo em casa pela porta dos fundos e olha para as fotos arrumadas sobre a cômoda da sala. Dá um sorrisinho e se larga no sofá aliviado por saber disso. A alegria é contagiante. Podemos simplesmente copiar esta alegria. Qual o sentido de complicar o que pode ser simples e agradável? Este virtuosismo hereditário pode ser percebido em decisões como respeitar o ritmo das coisas, o famoso “andar da carruagem”, respeitar sem deixar de progredir. Este esforço constante contra o comodismo, mas sem se entregar ao flagelo, é uma atitude copiosamente virtuosa!
Ainda neste campo está o progresso das idéias, a ousadia de novos pensamentos, que a primeira vista parecem incongruentes, mas que aos poucos vão abrindo uma porta de riquezas maravilhosas. A altivez para encarar o conhecimento e a verdade não suporta senão o virtuosismo. A busca e a aquisição do conhecimento implica em uma outra habilidade, parente da diplomacia, a sensibilidade de administrar os indivíduos entre eles. Esta aptidão é sutil, quase não se percebe, mas quando olhamos atentos por cima do nosso ombro certamente encontramos alguém entretida generosamente nesta tarefa.

Aos poucos, nosso caseiro observador percebe-se um tanto virtuoso. Afinal, perceber o virtuosismo demanda uma dose de virtudes, pelo menos uma atenção especial ao que os outros têm de melhor. Sentado no sofá, ouvindo um jazz lento emoldurado pela surdina de Gillespie, cheirando um Shiraz, Jekill finalmente fica contente em ter pensamentos mais delicados. Como eles são valiosos!
(Recife, Abril de 2009)

Leandro Gaertner
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[1] “Obsessão” de Odilon Redon.

[2] O personagem Jekill faz referência ao livro O Médico e o Monstro (título original em inglês:The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde) de Robert Louis Stevenson publicado em 1886. (Fonte: Wikipedia)

[3] Não existem provas seguras acerca da identidade de Petrônio, mas é hoje quase certo que se trata de Gaius Petronius Arbiter ou Titus Petronius (c.27-66 d.C.), distinto frequentador da corte do imperador Nero e autor de Satiricon. (Fonte: Wikipedia)

[4] Nelson Falcão Rodrigues (Recife, 23 de agosto de 1912Rio de Janeiro, 21 de dezembro de 1980) foi dramaturgo, jornalista e escritor brasileiro. (Fonte: Wikipedia)

[5] Henry David Thoreau (12 de julho de 1817, Concord, Massachusetts - Concord, 6 de maio de 1862). Foi ensaísta, poeta, naturalista e filósofo americano. (Fonte: Wikipedia)

[6] Milan Kundera (1 de abril de 1929, em Brno, Tchecoslováquia). O escritor tcheco vive na França desde 1975, sendo cicadão francês desde 1980. (Fonte: Wikipedia)

[7] Julio Florencio Cortázar (Bruxelas, 26 de agosto de 1914 - Paris, 12 de fevereiro de 1984), foi um escritor argentino. (Fonte: Wikipedia) É uma referência ao livro Histórias de Cronópios e de Famas.

[8] Expressão latina: Ó vergonha!

[9] Bertrand-Jean Redon (Bordeaux, 20 de abril de 1840 - Paris, 6 de julho de 1916), conhecido como Odilon Redon. Foi pintor e artista gráfico francês, considerado o mais importante dos pintores do Simbolismo. (Fonte: Wikipedia)

Flauta - Um pequeno artigo jornalístico

Certa vez um jovem indiano me afirmou com todas as letras que a flauta é originária de seu país, a Índia. Algum tempo depois conheci uma chinesa que veio morar e estudar música no Brasil e, na nossa primeira conversa, ela também atribuiu ao seu país a invenção da flauta. Esta experiência nos leva a uma questão: afinal, o que é uma flauta? Se imaginarmos um tubo oco, perfurado com vários buracos ao longo de sua extensão e com um orifício na extremidade onde podemos soprar e produzir um som, estamos imaginando uma flauta. Esta é a descrição básica de muitos instrumentos musicais, que são encontrados em várias culturas do mundo e que acompanham o homem desde os primórdios da humanidade. Uma descrição tão pragmática quanto esta serve para entendermos que a flauta não possue um inventor específico, nem um país ou data específica de surgimento, é um instrumento musical da família dos sopros que pode ser encontrado nas mais variadas formas e vem se transformando há milhares de anos. Já foram encontradas flautas de osso feitas há cerca de 9 mil anos atrás!
O que se conhece hoje como flauta, mais especificamente na cultura ocidental européia, pode ser organizado em dois grupos: a flauta doce e a flauta transversal. A flauta doce ou flauta de bico é segurada verticalmente e soprada através de uma espécie de apito (bisel) encaixado na extremidade. É um instrumento que foi muito usado na música européia renascentista (por volta dos séculos XV-XVI) e barroca (séculos XVII-XVIII) e hoje surge principalmente na prática da música destes séculos e também como instrumento pedagógico na iniciação musical. Muitos cursos universitários adotaram a flauta doce como instrumento obrigatório na formação de professores de música, por causa do seu peso, que facilita o seu manuseio por crianças, e o baixo preço. Uma boa flauta doce feita de plástico pode ser encontrada por menos de R$ 25,00.
A flauta transversal é totalmente oca e segurada horizontalmente. O flautista produz o som soprando por um orifício feito no corpo do instrumento, próximo da extremidade, de um jeito parecido como quando sopramos pelo gargalo de uma garrafa. Como na flauta doce, uma melodia é feita pela ação dos dedos que tampam os pequenos orifícios no corpo do instrumento em dezenas de combinações e pela variação de velocidade do ar dentro do tubo. Até a primeira metade do século XIX a flauta transversal européia era feita de madeira, principalmente de ébano. Com o aumento gradativo do número de músicos na orquestra, a partir do Romantismo na música (por volta do século XIX), notou-se que a velha flauta de madeira não tinha volume suficiente para competir com a grande massa sonora. Para resolver isto, o construtor de instrumentos Theobald Boehm (1794-1881) desenvolveu uma flauta de metal (com uma liga de ferro, níquel e prata) e com chaves, ampliando assim a extensão do instrumento (quantidade de notas), a agilidade e o volume sonoro. A flauta transversal usada hoje em dia nas orquestras e bandas sinfônicas, em grupos de Choro e de Jazz segue ainda este modelo de Boehm, com algumas melhorias que foram feitas ao longo do século XX.

Para saber mais entre em contato com um professor de flauta, também na internet pesquisando na Wikipedia ou em livros.
Leandro Gaertner
Itapema, Fevereiro de 2008.

DIÁRIO - GALOS NA CABEÇA

A primeira coisa que pensei ao acordar naquele dia foi no estranho zumbido em meu ouvido esquerdo. Lembrava que tinha ido dormir ainda com uma sensação de gripe, com o corpo dolorido e a cabeça comprimida, esperando me levantar melhor. De fato me sentia bem, mas com um agudo e ininterrupto apito no ouvido esquerdo, bem audível nas primeiras horas da manhã no pequeno hotel em frente à rodoviária. Ao ligar o chuveiro vi que os sons estavam realmente estranhos, o barulho da água estava de alguma forma misturado, como os sons de conversa que ecoavam pelo corredor do hotel e ricocheteavam em minha cabeça como ecos.
Quando saí para a rua pude perceber a qual ponto estava minha percepção, não conseguia identificar com precisão qual a exata direção dos sons que me chegavam. Notei que os agudos estavam mais alterados quando passei por um grupo de pessoas e as vozes das mulheres se deformaram enquanto as dos homens ficaram mais estáveis, apesar de também apresentarem certo grau de estranheza. Continuei andando pela calçada do mercado público ao lado do hotel, muito atento à infinidade de sons que uma movimentada cidade possui e nesta hora já não estava mais ouvindo o apito agudo, só um grande emaranhado de sons que, apesar de parecerem bem contornados, tinham um momento impreciso que lembrava um empilhamento de ecos. Fiquei impressionado com o fenômeno e o atribui ao mal estar e ao princípio de febre que tivera dois dias antes, talvez por causa de uma incomodação, imaginando neste instante o lado esquerdo da minha cabeça todo entupido. Ao assobiar uma notinha aguda fiquei ainda mais surpreso, pois mesmo estando certo de emitir apenas um som de cada vez no meu assobio, eu estava ouvindo dois sons de alturas distintas ao mesmo tempo. Fiquei impressionado ao produzir um dueto que só poderia ser ouvido na minha cabeça! O ouvido direito tocava o som real que eu assobiava enquanto o esquerdo um outro som mais grave e ainda, quanto mais agudo o assobio mais nítida ficava esta nota grave ouvida no lado esquerdo entupido. Caminhei alguns metros percebendo esta audição dupla como um estéreo de aparelhos diferentes e estranhando muito os sons agudos vindos de longe.
A coisa ficou séria quando um galo no mercado público começou a cantar e tive dúvidas da sua exata localização, mesmo vendo ele todo empertigado cinco metros a minha frente; na verdade também tive dúvidas se era aquele galo que cantava ou ainda, se vários galos cantavam ao meu redor. Até cheguei a pensar que um galo poderia emitir um canto onipresente que me encobria por inteiro, com o som ribombando na minha cabeça já em diversas alturas, intensidades e velocidades, vindas de todos os lados e de cima, e era isso que me pareceu naquele momento a coisa mais aceitável! Passei pelo galo olhando de lado e sugando restinho do chocolate em caixinha que gosto de beber como desjejum, o assobio continuava lá com duas alturas diferentes, uma em cada lado da cabeça.
Ao passar a pé por trechos mais silenciosos da cidade comecei a estudar o que estava acontecendo, assobiando e prestando atenção nos sons que se formavam. Após algumas tentativas me pareceu que ouvia no lado esquerdo algo como uma “sétima menor” abaixo do som do lado direito, formando um intervalo harmônico. Para quem não souber do que se trata um intervalo harmônico sonoro de sétima menor basta ir até um piano e pressionar a tecla Si bemol simultaneamente com a primeira tecla Dó à esquerda; mais ou menos este feito se produzia em mim quando assobiava. Será por que afinal a gripe foi gerar esta dissonância e não um outro intervalo qualquer? Já estava rindo e imaginando uma modinha caipira em terças paralelas sendo desenhada só na minha mente.
Mais adiante um carro usado como propaganda de um candidato passou tocando um daqueles típicos jingles e me assustou de vez. A música que ouvia não fazia o menor sentido, parecia ter sido gravada por instrumentos completamente desafinados, ou falando mais tecnicamente, parecia que cada instrumento e cantor do jingle estavam numa tonalidade diferente, para algum músico aquilo talvez fizesse algum sentido se pensasse em politonalidade. Ouvir música pela primeira vez nessas condições me desesperou! Como ficaria o meu futuro como músico, ainda como tocador de um instrumento tão agudo como a flauta? Na mesma hora já pensei em estudar trompa. Ainda bem que estava no mestrado e gostando de algumas elucubrações teóricas... Mas não poder mais tocar ou ouvir música decentemente?! Eu bem poderia compor algo totalmente estranho aos ouvidos normais, como um novo sistema musical baseado em sétimas menores, mas que soasse tradicional e confortável para mim. A certeza de que esse novo sistema fosse coerente dependeria exclusivamente do seu resultado “normal” para a minha percepção. Se para mim soasse tradicional e reconhecível, o novo sistema teria alguma validade; mesmo soando desconexo para os antigos ouvintes ele ainda teria uma construção fundamentada e esta seria a sua importância.
Resolvi ir ao cinema do shopping (como se existissem muitas opções) e um pouco antes de entrar aconteceu novamente o mesmo efeito do galo, só que agora com uma criança aos gritos, o que quase me obrigou a proteger os ouvidos com as mãos e a sair correndo. Fui ver um excelente filme de ação americano e mais uma vez minha audição me surpreendeu, desta vez com o teminha romântico do casal principal, em andamento lento e lânguido tocado ao piano. O divertido foi ver um filme de investigação tipicamente de Hollywood (Slevin), com muita violência, cenas rápidas e final feliz com um tema musical central igual ao daqueles filmes alternativos do cinema europeu, onde a trilha parece estar rodando num disco de baixa rotação ou está danificada pelo tempo, criando uma variação instável das alturas, uma ambiência de filme antigo. Engraçado uma superprodução com Bruce Willis com trilha de filme B. Depois da sessão foi até um alívio voltar para a rua a caminho do campus do meu curso.
Um pouco antes de entrar numa sala de aula com piano já tinha notado que o intervalo entre os ouvidos não era mais o mesmo, ou pelo menos foi essa minha impressão, parecia ser agora uma oitava justa. Ao teclar o piano vi que tudo ainda soava embaralhado e que antes de iniciar a aula teria duas horas para tomar café, terminar a análise do “Der Dandy” do Pierrot Lunaire e ter minha orientação para a dissertação. Durante a conversa de mais de uma hora com minha professora nem mesmo tive tempo ou oportunidade de lhe contar sobre minha alteração auditiva, nem mesmo percebi quando ou como exatamente os dois ouvidos parecem ter se equalizado. A conversa foi tão intensa e decisiva que esqueci dos galos, da sétima menor ou oitava justa e, finalmente, vislumbrei meu objeto de pesquisa boiando no referencial teórico.
O dia seguinte ainda restava um pequeno e agudíssimo apito no lado esquerdo e em tudo ainda restava uma tonta confusão, apesar de não ter mais o intervalo entre os ouvidos. Como comemoração à quase volta da normalidade e com muita vontade de tocar, sentei num banco da praça que mais gosto e toquei.

Leandro Gaertner - Gaspar, Setembro de 2006.

DIÁRIO - LES FOURMIS CHEZ NOUS ou AS FORMIGAS DE CASA



É muito comum comparar o modo como as pessoas agem às formigas. Hoje de manhã também resolvi fazer isto, escrevendo, afinal escrever é um exercício saudável e preciso me manter treinado para escrever minha dissertação de mestrado. Mesmo que minha dissertação não seja sobre as formigas e sim sobre a análise musical para intérpretes.
Nas manhãs que fico em casa gosto de levantar quando o sol já está bem alto (geralmente saio da cama quando o sol já está bem alto) e tomar meu café com um docinho qualquer na varanda de trás, apreciando o movimento do jardim. Nos últimos dias tenho observado com atenção uma longa fila de formigas que passa na extremidade da calçada de cimento, próximo ao gramado, bem em frente onde fico sentado. Elas saem do canteiro à minha direita e vão cambaleantes com uns pedacinhos de mato verde até uma rachadura na calçada na parte de trás da casa distante uns vinte metros, para elas uns 4 quilômetros. Fico pasmo olhando as trombadas que dão umas nas outras, elas caminham, ou correm, sempre muito próximas, chocando seus matinhos muito maiores que elas e que, apesar de balançarem muito, raramente caem.
Ainda no início de sua jornada, a fila de formigas tinha que desviar de uma pedra numa manobra desconfortável aos olhos, torcendo todo o corpo massacrado pelo pedaço enorme e instável de mato. Todo aquele aparente esforço me sensibilizou e resolvi remover a pedra do caminho, num ato que foge à minha conduta padrão que é de tentar não alterar o desenrolar espontâneo da vida natural. É incrível que mesmo morando numa casa confortável, tendo carro à gasolina e acesso a praticamente todos os confortos modernos, como longos banhos de banheira, ainda tenho essa sensação de que posso ser de alguma forma importante ao tomar cuidado com as coisas ao meu alcance ou pensar em não alterar a ordem natural dos eventos. Essa condição me legitima como membro ativo e apaixonado em um dos mais bem sucedidos e contraditórios movimentos sociais da humanidade, a ecologia. Bem sucedido em dois sentidos, primeiro pelo grande poder de adesão em massa e segundo, pelos resultados; aqui em casa na minha infância só se ouvia pardais (passarinhos urbanos importados da Europa) e raramente um pássaro canoro local de porte, mas agora não é difícil ter a companhia de sabiás laranjeiras e cinzas ou ver vôos rasantes de tirivas barulhentas. Parece que nem o Bali conseguiu mais convencer seu filho a ir numa caçada...
Ao transgredir e tirar a pedra do caminho das formigas, constatei surpreso que elas realmente não se orientam pelos mesmos meios convencionais dos humanos. Elas continuaram desviando seu trajeto, agora de um obstáculo imaginário! É claro que ao tratar o espaço vazio, outrora ocupado pela pedra, por “obstáculo imaginário”, eu estou agindo com reservas, como também atribuo com reservas uma certa incredulidade às formigas ao estacarem por um segundo neste lugar e se desviarem penosamente sem necessidade. Isto, porque esta incredulidade é minha, que estou limitado às minhas próprias formas de orientação, como a visão, a audição, o tato e a fé, e não consigo penetrar no instinto orientador de uma formiga. Afinal, as formigas não podem ver ou ouvir como nós, nem ser crédulas ou incrédulas, pelo menos espero que não. Alguns textos nestes livros denominados de “auto-ajuda” e outras destas espiritualidades baratas vivem fazendo metáforas com tudo o que se possa imaginar, transpondo com uma crueza simplória milhares de eventos naturais à natureza das ações humanas. Se existe alguma transposição que possa ser feita ela deveria ser interna e codificada. É dessa maneira que gostaria de defender as formigas!
Após o meio-dia a fila da contramão começa a ser mais numerosa. Algumas formigas ainda fazem o caminho de ida segurando o matinho, mas o trânsito vindo do sentido oposto é mais intenso e causa mais encontrões. Durante o tempo que fiquei observando este vai e vêm notei uma formiga excepcional, extraordinária. Mesmo antes do meio-dia ela já vinha na contramão em direção ao canteiro, e ainda vinha carregando o seu matinho. Acho que nunca poderia saber o que estaria acontecendo com esta tonta desorientada, ou genial, ou preguiçosa formiga. Fico agora procurando com bom humor mais alguma dessas, mas todas estão voltando muito depressa e sem carregar nada. É bem possível que ela tenha chegado ao canteiro e dado meia volta, começando tudo de novo. Num outro dia pode ser que eu acompanhe melhor alguma dessas curiosas e aparentemente incrédulas criaturas.

Leandro Gaertner - Gaspar, Setembro de 2006.

Escrever em blog

Escrever é fácil! Escrever para publicar em blog é mais fácil ainda! Na verdade, é uma delícia e estou fazendo isto pela primeira vez agora, neste exatíssimo momento, 00:59 minutos do dia 10 de abril de 2009. Não terá concurso, nem banca examinadora, não precisa pensar em nada profundo, mas se quiser pode. Pode tentar escrever que nem Hermann Hesse, Homero (hehe), pode fazer neologismos, pode até tentar ser um Pamuk...vale tudo. Absolutamente nada é proibido, pode usar o blog para se fazer sério, se preocupar com o Brasil, com o mundo mesmo, Estados Unidos, crise, Satiagraha e outras tagarelices efêmeras, pode meter pau na aleatoriedade, etc...Simplesmente, não importa! É maravilhoso! E só agora, mais de 6 meses com um blog foi cair a minha ficha, acho que só agora minha mente estava livre para isso. Todos os textos que anexei até então foram arroubos despretensiosos e auto-terapêuticos, porém ainda mais auto-terapêutico é deixá-los online para qualquer pessoa. Escrever para ser lido é um alívio e o blog um marco histórico.
Ainda tenho uns textos para anexar, uma historinha meio mal humorada, porém divertida, que vou colocar para ficar de consciência limpa (Dr.Jekill na classe média) e outras mais curtas que me deram igual bem-estar. De resto irei tentar escrever em blog da maneira mais livre e prazerosa o possível, elogiando, xingando, e talvez ele será um exercício contínuo da escrita, um alívio, um contato próximo com pessoas amadas distantes, um convite a fazer novos amigos.
Pelo que entendi uma das coisas mais importantes em blog é uma escrita mais rápida, quero dizer, escrever menos, então os meus textos maiores fogem um pouco a esta regra, se é que podemos assim chamar uma práxis. Outra coisa normal dos blogueiros é a especialização temática, coisa que tentarei evitar. Pelo menos aqui EU mesmo serei o tema a ser especializado, com todas as bobagens preconceituosas, lógica retorcida e certamente alguns acertos. Talvez uma boa opção seja, pelo menos penso isso agora, ficar num meio termo entre o mundo público chatinho da maioria, que mal consegue escrever e luta com o português cada vez que tenta deixar um depoimento no Orkut e o mundo dos colunistas oficiais, que escrevem metodicamente e vivem disso. Entre estes dois mundos acho que existe um vácuo confortável, onde posso ficar bem à vontade e por aí que irei, até mudar de idéia. Pois, como quero crer, blogar não tem regras! Resumindo, é um ótimo lazer para gente que pôde estudar de verdade (me refiro a acabar a faculdade, fazer mestrado e ainda ter expectativas com doutorado) e tem algum tempo de sobra como eu, como também são ótimas as revistas especializadas em fofoca e novelas para as pessoas com ensino fundamental e as revistas pseudo-científicas e livros de auto-ajuda para as pessoas com o pezinho num desses cursinhos de terceiro grau de 200 reais.
Volto a frisar que escrever é muito bom! Organiza as idéias e pode servir como memorial no futuro. É muito gostoso achar um velho diário, ler umas cartas de 10 anos atrás, talvez até mais legal que ver fotos antigas. Espero reler estas linhas quando ficar velho e me divertir... se chegar lá. E quero reler um estilo livre, um molho sangrento à cabidela de Thoreau, Hugo, Hesse, Debussy, Mozart, Bach, Redon, Hopper, Fantin-Latour, Pixinguinha, Villa-Lobos, Parker & Gillespie, Kubrick, Dawkins..... Antes de terminar, pensei numa outra coisa sobre o que não serei neste blog Sonho de uma Flauta.... tentarei não me poupar como se poupam os colunistas intelectuais (e são mesmo intelectuais) que são fantásticos e astutos, são críticos de cinema, de música, analistas de economia, colunistas sociais (estes bem menos intelectuais), são incríveis e fazem sair leite de pedra, porém se poupam sempre (talvez se poupam tanto que não fazem mais nada além de escrever suas colunas). Meus esforços irão ao sentido da sinceridade, senão como chegarei a me comunicar com minhas pessoas amadas? Para tanto nem eu serei poupado.

Leandro Gaertner
Recife, 10 de abril de 2009.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Espirais do Tempo


















Resumo de História da Música

Resumo de História da Música (dos Gregos ao Séc.XIX)
Organização: Leandro Gaertner (legaertner@hotmail.com)

Baseado na obra:

GROUT, Donald J.; PALISCA, Claude V. História da música ocidental. Lisboa: Gradiva, 2007.


1
A situação da música no fim do mundo antigo

A situação da música no fim do mundo antigo
• 312 d.C.: o imperador Constantino fez do cristianismo a religião da família imperial.
• 395 d.C.: divisão do Império do Oriente (Bizâncio) e Império do Ocidente (Roma).
• 476 d.C.: quando o último imperador do Ocidente foi deposto, os alicerces do poder papal estavam já tão firmemente estabelecidos que a Igreja se encontrava em condições de assumir a missão civilizadora e unificadora de Roma.

A herança grega
•Ensinamentos, correções e inspiração nos mais diversos campos de atividades (diferença entre música e outras artes).
•Reconstituição de cerca de quarenta peças ou fragmentos de peças musicais gregas.
•Grécia e Roma: baixos-relevos, mosaicos, frescos, esculturas, literatura.
•Desaparecimento das tradições da prática musical romana no início da Idade Média (início da Igreja Cristã).
•As teorias musicais antigas estiveram na base das teorias medievais.
A música na vida e no pensamento da Grécia Antiga
•A música como origem divina, poderes mágicos... (Ex: mitologia e antigo testamento).
• Culto de Apolo (lira) e de Dioniso (aulo - este instrumento associava-se ao canto de certo tipo de poema – o ditirambo).
•Acompanhamento nas grandes tragédias clássicas – obras de Ésquilo, Sófocles, Eurípides.
• Desde o séc. VI a.C. tanto a lira como o aulo eram tocados como instrumentos independentes, a solo (concursos, festivais instrumentais e vocais, proliferação de músicos profissionais).
•Música monofônica e quase totalmente improvisada, com a sua melodia e o seu ritmo ligado intimamente à melodia e ao ritmo da poesia (com instrumentos acompanhadores).

Música e Filosofia na Grécia
•A música grega chegou à Idade Média, sobretudo através da teoria e não da prática (sem continuidade histórica musical).
• Música – forma adjetivada de musa.
•Pitágoras (c.500 a.C.), Aristides Quintiliano (séc. IV a.C.), Platão (Timeu e República, escrita em c.380 a.C.) - música e aritmética.
• Cláudio Ptolomeu (séc. II d.C.) - intervalos musicais e sistema de corpos celestes.
• Música e Poesia.

A Doutrina do Etos
•A música como uma força capaz de afetar o universo.
•Numa fase posterior, passaram a sublinhar-se os efeitos da música sobre o caráter e a conduta dos seres humanos. Doutrina da imitação de Aristóteles, a música representa as paixões ou estados da alma.
•Platão e Aristóteles: sistema público de educação cujos dois elementos fundamentais eram a ginástica e a música.
•Na doutrina grega do Etos existe uma divisão genérica em duas categorias: 1- música que tinha como efeitos a calma e a elevação espiritual (culto de Apolo, formas poéticas correlativas a ode e a epopéia - lira); 2- música que tinha como efeitos a excitação e o entusiasmo (culto de Dioniso, o ditirambo e o teatro - aulo).

O sistema musical grego
•A teoria musical grega compunha-se tradicionalmente de sete tópicos: notas, intervalos, gêneros, sistemas de escalas, tons, modulação e composição .
•Distinção entre dois tipos de movimento da voz humana: o contínuo e o diastemático.
• O bloco fundamental a partir do qual se construíam as escalas de uma ou duas oitavas era o tetracorde (formado por quatro notas, abarcando um intervalo de quarta – consonância – Pitágoras).
• Havia três gêneros de tetracordes: diatônico (mi,ré,dó,si); cromático (mi,dó#,dó,si); enarmônico (mi,dó,dób,si – quartos de tom ou próximos do quarto de tom).
• Dois tetracordes podiam combinar-se de duas formas diferentes para formarem heptacordes (sistema de sete notas) e sistemas de uma ou duas oitavas.
•Aristóteles já apontava diferenças fundamentais entre os modos musicais.
A música na antiga Roma
•Os domínios gregos tornam-se uma província romana em 146 a.C.
• Ritos religiosos, música militar, no teatro, diversões particulares,educação. Do indivíduo culto romano se esperava que soubesse música, como também falar e escrever em grego.
•Principal herança: melodia ligada às palavras, melodia improvisada, um sistema de formação de escalas com base nos tetracordes, uma terminologia musical.

Os primeiros séculos da igreja cristã
•Influência das sociedades mistas orientais-helenísticas do Mediterrâneo (rejeição de alguns aspectos: grandes espetáculos públicos, festivais, concursos, representações teatrais, música instrumental: ligação com o passado pagão).
•O canto dos hinos é a primeira atividade musical documentada da Igreja Cristã. (Mat., 26,30; Mar., 14,26;).
•Atribue-se ao Papa Gregório (590 – 604) e a seu sucessor, o Papa Vitaliano (657 – 672), a organização de um repertório de cantochão, que mais tarde será difundido por toda Europa por imposição de Carlos Magno (fundador do reino franco e coroado em 800 chefe do Sacro Império Romano).

Canto litúrgico e canto secular na Idade Média
•Cantochão (Canto Gregoriano): versão da Abadia de Solesmes (fim do Séc.XIX - Séc.XX).
•Concílio Vaticano II(1962-1965) – línguas vernáculas.
•Cantochão: instituição histórica, repertório de concerto, música cerimonial ainda em prática.

Liturgia Romana
•Ofícios ou Horas Canônicas (codificados na Regra de São Bento c.520).
-matinas (antes do nascer do Sol) (alguns dos mais antigos cantos da Igreja)
-laudas (ao alvorecer).
-prima (6h).
-terça (9h).
-sexta (12h).
-nonas (15h).
-vésperas (ao pôr do Sol) (desde cedo já admitia canto polifônico).
-completas (geralmente após as vésperas).
Missa
•Serviço mais importante (Ite, missa est)
•Elementos da missa foram entrando na liturgia em momentos e lugares diferentes.
•Liturgia da palavra e da eucaristia.
•Final do Séc.VI: cânone da missa definido.
•Missal de 1570 (Papa Pio V).
•Próprio e Ordinário.
•Arranjos polifônicos a partir do Séc. XV.
•REQUIEM AETERNAM DONA EIS, DOMINE. (Daí-lhes Senhor, o Eterno Repouso). Missa sem o Gloria e sem o Credo, com Dies Irae.

Estrutura da Missa

PRÓPRIO
1-Intróito 4-Graduale 5- Aleluia 7-Ofertório 10-Comunhão

ORDINÁRIO
2-Kyrie 3-Glória 5-Credo 8-Sanctus 9-Agnus Dei 11-Ite Missa Est

Formas de Cantochão
•Tons de Salmodia: duas frases equilibradas (como duas metades de um versículo de salmo) - antífona>salmo (primeira metade)>salmo (segunda metade)>antífona.
•Forma estrófica (hino).
•Forma livre.
Detalhes do Cantochão
•Pauta de 4 linhas (sendo uma designada primeiramente por clave de Dó ou Fá – altura relativa).
•Neumas: -todos com a mesma duração (o ponto duplica).Neumas ligados correspondentes a uma única sílaba são cantados ligados. Traço horizontal prolonga o neuma.

Método de Solesmes: notação usada atualmente baseada na notação do Séc. XIII

Cantochão
•Manuscritos conservados a partis do Séc. IX.
•Similaridade (fonte comum – S.Gregório – organização de livro).
•Lenda da cópia do corpus do cantochão (Pomba-S.Gregório-Escriba).
•Como o cantochão pôde ser fixado antes de existir a notação?
•Monarcas francos (unificação dos reinos poliglotas - Roma, o melhor caminho).
•Notação: Primeiro auxiliar a memória, para depois registrar os intervalos com precisão (após a existência de uma uniformidade da interpretação improvisada; foi tanto conseqüência desta uniformidade como um meio de a perpetuar).

Tipos de Cantochão
•Textos bíblicos ou não bíblicos.
•Bíblicos: Prosa (ofícios, epístola, evangelho); Poético (salmos, cânticos).
•Não bíblicos: Prosa (Te Deum, antífonas); Poético (hinos, sequências).
•Antifonal (coros alternados); Responsorial (solo alterna com coro); Direto (sem alternância).
•Silábico; Melismático; Neumático.
•Principal propósito: pôr o texto em evidência.

Momentos da Missa
•Antífona: cantada por um grupo de cantores, de modo são silábicas ou ligeiramente ornamentadas, movimento por graus conjuntos.
•Responsório: um versículo curto cantado pelo solista e repetido pelo coro antes de uma oração ou de uma breve passagem das escrituras.
•Tracto: cânticos longos e melismáticos.
•Gradual:melodias ornamentadas, um tipo de Responsório abreviado.
•Aleluia: consiste em um refrão sobre a palavra aleluia: foi um marco do desenvolvimento dos princípios puramente musicais, repetição de sessões diferentes, contraposição aos Graduais e aos Tractos (orientalismo-improviso-passado); Aleluias (ocidentalismo-ordenação-moderno).
•Ofertório: semelhante aos Graduais.
•Cantos do Ordinário: Gloria e Credo (mais silábicos); Kyrie, Sanctus e Agnus Dei (mais ornamentados).

Desenvolvimento do Cantochão
•Escolas do norte (mosteiro de S.Galo-Suíça, maior números de saltos, intervalo de terça, novas formas de canto).
•Tropo: uma parte acrescentada a um cântico da missa, geralmente em estilo neumático e com texto poético.
•Sequência: longos melismas de estrutura bem definida que vinham geralmente após os Aleluias.

Teoria e Prática Musical na idade Média
•Métodos da era carolíngea (Carlos Magno 800 d.C.) mais voltados para a prática (notação, leitura, classificação, interpretação do cantochão) ou ainda improvisar e compôr organum.
•Guido de Arezzo (Musica enchiriadis – anônimo do Séc. IX).
•Modos eclesiáticos (forma acabada no Séc.XI).
•Notas: final e tenor (Autêntico-desce até uma nota abaixo da final. Plagal- pode subir para além da oitava).
•Modos identificados por números e agrupados aos pares.
•Único acidente usado legitimamente no cantochão: Sib.
•Acidentes necessários para a transposição.

Modos Eclesiásticos

•Por quê não havia modos em Lá, Si e Dó na teoria medieval? ( Ré, Mi, Fá cantados com o Sib equivalem à Lá, Si e Dó.
•Lá e Dó (correspondentes ao m e M) só foram teoricamente reconhecidos em meados do Séc. XVI.
•Guido de Arezzo (leitura a primeira vista e memorização – Hino à S.João).
•Notação: aparecimento das linhas (alturas).
•As durações ainda não eram precisas.

Hino a São João
Ut queant laxis resonare fibris
Mira gestorum famuli tuorum,
Solve polluti labii reatum,
Sancte Johannes

Para que as maravilhas de teus atos possam
ressoar com largos cantos,
apaga os erros de lábios depravados,
ó São João.

2
Monodia Secular

Primeiras Formas Musicais
•Goliardos: clérigos ou estudantes antes das grandes universidades (Séc. XI e XII) – canções de caráter informal (vinho, mulheres e sátiras).
•Conductus: para “conduzir” o celebrante de um local para outro. Tem relação muito tênue com a liturgia e no fim do séc. XII o termo já se aplicava à canções não litúrgicas, geralmente de caráter sério, com texto de métrica regular sobre um tema sagrado ou não.
•Canções em vernáculo: chanson de geste (poemas épicos, narrativos, relatos de feitos heróicos, acompanhados por fórmulas melódicas simples – jongleurs et ménestrels).
•Feudalismo, recuperação econômica da Europa, menestréis (alvo de fascínio e repulsa) – canções de domínio popular.

Troubadours e Trouvères
•Troubadours (sul da França) e Trouvères (norte e centro da França). Podiam confiar suas composições aos menestréis.
•A arte de um modo geral florescendo nos círculos aristocráticos: amor (tema predominante dos troubadours), também temas religiosos, debates políticos e morais – organizados em cancioneiros.
•Subtipos de cantigas: Pastourelle (Adam de la Halle – 1284).
•Melodias geralmente silábicas, com figura melismática no fim do verso, repetição variada (estrofes), extensão limitada (sextas, raramente mais que oitava).
•Modos mais usados: I e VII (com seus plagais), mais acidentes de forma a se aproximar dos modos M e m.
•Estrutura formal definida na poesia.
•Minnesinger (Alemanha).
•Franceses e Alemães: cantigas de devoção reliogiosa inpiradas nas cruzadas.

Meistersinger
•Organização de músicos alemães (Séc. XIV, XV, XVI).
•Textos em vernáculo (também de caráter religioso ou não, com idioma melódica derivado tanto do cantochão como das canções populares).
•A partir do séc.XIII a arte dos trouvère, minnesinger e meistersinger passou a ser também objeto de uma burguesia em ascensão.

Cantigas de Santa Maria
•Cancioneiro organizado por Afonso, o Sábio (Espanha, c. 1280).
•Mais de 400 cantigas monofônicas semelhantes às canções dos troubadours.
•Relatam os milagres da Virgem Maria.

Música Instrumental e Instrumentos Medievais
•Música para dança (estampida): monofônica ou polifônica, com várias seções repetidas.
•Instrumentos: lira (herança romana), harpa (ilhas britânicas), vielle (cordas friccionadas – antecessora do violino), saltério, alaúde, flautas, charamelas, trombetas, gaita de foles, órgão portativo e positivo.


Os primórdios da polifonia e a música do Séc. XIII

Transformações
•Séc. XI (transformações importantes na Europa).
•1-A composição substitui a improvisação.
•2-Notação musical (composiçãoXexecução=intérprete).
•3-Princípios ordenados (tratados teóricos).
•4-Polifonia.

Organum PrimitivoSéc.XI
•A música polifônica já ocorria provavelmente na música não litúrgica.
•Primeira menção à polifonia (Musica Enchiriadis c.900).
•Organum paralelo: cantochão (vox principalis) acompanhada em quartas paralelas pela vox organalis.
•Consonâncias (uníssono, 4as, 5as, 8as) e dissonâncias (outras notas de passagem).
•Desenvolvimento de movimentos contrários, oblíquos e paralelos (fim do séc. XI).
•Começou em partes do Ordinário (Kyrie, Gloria, Benedicamus Domino) e do Próprio (Graduais, Aleluias, Tractos e Sequências).
•Polifonia alternada com monodia (solistasXcoro).

Organum MelismáticoSéc. XII
•Voz grave (tenor) que sustenta a melodia principal. A voz melismática (solo) com mais liberdade sobre o bordão. (Organum duplum).
•Regra geral:duas vozes com mesma letra (Tropo) ou voz grave (cantochão) contra outra linha (Tropo com outra letra).
•Novos sentidos para a palavra organum: a)Toda música polifônica com base no cantochão; b) Um tipo de composição (os organa de um compositor, como as sonatas de um compositor); c)Termo latino para os instrumentos musicais, mais particularmente ao órgão.

Organum de Notre Dame
•Desenvolvimento da música polifônica, sobretudo no norte da França: Paris, Beauvais, Sens.
•Léonin (c.1159-c.1201); Pérotin (c.1170-c.1236).
•Pérotin (organum com mais de 2 vozes – triplum, quadruplum).
•Polifonia estritamente eclesiástica.
•Consonâncias.

ConductusSéc. XIII
•Desenvolveu-se de fontes semi-litúrgicas (hinos, sequências), acolhe letras seculares.
•Consonâncias.
•Movimento rítmico mais uniforme entre as vozes (ao modo tripartido 6/8, 9/8), diferente da variedade rítmica do organum (estilo de conductus).
•Quase sempre silábico.
•O tenor era muitas vezes uma melodia nova, não proveniente de um cântico ou outra fonte fonte preexistente (novidade histórica: obra polifônica original).
•O organum e o conductus foram caindo em desuso a partir de c.1250.

Motete
•Difundiu-se a partir do Séc. XIII em Paris.
•Do francês “mot”: palavras acrescentadas ao duplum.
•É comum letras diferentes para cada voz.
•Maior parte composições anônimas.
•Combinação heterogênea de temáticas (canções de amor, música de dança, refrões populares, hinos sagrados), inda baseado no cantochão.
•Ampliação da polifonia para a música não sacra no final do séc. XIII.
•Hoquetos: geralmente aparecem em motetes e conductus no final do séc. XIII e início do séc. XIV (ochetus-soluço).

A notação
•Notação dos padrões rítmicos; (não era rígido; c.1250).
•Baseados nos pés métricos da poesia latina e francesa.
•Necessidade de notar o motete.
•Franco de Colônia (Ars Cantus Mensurabilis c.1250): notas de valor fixo (máxima, longa, breve e semibreve).

3
Música Francesa e Italiana no Séc. XIV


Panorama Geral
•Séc. XIII: estabilidade unidade (Roma e poder papal incontestável). Razão conciliada com a Revelação Divina.
•Séc. XIV: mudança e diversidade (contestação do poder e disputas - de 1304 a 1378 residência em Avignon). Razão Humana e Revelação Divina são domínios separados.
•Quebra do progresso econômico, peste negra, declínio do feudalismo, ascensão da burguesia, fragmentação da Europa (França absolutista e Itália dividida em pequenos estados).
•Importância dos interesses seculares: literatura em línguas vernáculas (Divina Comédia de Dante 1307).
•Primórdios do humanismo: ressurgimento dos estudos da literatura clássica grega e latina.
•Pintura: valorização dos fenômenos mutáveis do mundo (Giotto c.1266-1337).
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Ars Nova na França
•Ars Nova (1323): tratado escrito por Philippe de Vitry (1291-1361).
•Discussão: a divisão dos grandes valores musicais em figuras menores.
•No Séc. XIV foi mais produzida música profana que sacra. Contínua tendência de secularização do motete.
•Motete: forma típica de composição das solenidades eclesiásticas e seculares.
•Documento musical francês mais antigo do Séc. XIV: Roman de Fauvel (poemas satíricos – um cavalo ou burro alegórico que encarna os pecados representados pelas letras do seu nome: flatterie-adulação;avarice-avareza;vilaine-vileza;variété-leviandade;lâcheté-covardia), com interpolações musicais de Vitry.

Guillaume de Machaut c.1300-1377
•Compositor mais importante da Ars Nova francesa.
•A maioria dos seus 23 motetes baseiam-se no modelo tradicional:um tenor litúrgico instrumental e textos diferentes para as duas vozes mais agudas.
•Canções profanas ao modo dos trouvères.
•Ainda percebe-se as quintas paralelas e muitas dissonâncias, porém uma outra ordem harmônica distingue a Ars Nova de Machaut com as terças e as sextas.

Messe de Notre Dame
•Composição mais famosa do Séc. XIV.
•Uma obra a 4 vozes sobre o Ordinário da missa.
•Diferente dos compositores anteriores como Léonin e Pérotin (despreocupados com a unidade pelos modos e temática entre as divisões da missa, e ainda eram mais usadas as divisões do Próprio): em Machaut - coerência e unidade musical entre as divisões do Ordinário (Kyrie-Gloria-Credo-Sanctus-Agnus Dei), a missa concebida como obra única.
•Alguns teóricos falam de um motivo recorrente ao longo da missa.
•Incertezas quanto à interpretação da missa: instrumentação.

Música no Trecento Italiano
•Atmosfera social e política: França (estabilidade e poder crescente da monarquia) – Itália (disputas de poder entre várias cidades-estados).
•Fonte mais importante: Códice Squarcialupi: provavelmente copiado em Florença por volta de 1420 (proprietário Antonio Squarcialupi 1416-1480) – 352 peças de caráter secular (madrigal, caccia, ballata) para 2 e 3 vozes, de 12 compositores do Séc. XIV (Biblioteca dos Médicis - Florença).
•Madrigal: geralmente a 2 vozes com textos idílicos, bucólicos, amorosos ou satíricos), estrofes com mesma música e figuras melismáticas no fim dos versos.
•Caccia: música mais movimentada em forma de cânone (fuga-caçada). Por vezes uso dos hoquetos e dos ecos para sublinhar o humor e cenas de grande animação (mesma figura comum aos compositores posteriores como Vivaldi e Haydn).
•Ballata: para 2 ou 3 vozes, de caráter lírico para ser dançado.

Francesco Landinic.1325-1397
•Maior compositor de ballata e mais destacado músico italiano do Séc. XIV.
•Grande virtuose cego do organetto.
•Não escreveu música para textos sagrados: 90 ballate a 2 vozes e 42 a 3 vozes, 1 caccia e 10 madrigais.

Especificidades da Prática MusicalSéc. XIV
•Formes Fixes: peças musicais estruturadas (como a ballata italiana ou o viralai e rondel francês).
•Isorritmo: padrões rítmicos similares e em blocos maiores (não somente pequenas células); em todas as vozes do moteto.
•Música Ficta: notas enfatizando os pontos cadenciais dando mais flexibilidade à linha melódica, não notadas na partitura, porém de conhecimento comum dos músicos.
•Desenvolvimento da notação do sistema francês: divisão binária (imperfeito) ou ternária (perfeito) das notas mais longas (longa-breve-semibreve): divisão da semibreve – mínima e semínima escritas pintadas de preto.
•Início do Séc. XV passaram a ser desenhadas como notas “brancas”.

Instrumentos Musicais
•Divisão pela intensidade.
•Altos (haut): charamelas, cornetas, sacabuxas.
•Baixos (bas): harpas, alaúdes, flautas.
•Instrumentos bem presentes na música polifônica, como acompanhantes ou exclusivamente.

4
Da Idade Média ao Renascimento: música da Inglaterra e do ducado da Borgonha no século XV


Música Inglesa
•Música na Inglaterra e norte da Europa maior ligação com o estilo popular.
•Tendência à tonalidade maior (diferente das características do motete francês (linhas independentes, letras divergentes e dissonâncias).
•Uso mais livre de sextas e terças.
•A escola de Notre Dame era conhecida nas Ilhas Britânicas.

Fauxbourdon
•Início do Séc. XV influenciou os compositores continentais; entre c.1420-1450 atingiu todos os tipos de composição.
•Em sentido estrito o termo significa: composição a 2 vozes em sextas paralelas e oitavas intercaladas; uma terceira voz podia ser acrescentada uma quarta abaixo do soprano (melodia principal com o soprano).
•Resultado: três vozes mais equilibradas em importância, reconhecimento da sonoridades das sextas e terças como um elemento fundamental do vocabulário harmônico.

John Dunstablec.1385-1453
•Difusão da música inglesa no continente: vastas possessões e ambições inglesas na França – prováveis serviços de Dunstable ao duque de Bedford (1422-1435) comandante dos exércitos ingleses contra Joana d’Arc.
•Cerca de 70 composições conhecidas hoje: todas as formas de polifonia da época (motetes, Ordinário da missa, cantigas profanas, obras a 3 vozes sobre os mais diversos textos litúrgicos).
•Peças sacras a 3 vozes (mais numerosas e historicamente mais importantes obras; as vozes podem aparecer de diversas maneiras na textura polifônica: algumas com o cantus firmus na voz do tenor, outras com uma linha ornamentada no soprano e uma melodia extraída de outra peça na voz do meio, outras compostas livremente, sem material temático extraído de outro repertório).

Formas de composição inglesas
•Antífonas votivas: (final do Séc. XV – Eton College) - composição sacra em louvor de santos ou da Virgem, polifonia de 5 a 9 vozes, alternância entre grupos maiores e menores, música de cerimônias inglesas até meados do Séc. XVI.
•Carol: (Séc. XV) origem nas cantigas de dança como o rondeau e a ballata, com alternância de coro e solista, de 2 a 4 vozes sobre um poema religioso de estilo popular (Ex: encarnação), mistura de rimas inglesas e latinas, melodias alegres, em ritmos ternários e, apesar de não serem canções populares, tinha esse aspecto.

A música no ducado de Borgonha
•Reino soberano em uma grande região do norte da Europa: Bélgica, Holanda, nordeste da França, Luxemburgo.
•Como em outros centros europeus, a corte de Borgonha contaram com excelentes recursos musicais, disputando os serviços de cantores e compositores eminentes.
•Esta corte tinha um ambiente cosmopolita, visitada por músicos estrangeiros ganhou, de certa forma, status de estilo internacional e influenciou outras cortes importantes.

Guillaume Dufayc.1400-1474
•Músico atuante em diversos ambientes, da Borgonha até Roma, Florença, Bolonha.
•Fontes em manuscritos de origem italiana.
•Principais tipos de composição do período borgonhês: missas, motetes, chansons profanas em francês.
•Tendência como do Séc. XIV:diferença tímbrica entre as vozes visando a transparência na textura no conjunto da peça, linha melódica do discantus evolui em frases líricas até figuras melismáticas antes das cadências importantes, influência inglesas como o fauxbourdon.

Motetes borgonheses
•Habitual 3 vozes ao estilo de chanson: soprano solo melodicamente livre associado a um tenor e apoiado por um contratenor.
•Principal diferença em relação aos anteriores: a melodia do cantochão utilizada não tinha mais apenas a função de um resíduo simbólico da tradição, era também uma parte concreta e expressiva da composição.
•Motetes para cerimônias solenes: Nuper rosarum flores de Dufay para a consagração do duomo Santa Maria del Fiore (Florença, 1436).

MissasSéc.XV
•Composição polifônica do Ordinário musicalmente unificada (desejo de uma forma musical ampla e complexa).
•Primeiramente as cinco partes podiam ser compostas no mesmo estilo geral, como ballade ou chanson (no continente).
•Outra opção para a unidade das partes do Ordinário: Missa de cantus firmus ou Missa de tenor (o uso do mesmo cantus firmus em todas as partes) – prática que começou na Inglaterra, mas que logo foi assimilada na Europa continental.
•Acréscimo de uma quarta voz no baixo (bassus), assim a voz do tenor, originalmente o cantus firmus, torna-se uma voz no interior da textura, ganha mais liberdade e é usada para unificar a missa.
•Vozes: 1- cantus (ou discantus ou superius);
2- contratenor altus; 3- tenor; 4- contratenor bassus.

5
A era renascentista e novas correntes do Século XVI


Renascimento
•Volta aos gregos e latinos (clássicos traduzidos a partir de manuscritos).
•Valores humanos em oposição aos valores espirituais: realização pessoal em vida (expressão das emoções humanas).
•Valorização da educação clássica em oposição à educação religiosa: realização pessoal através dos estudos, aquisição e embelezamento de propriedades e mecenato.
•Novas idéias em outras áreas: racionalismo e humanismo (Michelangelo, Lutero, Copérnico, Shakespeare).

Música do Renascimento
•Terças e Sextas admitidas também na teoria musical.
•Mudança na afinação para amenizar as consonâncias imperfeitas e chegar até as notas da escala cromática.
•Associação estreita com do músico com a literatura: músico e poeta (ritmo da fala e prosódia).
•Impressão de partituras: Gutenberg (1450) (livros litúrgicos com notação de cantochão c.1473 e música polifônica impressa em Veneza por Otaviano Petrucci 1501).
•Segunda metade do Séc. XV: a missa era a principal forma de composição (época de grande prestígio da música sacra polifônica, porém com a prática das formas profanas, como as chansons).
•Compositores como Ockeghem aproveitavam os temas de suas chansons para constituírem os cantus firmi de missas.

Johannes Ockeghem c.1420-1497
•Sonoridade semelhante à de Dufay.
•Textura contrapontística a 4 vozes (aspecto mais denso, homogêneo, grandes frases, fluxo parecido com o cantochão melismático).
•Tessitura habitual das vozes no final do Séc. XV:
•Contraste criado com a omissão de vozes por trechos inteiros ou ritmos idênticos em todas as vozes.
•A utilização em escrita canônica (cânone=regra,lei), muitas vezes dissimulada entre o discurso das 4 vozes.

Josquin des Prez c.1450-1521
•Compositor muito aclamado em sua época.
•Fronteira entre o mundo medieval e moderno.
•Missas de Imitação: apresentações fugadas ou em respostas, motivos característicos retirados de uma chanson, missa ou motete preexistente.
•Preocupação de associar música ao texto. (Ex:Chanson Mille regretz – regretz, paine doulourouse / arrependimento, aflição dolorosa: a música acompanha a letra em forma de linhas descendentes e Motete Absolon fili mi – sed descendam in infernum plorans/mas desça ao inferno chorando: a música acompanha a letra, descendo melodicamente e harmonicamente).
•Chanson Mille regretz – igualdade entre as vozes está clara nas figuras de imitação.
•A música do Séc. XV geralmente terminava em consonâncias perfeitas, em oitavas, ou quintas e oitavas.

Novas correntes do Século XVI
•Geração Franco-Flamenga (1520-1550): geração de compositores do norte seguinte a Josquin des Prez (Gombert,Clemens, Senfl, Willaert).
•A influência cosmopolita dos compositores do norte perde força e criam-se novos estilos em cada país (os estilos locais seriam mais conhecidos e assim, mais apreciados pela maioria das pessoas do que a arte erudita dos compositores do norte; ampliação da diversidade da expressão musical).
•Características Gerais: maior número e importância de composições instrumentais, missa de imitação (imitação de modelos polifônicos substituindo o cantus firmus), melodias do cantochão usadas de maneira ainda mais livres como temas nas missas e motetes, escrita para 5 ou 6 vozes (complexidade contrapontística).

Adrian Willaert c.1490-1562
•Relação ainda mais estreita com o texto, um dos primeiros compositores a exigir a impressão de sílabas abaixo das notas correspondentes, técnica composicional de evitar as cadências (prolonga o discurso musical, delimita melhor as idéias e finalizações, favorece a escrita contrapontística), trabalhou na igreja de S.Marco (Veneza 1527-1562: Zarlino, de Rore, A.Gabrieli).

A afirmação dos estilos nacionais
•ITÁLIA: transição no Séc. XVI para se tornar um grande centro musical.
–Frottola: canção estrófica italiana de estrutura rítmica bem marcada, harmonia diatônica simples, estilo silábico, a 4 vozes, estilo homofônico, melodia na voz aguda.
–Lauda: canção de devoção religiosa, não litúrgica e de caráter popular, textos em latim ou italiano, a 4 vozes, com os aspectos musicais semelhantes à frottola, sem revelar grande influência do estilo musical sacro franco-flamengo.

•FRANÇA: desenvolvimento da chanson em estilo mais marcadamente nacional, editor Pierre Attaignant (publicou em Paris entre 1528-1552: 1500 peças em estilo chanson) – principais compositores de chansons das primeiras coletâneas de Attaignant: Sermisy (c.1490-1562)(Tant que vivray) e Clément Janequin (c.1485-c.1560) (música descritiva – Le roussignol).
–Chanson: semelhante à frottola italiana, canções rápidas, geralmente binárias com passagens em ternário, melodia na voz aguda, possibilidade de figuras imitativas, estruturas curtas e bem definidas.

•ALEMANHA: a polifonia desenvolveu-se mais tarde na Alemanha do que nos demais países europeus. A arte monofônica dos Minnesinger (Séc. XIV) e Meistersinger (Séc.XV-XVI) só gradualmente, a partir de c.1500, foi sendo influenciada pela polifonia franco-flamenga. Os primeiros mestres do lied polifônico foram Isaac (c.1450-1517), Finck (1445-1527), Hofhaimer (1459-1537).
–Lied: com o desenvolvimento da sociedade urbana e mercantil nasceu uma forma tipicamente alemã de Lied polifônico. Os Lieder eram usados na corte ou nos círculos da elite, geralmente a 4 vozes, estruturados no antigo estilo do cantus firmus, em imitação ou estilo homofônico, com a voz principal no cantus ou no tenor.

•ESPANHA: no final do Séc. XV as obras dos compositores borgonheses e franco-flamengos eram conhecidas e cantadas na Espanha, ao mesmo tempo de se desenvolveu um estilo de música polifônica nacional com elementos de origem popular (villancico – Juan del Encina 1469-1529). A polifonia sacra espanhola na obra de Morales (c.1500-1553) e, posteriormente, de Victoria (1548-1611) caracteriza-se pela sobriedade melódica e moderação nos artifícios contrapontísticos.
–Villancico: breve canção estrófica com refrão, melodia principal na voz superior, provavelmente um solista acompanhado dois ou três instrumentos.

•INGLATERRA: o estilo de composição imitativa dos franco-flamengos passou a influenciar a música inglesa a partir de c.1510, apropriando estes elementos à música popular (Ballet – Thomas Morley c.1557-1610). Porém, a música polifônica inglesa do final do Séc. XV e Séc.XVI que chegou até nós é sobretudo de caráter sacro, e mostram uma predileção pela sonoridade plena, a 5 ou 6 vozes, com a utilização de grupos contrastantes. Principais compositores: Taverner (c.1490-1545) Tye (c.1505-1572), Tallis (c.1505-1585).
–Ballet: canto estrófico leve, homofônico, para 3 ou mais cantores, caracterizados por ritmos dançantes e “fa-la-la”.

Madrigal
•Foi o gênero mais importante da música profana italiana no Séc. XVI. Tornou-se uma forma genérica internacional.
•Inicialmente com 4 vozes, depois com 5 ou mais vozes.
•A maioria dos compositores se baseava na obra do poeta Petrarca (1304-1374) (Pietro Bembo 1470-1547), que usou a sonoridade das palavras como guia nos seus poemas: (o ritmo, a estrutura da rima, o número de sílabas por verso, a acentuação, a duração das sílabas, as propriedades sonoras de determinadas vogais ou consoantes eram determinantes na elaboração de um sentimento aprazível (piacevolezza) ou grave (gravità) nos seus versos).
•Música: caráter-sentimento do texto associado estreitamente com o discurso musical – cromatismo, cadências e frases musicais sincronizadas com o texto como recurso expressivo.
•Alguns compositores madrigalistas: Orlando di Lasso (1532-1594), Jacques Arcadelt (c.1507-1568), Cipriano de Rore (1516-1565), Adrian Willaert (c.1490-1562), Luca Marenzio (1553-1599), Carlo Gesualdo (c.1561-1613), Thomas Morley (1557-1602), Claudio Monteverdi (1567-1643).

Música Instrumental no Século XVI
•Mais notação da música instrumental (aumento do interesse teórico, publicação de livros que descrevem os instrumentos ou dão instruções sobre a forma de tocar): Musica getutscht und ausgezogen (Resumo da ciência e da música) de Sebastian Virdung 1511 e Syntagma musicum (Tratado de música) de Michael Praetorius 1618.
•Tradição da música instrumental improvisada (contrapunto alla mente).
•Composições para música instrumental derivada da música vocal, como os madrigais, chansons e motetes (ornamentação melódica – primeiramente improvisada e depois passou a ser notada: origens da escrita instrumental do início da era barroca).
•Busca pelo contraste e repetição no discurso musical com base exclusivamente na música, não mais ligadas à liturgia ou aspectos do texto.

Música de dança
•Composições notadas para alaúde, instrumentos de teclado (clavicórdio ou cravo) ou outras formações. Geralmente as danças eram agrupadas em pares contrastantes, com a primeira binária lenta e a segunda ternária rápida variando o tema da primeira: pavana & galharda; passamezzo & saltarello.
•Outras danças foram se estilizando no Séc. XVI e constiuíram as suites dos períodos seguintes: allemande e a courante.
•A música de dança no Séc. XVI se afasta da finalidade original e passa a constituir um vasto repertório de música instrumental estilizada (como as valsas de Chopin no Séc. XIX, por exemplo).
•Basse danse: uma das danças de corte preferidas do início do Séc. XVI, onde os instrumentistas improvisavam com base em um tenor tomado de empréstimo (branle: um dos passos básico da basse danse).

Música Instrumental no Século XVI
•Canzona: forma instrumental independente - canzona de sonar (chanson para ser tocada).
•Toccata: forma de música improvisada no teclado na segunda metade do Séc. XVI. Esta forma podia ganhar outros nomes como: Fantasia, Prelúdio, Intonazione.
•Ricercar: expressão usada primeiramente pelos alaudistas e consiste em uma forma instrumental que segue o protótipo da música vocal, como o motete (procurar, buscar, tentar, experimentar).
•Sonata: o termo começou a ser usado ainda no Séc. XV para uma variedade de peças para instrumentos solistas ou em conjunto. No Séc.XVI, a sonata veneziana é o equivalente sacro da canzona e consiste numa peça em várias seções, cada uma com temas diferentes ou variações do mesmo tema, antecessora da sonata da chiesa e da posterior sonata barroca.
•Giovanni Gabrieli (c.1557-1612): música policoral com instrumentos em Veneza (S.Marcos). Partes específicas para conjuntos instrumentais e indicação de dinâmica na partitura (Sacrae Symphoniae 1597).
•Variações: as melodias utilizadas como base para as variações eram, em geral, breves e do tipo canção, fraseado regular, estrutura clara, binária ou ternária (este é o princípio das formas posteriores como chaconne e passacaglia). Compositores ingleses foram expoentes da variação em composições para virginal (instrumento de tecla da família do cravo): William Byrd, John Bull, Orlando Gibbons, Thomas Tomkins.

6
Música sacra no Renascimento tardio

A música da Reforma na Alemanha
•Martinho Lutero: 95 teses em Wittenburg (1517): manutenção da música católica (cantochão e polifônica), com texto original latino, ou texto original traduzido para o alemão, ou novos textos em alemão adaptados às antigas melodias; as melodias não eram alteradas com alteração pessoal (como os compositores de organa sobre as melodias do cantochão).
•Lutero desejava a participação da congregação na música dos serviços religiosos.
•O Coral luterano: Choral ou Kirchenlied, hino estrófico cantado pela congregação; como o cantochão ou a canção popular, o coral se compõe essencialmente de dois elementos (um texto e uma melodia); as primeiras coletâneas de coral destinavam-se a ser cantadas pela congregação em uníssono, sem harmonização e sem acompanhamento; Ein feste Burg.

A música da Reforma na Alemanha
•Contrafacta: tipo de coral onde a melodia se conserva, mas o texto é substituído por uma letra nova. Ex: O Welt, ich muss dich lassen adaptação do Lied de Henricus Isaac, Innsbruck, ich muss dich lassen.
•Corais polifônicos: segunda metade do Séc. XVI houve uma tendência de composições a 4 vozes em progressão por acordes (diferente do contraponto livre ou imitação), com a voz a principal no soprano, simplicidade rítmica, semelante aos hinos. Os arranjos polifônicos não destinavam-se à congregação, mas sim ao coro. A partir de 1600 o uso gradual do órgão tocando as 4 vozes enquanto a congregação canta a melodia.
•O motete coral: melodias tradicionais como material de base para a livre criação artística, com interpretação individual e com a possibilidade de figuras descritivas (típico das regiões de predomínio luterano).
•O motete coral confirmou a divisão que sempre existira na música luterana, entre os simples hinos congregacionais e a música mais elaborada para um coro com formação musical.
•Principais compositores do Séc. XVI- XVII: Hans Leo Hassler, Michael Praetorius, Johann Hermann Schein, Johannes Eccard, Leonhard Lechner.
•A música destes compositores definiu o estilo de música sacra luterana, o que viria 100 anos depois culminar com J.S.Bach.

Música sacra da Reforma fora da Alemanha
•Oposição mais enérgica que Lutero na manutenção dos elementos do cerimonial católico.
•Maior desconfiança com os atrativos da arte: proibição de textos não bíblicos.
•Coleções de Salmos: traduções métricas rimadas do Livro dos Salmos, com melodia novas (muitas vezes de origem popular), ou adaptadas do cantochão.
•Coleção de Salmos de 1562: salmos traduzidos por Clément Marot e Théodore Bèze com melodias de Loys Bourgeois (c.1510-c.1561).
•Compositores importantes: Claude Le Jeune, Claude Goudimel, J.P. Sweelinck.
A Contra-Reforma
•Concílio de Trento (1545-1563): crítica vaga ao cantus firmus e à chanson imitativa, como a dificuldade em entender o texto litúrgico, ao uso exacerbado de instrumentos musicais.
•Apesar das críticas, sabe-se que o Concílio não proibiu especificamente a música polifônica ou a imitação de modelos profanos.

Giovanni da Palestrina1525-1594
•Maioria de composições sacras: 104 missas, c. de 250 motetes e c. de 50 madrigais de caráter e mais de 100 de caráter profano.
•Compositor anterior a J.S.Bach mais estudado.
•Influência dos compositores franco-flamengos (denotando o seu conservadorismo, de caráter clássico, com o emprego de cânones e textura a 4 vozes).
•Emprego preferencial dos graus conjuntos, com raros saltos, clareza na harmonia com pouco uso de cromatismo, melodia com longas linhas diatônicas, ritmo regular de aspecto binário ou quaternário.
•Stile Antico (Estilo Antigo): o estilo de Palestrina foi o primeiro na história da música ocidental a ser conscientemente preservado.
•Tomás Luis de Victoria (1548-1611): música parecida com a de Palestrina (ligação com Roma), porém de maior caráter pessoal (influência espanhola), mais ênfase na expressão do texto, com suspensões dissonantes.
•Palestrina = Rafael e Victoria = El Greco.
•Orlando Di Lasso (Itália) e William Byrd (1543-1623 Inglaterra).

A escola veneziana
•Veneza era no Séc. XVI a segunda cidade mais importante da península itálica (ligação com o oriente, isolamento dos vizinhos, tradição da Abadia de S. Marcos).
•Giovanni Gabrieli (c.1553-1612): motetes policorais venezianos (contraste e oposição de sonoridades): este contraste tornou-se um fator fundamental do estilo concertato do período barroco.

7
Música do primeiro período barroco

Transformações na músicaRenascimento - Barroco
•Formas instrumentais puras (ricercare, canzona e toccata).
•Principal característica das canções solo renascentistas era o lirismo ao estilo dos madrigais. Uma das inovações no início do Séc. XVII foi o uso da canção solo como veículo de expressão dramática.
•Distinção entre a Prima Prattica (entendia-se pela polifonia vocal representada pela obra de Willaert e nos escritos teóricos de Zarlino) e a Seconda Prattica (pelos estilo dos modernos italianos como Marenzio, Rore e Monteverdi).
•Prima e Seconda Prattica também eram chamadas de Stile antico ou Stile moderno ou Stylus gravis (severo) ou Stylus luxurians (ornamentado).
•Predomínio do estilo italiano, com importantes centros artísticos: Veneza, Florença, Roma e Nápoles.

Barroco
•Continuidade das práticas do Renascimento.
•Palavra primeiramente usada com sentido pejorativo: pérola de formato irregular em português antigo. Por muito tempo a palavra é usada para designar algo de “mau gosto,” “exagerado”, “grotesco”.
•Barroco é um nome genérico e conceitual e não encerra as características musicais. Como os outros conceitos históricos (como gótico, renascentista, romântico) encerra várias atividades criadoras dos homens.
•Pensou-se em nomes para este período da música como: período do baixo-contínuo ou período do estilo concerto.
•O período é difícil de delimitar, porém geralmente é explicado entre os anos de c.1600 – c. 1750.
Aspectos musicais
•Escrita idiomática: Ex: música escrita especificamente para violino ou para voz solista, diferente da música anterior que poderia ser cantada ou tocada por quase qualquer combinação.
•Aperfeiçoamento da família dos violinos (Itália) e apreciação das violas (França). Aperfeiçoamento dos instrumentos de sopro, que passaram a ser usados de acordo com suas características tímbricas e recursos particulares. Desenvolvimento para música para instrumentos de teclado e do virtuosismo vocal.
•Indicação de dinâmica.
•Distinção entre os estilos vocal e instrumental, tanto que os compositores podiam utilizar conscientemente recursos vocais na escrita instrumental, e vice-versa.
•Baixo contínuo: textura típica com um baixo firme e uma voz aguda ornamentada. O compositor escrevia a melodia e o baixo, enquanto o instrumentista de teclado ou alaudista preenchia as vozes intermediárias com notas baseadas nos acordes convenientes.
•Dissonância e cromatismo: estrutura musical ordenada pelo sistema tonal (modos maior e menor) (Tônica - afastamento e tensão na Dominante -Tônica).

A Teoria dos Afetos
•Extensão da musica reservata do início do Séc. XVI (música associada ao texto).
•Desejo dos compositores de exprimirem afetos ou estados de espírito como ira, agitação, majestade, heroísmo, elevação contemplativa, assombro ou a contemplação mística, etc. Estes efeitos musicais eram intensificados por meio de contrastes violentos.
•Estes afetos são sentimentos num sentido genérico e não a expressão dos sentimentos individuais de um artista.
•A partir de 1600 alguns teóricos já passaram a classificar e sistematizar esta tarefa, porém esta tarefa foi realizada principalmente a posteriori.
•Associação com as figuras de retórica. Ex: Processo de Composição: invento (descoberta) – dispositio (planificação) – elaboratio (elaboração do material).

Ritmo
•Também usado como forma de contraste; (1) por um lado o ritmo de métrica regular, com barra de compasso e por outro (2) o ritmo livre, sem métrica, como nas peças instrumentais solistas, recitativos ou improvisos. Ex: um exemplo mais tardio é a toccata & fuga, recitativo & aria.
•Ritmos de danças (já conhecidos nos séculos anteriores), porém agora organizados metricamente, em compassos, em estruturas definidas de tempos fortes e fracos.

Música Instrumental
•1: Tipo fugado:peças em contraponto imitativo contínuo (não dividido em seções). Chamavam-se ricercare, fantasia, fancy, capriccio, fuga, verset, etc.
•2:Tipo canzona:peças em contraponto imitativo descontínuo (ou seja, dividido em seções).
•3:Variação: peças que efetuam variações sobre um tema: partita, passacaglia, chaconne, partita coral, prelúdio coral.
•4: Danças: ritmos de dança estilizados agrupados entre si. Os agrupamentos mais estreitos denominam as suites.
•5: Improviso: geralmente para instrumentos de teclado ou alaúde: toccata, fantasia, prelúdio.

8
O princípio da ópera


Precursores da ópera
•Música vocal renascentista: madrigal (lirismo).
•Final do Séc. XVI a dramaticidade invade a música vocal. Estava próximo da idéia de ópera os madrigais em que o compositor tomava como texto uma cena dramática de um poema. Ex: Gerusalemme liberata de Tasso e Il pastor fido de Guarini.
•Intermedi ou Intermezzi.
•Inspiração nos clássicos gregos.
•Pastorela.

Camerata Florentina
•Girolamo Mei – erudito florentino editor de várias tragédias gregas e entre 1562-1573 pesquisou, no original grego, quase todas as obras sobre música da antiguidade (De modis musicis antiquorum).
•Giovanni Bardi (mecenas que promovia encontros informais no seu palácio em Florença) e Vicenzo Galilei: os encontros também contavam com a presença do compositor Giulio Caccini (1551-1618).
•Mei chegara à conclusão de que os gregos conseguiam obter efeitos singulares com a música porque esta consistia numa única melodia, cantada solo com acompanhamento ou cantada por um coro.
•Galilei (1581): Dialogo della musica antica e della moderna – com base na obra de Mei, Galilei ataca a teoria e prática contraponto vocal, como o que era corrente no madrigal italiano. Defendia que uma única linha melódica, com alturas e ritmos apropriados poderia exprimir um verso.

As primeiras óperas
•O estilo Recitativo.
•Jacopo Peri (1561-1633): Euridice (1600).
•Claudio Monteverdi (1567-1643): Orfeo (1607).
•Ópera Veneziana: 1- ênfase no canto solístico; 2- distinção entre recitativo e ária; 3- introdução de esquemas próprios para as árias; 4- maior autonomia da música em relação à poesia.
•Pier Francesco Cavalli (1602-1676); Antonio Cesti (1623-1669)
•O formato de ópera desenvolvido pelos compositores venezianos até meados do Séc. XVII torna-se o modelo para os dois séculos seguintes.

9
Principais formas musicais do Século XVII e início do Século XVIII


Oratório
•Surgiu quase na mesma época da ópera.
•O nome origina-se do Oratório de São Felipe de Néri (Roma).
•Primeiramente semelhanças com a ópera, com recitativos, árias, coros, cenários e fantasias, porém baseados em temas sacros (histórias geralmente tiradas da Bíblia).
•Com o tempo as representações foram caindo em desuso e o oratório passou a ser executado como uma apresentação musical, em igrejas e salas de concerto.
•Paixão, Corais, Cantata.

Suíte
•Herança renascentista de ligar uma dança na outra, geralmente danças contrastantes.
•Com os compositores barrocos a suíte se estabeleceu enquanto forma composicional, para instrumentos solo ou grupo de câmara.
•O esquema mais comum acabou abrangendo uma série de 4 danças de diferentes países: allemande, courante, sarabanda e giga.
•Outras danças: bourrée, minueto, gavota, passe-pied (prelúdio).
•Todas danças da suíte na mesma tonalidade, geralmente na forma AB, porém pode ser em forma rondó.

Sonata
•Sonare: peça para ser tocada.
•Trio-Sonata: Ex: dois violinos (flauta, oboé), cello e cravo.
•Sonata da camera e Sonata da chiesa: geralmente quatro movimentos contrastantes (lento-rápido-lento-rápido).
•Desenvolveu-se principalmente como uma forma solista e para duo.

Concerto
•Italiano = consonância; Latim = disputa.
•Música policoral de Giovanni Gabrieli.
•Concerto Grosso: ripieno X concertino.
•Concerto Solo: solista X orquestra.
•Estrutura mais usual: Tutti 1-Solo1-Tutti 2- Solo 2 etc...

Ópera
•Recitativo e Ária.
•Abertura italiana: rápido-lento-rápido – base da sinfonia clássica. (Alessandro Scarlatti).
•Ária da capo: ABA – o D.C. como repetição variada.
•Abertura francesa: lento, majestoso, incisivo com figuras pontuadas. (Jean-Baptiste Lully e Jean-Philippe Rameau).

Compositores representativos da música ocidental do Século XVII e primeira metade do Século XVIII.
•Compositores:
•1- Jean-Philippe Rameau (1683-1764).
•2- Antonio Vivaldi (1678-1741).
•3- George Frideric Haendel (1685-1759).
•4- Johann Sebastian Bach (1685-1750).

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Primeira metade do Século XVIII e origens do estilo clássico


Música instrumental
•Origens de alguns tipos genéricos de composição (Séc. XVII):
–O tipo fugado: peças em contraponto imitativo contínuo (não dividida em seções). Chamavam-se ricercare, fantasia, fancy, capriccio, fuga, verset e outros nomes.
–O tipo de canzona: peças em contraponto imitativo descontínuo (dividido em seções), por vezes com elementos de outros estilos. Estas peças dão lugar, em meados do século XVII, à sonata da chiesa.
–Peças que efetuam variações sobre uma dada melodia ou baixo: partita, passacaglia, chaconne, partita coral e prelúdio coral.
–Danças e outras peças em ritmo de dança mais ou menos estilizados, quer frouxamente agrupadas entre si, quer integradas de forma mais estreita em uma suite.
–Peças de estilo improvisatório para um instrumento de tecla ou alaúde, solistas: podiam chamar-se toccata, fantasia e prelúdio.

Principais formas da música barroca
•Ópera.
•Concerto.
•Sonata.
•Trio-Sonata.
•Suite.
•Oratório.
•Tocata.
•Fuga.
•Tema e Variações.

Temperamento igual
•Em 1567 o alaudista Giacomo Gorzanis compilara um ciclo de 24 pares passamezzo-saltarello , um para cada uma das tonalidades maiores e menores e Vincenzo Galilei deixou um manuscrito (1584), também para alaúde, de 12 conjuntos de passamezzo antico-romanesca-saltarello (tonalidades menores) passamezzo moderno-romanesca-saltarello (tonalidades maiores).
•Alaúde: trastes espaçados de tal forma que a oitava se dividia em doze semitons iguais.
•Quintas e quartas puras da afinação pitagórica, com terças maiores muito grandes e terças menores muito curtas.
•Quando a simultaneidade tornou-se corrente no final do Século XV, combinando terças e quintas ou terças e sextas, os instrumentistas de tecla começaram a ajustar a afinação das quintas e quartas por forma a obterem melhores terças e sextas. Temperamento mesotônico: terças maiores ligeiramente maiores que as puras e as quintas ligeiramente menores.
•Temperamento igual: todos o semitons são iguais e todos os intervalos são diferentes dos puros, mas ainda aceitáveis. Ex: O Cravo Bem Temperado (J.S.Bach - 1722).

FUGA
•Forma independente no final do Século XVII.
•Vozes independentes que enunciam um tema em entradas sucessivas (exposição).
•Regra geral: o tema é exposto na tônica e resposta na dominante; as outras vozes alternam depois tema e resposta.
•As exposições integrais ou parciais dos temas são separadas por breves episódios (passagens em que não se ouve o tema em nenhuma voz e que podem servir para modulações).
•Regresso à tonalidade: stretto e aumentação.

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Segunda metade do Século XVIII
Haydn e Mozart


Joseph Haydn (1732-1809)
•Trabalho na corte Esterházy cerca de trinta anos (um dos últimos músicos eminentes com este tipo de trabalho).
•Eszterháza: isolamento, criatividade, experimentação e produção contínua.
•Viagens a Londres (1791-1792; 1794-1795) – Doutorado em Oxford (1791).
•1790 – Residência em Viena.

A obra de Haydn
•Impossível precisar a produção de Haydn (alvo de falsificações devido à fama); oficialmente 108 sinfonias e 68 quartetos.
•Sinfonia clássica dividida em quatro andamentos: allegro – andante moderato – minueto e trio – allegro. (instrumentos de sopro cada vez mais independentes da seção das cordas: algo negligenciado muito pelas orquestras modernas).
•Forma Sonata.
•Sturm und Drang (oposto ao estilo galante).
• Quartetos (2 violinos, viola e cello): independência e igualdade de importância entre as vozes.

Wolfgang Amadeus Mozart(1756-1791)
•Gênio precoce (filho de Leopold Mozart - Salzburg); formação sistemática desde os primeiros anos de vida.
•Mais de 600 composições catalogadas em 1862 por L. von Kochel.(KV – Kochel Verzeichnis).
•Mozart dos 6 aos 15 anos passou mais da metade do seu tempo em viagens ou em exibições públicas de seu talento; tocando, improvisando e compondo.
•O jovem Mozart familiarizou-se com os vários estilos de música da época por causa das muitas viagens (Alemanha, Itália, França, Inglaterra). Sua obra acabou tornando-se uma síntese de estilos nacionais.

Wolfgang Amadeus Mozart
•Primeiras sinfonias pouco antes dos 9 anos, primeira oratória com 11 anos, primeiras óperas com 12 anos (La finta semplice; Bastien und Bastienne).
•Contato com a música de J.C.Bach (Londres) e Haydn (Viena).
•Período de 1774-1781 Mozart viveu maior parte do tempo em Salzburg: sonatas para piano e violino, serenatas, concertos para violino, música sacra.
•Período vienense (1781-1791): 25 – 35 anos. Sucesso nos 5 primeiros anos e então a decadência financeira, afetiva e de saúde até sua morte precoce. Como compositor foi o período da maturidade (óperas, sinfonias, quartetos, concertos para piano, etc.)
•Influência de J.S.Bach, sobretudo na escrita contrapontística e seriedade, percebidas sobretudo na Flauta Mágica e Requiem (Mozart conheceu a Arte da Fuga e o Cravo Bem Temperado em 1782).

12
O período revolucionário e início do romantismo

Classicismo e Romantismo
•Transformações no séc. XVIII: Revolução Francesa (mudança da organização social).
•Problemas na terminologia (Clássico).
•Clássico-Romântico: falsa antítese na história da música.
•Continuum 1770-1900 (nos domínios da progressão harmônica, ritmo e forma).
•Pensamento científico (outros conceitos são também elaborados Ex: sentido não pejorativo ao gótico).

Romantismo
•Romântico: deriva de romance, cujo sentido literário original era o de uma narrativa ou poema medieval sobre personagens ou episódios e escritos numa das línguas românticas. A palavra romântico passou a ser empregada em meados do século XVII com a conotação de algo distante, lendário, fictício, um mundo imaginário ou ideal em oposição ao mundo real e presente.
•O desligamento com o presente leva o artista a pensar na “obra para o futuro”.
•“A adição do estranho ao belo” (Walter Pater); “Não há beleza excelente que não tenha alguma estranheza na proporção” (Lord Bacon).

Características do Romantismo
•Apesar da arte romântica buscar a sua matéria à vida real, transforma-se, criando, assim, um mundo novo, que necessariamente se afasta, em maior ou menor grau, do mundo de todos os dias. Difere da arte clássica pela maior ênfase a este caráter de distância e estranheza (na escolha e tratamento do material).
•Romântico como sentido genérico: manifesta-se em outros períodos históricos (renascimento-barroco; classicismo-romantismo).
•Clássico: equilíbrio, auto-domínio, perfeição dentro de limites bem definidos (IDEAL ESTÉTICO RECONHECIDO). Romântico: liberdade, paixão, movimento, abarcar o mundo inteiro, busca do inatingível (EXPRESSÃO INDIVIDUAL).
•A personalidade do artista confunde-se com a obra.
A música e a sociedade
•Compositor e público: transformações nos últimos 100 anos de um público restrito e culto para um público numeroso, diversificado e relativamente pouco preparado.
•O fenômeno do artista romântico: pouco sociável e isolado.
•Contraste das criações musicais do Século XIX: grandiosas (sinfonias, óperas) e intimistas (lieds, peças para piano solo).
•Diferenciação entre músicos amadores e profissionais; a figura do virtuose.
•Revolução Industrial: aumento da população urbana, população anônima.
•Mudança dos instrumentos musicais; aumento das orquestras.
•Nacionalismo (folclore).

13
Ludwig van Beethoven
(1770-1827)


O homem e sua música
•Século XVIII e Revolução Francesa: circunstâncias externas e a força do próprio gênio levam à transformação.
•Clássico: equilíbrio, auto-domínio, perfeição dentro de limites bem definidos (IDEAL ESTÉTICO RECONHECIDO). Romântico: liberdade, paixão, movimento, abarcar o mundo inteiro, busca do inatingível (EXPRESSÃO INDIVIDUAL). A personalidade do artista confunde-se com a obra.
•Disparidade entre a quantidade da produção de Haydn-Mozart e Beethoven: obras mais longas e dificuldade de escrever.
•Relação com os patronos: isolamento social e tempo para criar. O público ideal e universal.
•Influência de outros compositores: além de Bach, Haydn e Mozart; Muzio Clementi (1752-1832), Jan Ladislav Dussek (1760-1812).
•A surdez já se manifestava em 1796 e em 1820 Beethoven chega ao estágio final.

A Obra de Beethoven
•Geralmente as composições de Beethoven são ordenadas em três fases distintas, como forma cômoda de organizar uma reflexão sobre sua música.
•Fase 1: até c.1802 (Beethoven muda-se para Viena em 1792) Ex: Sonatas para piano até Opus 14 (as 10 primeiras sonatas), até a Segunda Sinfonia, quartetos de corda Opus 18.
•Fase 2: até c. 1816 (fase de “independência”) Ex: até a Oitava Sinfonia, Concertos para piano e violino, Sonatas para piano até Opus 90, ópera Fidélio, quartetos de corda Opus 59, 74 e 95.
•Fase 3:até sua morte em 1827 (fase “introspectiva e meditativa”) Ex: Nona Sinfonia, Variações Diabelli, Missa Solemnis, quartetos de corda Opus 127,130, 131, 132 e 135.
Beethoven e os Românticos
•Mudanças na instrumentação da orquestra.
•Dificuldade de compreensão de seus contemporâneos (sobretudo das últimas obras).
•Composições que mais influenciaram as gerações seguintes: quartetos Opus 59 (Rasumovsky), Sinfonias 5,6 e 7, sonatas para piano.
•Música programática: música instrumental associada a uma matéria poética, descritiva ou mesmo narrativa, não por meio de figuras retórico-musicais nem pela imitação dos sons e dos eventos naturais, mas pela SUGESTÃO IMAGINATIVA.

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Música Romântica Vocal

Características da Música Romântica
•Apesar de usarem esquemas de composição semelhantes aos compositores anteriores (sonata, sinfonia, concerto, missa, canção, etc.), a música romântica apresenta algumas diferenças técnicas.
•Ex: uma peça de piano de Chopin ou Schumann pode ser compreendido como uma série de episódios pitorescos sem qualquer vínculo forte que garanta unidade formal do conjunto da obra. Porém, os oratórios ou sinfonias românticas conseguia um novo tipo de unidade, apresentando o mesmo tema ou motivo em vários andamentos.

LIED
•Influência da Balada do Século XVIII: poemas longos, onde a narrativa e o diálogo alternam numa história repleta de peripécias românticas e incidentes sobrenaturais.
•A Balada expande a concepção do Lied na forma, âmbito e conteúdo emotivo.
•Importância do piano: que passa de um simples acompanhamento ao papel de apoiar, ilustrar e intensificar o sentido da poesia.
•Franz Peter Schubert (1797-1828); Robert Schumann (1810-1856); Johannes Brahms (1833-1897).
•Schubert: escrita pianística rica, muitas vezes sugerindo uma imagem pictórica do texto, não meramente imitativos, mas no sentido de contribuírem para o clima da canção.
•Schumann: música tipicamente romântica marcada pelo lirismo e pelo colorido harmônico, mas mantendo a serenidade e equilíbrio clássico. Obras de maior vulto: canções de amor (em 1840 casa com Clara Wieck).
•Brahms: Arranjos de muitas canções populares alemãs. Preocupação de não prejudicar a melodia com um acompanhamento complicado ou harmonicamente inadequado. Um dos maneirismos mais recorrentes é a construção de uma linha melódica sobre as notas da tríade ou em torno delas, omitindo, por vezes, a fundamental.

Música Coral
•Distinção entre:
•1- obras para coro como parte de uma estrutura mais vasta (coros de ópera, andamentos corais das sinfonias);
•2- obras onde a escrita coral é o foco de interesse;
–2.1.Partsongs (homofônicas, à cappella, sentimento nacional, interesse pelo folclore);
–2.2. Música litúrgica (para ser usada nos serviços religiosos, movimento ceciliano, interesse pelo passado);
–2.3. Obras corais com solistas e orquestra (sobre textos dramáticos apresentadas em concertos e sem encenação);